Em coletiva à imprensa organizada na Embaixada do Brasil em Washington, horas depois da reunião realizada nesta quinta-feira (07/05) com seu homólogo dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o encontro não abordou um dos elementos mais discutidos a esse respeito nos últimos meses: as ameaças norte-americanas sobre a possibilidade de incluir organizações criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em uma lista de grupos considerados por Washington como “terroristas”.
Essa classificação, segundo alguns especialistas em geopolítica, poderia justificar ameaças de intervenção dos Estados Unidos no território brasileiro – postura similar a que o país tem mantido com Venezuela e México, por exemplo.
Segundo a analista internacional Rose Martins, “Lula mostrou (na coletiva) que confia em alguns compromissos com os Estados Unidos, nos quais talvez fosse melhor ter mais cautela”.
“A questão da inclusão do CV e do PCC na lista de organizações terroristas não ter sido discutida é um problema, pois essa é uma das grandes vulnerabilidades do Brasil frente aos Estados Unidos”, acrescentou.
Em conversa com Opera Mundi, Rose mencionou o documento lançado em meados de 2025 pelo Departamento de Estado norte-americano recomendando a classificação de CV e PCC como terroristas.
Ademais, em abril passado, o mesmo Departamento de Estado informou o presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, que tal mudança estaria prestes a acontecer, em reunião realizada em Washington.
A analista internacional também lembrou que os Estados Unidos têm feito movimentos que podem ser preocupantes para o Brasil como a instalação de uma base militar permanente no Paraguai, já aprovada pelo Senado paraguaio, e a abertura de um escritório do Departamento Federal de Investigação norte-americano (FBI) no Equador, em março passado.
Outra medida salientada por Rose foi a criação da iniciativa Escudo das Américas, na qual Trump reuniu governos de extrema-direita da região em torno de uma política coordenada de Segurança.
“Apenas a boa vontade do Brasil em cooperar para o combate ao tráfico internacional de drogas e a lavagem de dinheiro não parece ser argumento suficiente para convencer os Estados Unidos, levando em consideração aquele documento de segurança nacional lançado no ano passado. Se houver um recuo da Casa Branca sobre isso, pode ser um indício de um acordo que envolva outros elementos”, ponderou Rose.

Ricardo Stuckert / Presidência da República
Terras raras
Outro tema comentado por Rose Martins foi a questão das terras raras, na qual a analista internacional questionou a declaração do presidente Lula sobre o projeto recentemente aprovado na Câmara dos Deputados sobre as terras raras.
Se trata do projeto de lei 2780/24, que altera a regulação sobre a mineração de terras raras no Brasil, e que vem sendo elogiado por empresas mineradoras privadas e partidos políticos de direita e extrema direita, mas criticado por setores progressistas.
“Não vejo como algo positivo que o presidente tenha elogiado um projeto que, na prática, favorece mais o setor privado na exploração das terras raras do Brasil”, frisou Rose.
A especialista também contrastou o fato de Lula dizer nos Estados Unidos que o Brasil está aberto a aceitar investimentos e cooperação na exploração das terras raras.
“Nós sabemos que quem tem capacidade de fazer esse investimento e essa exploração em condições mais favoráveis ao Brasil é a China, que, além do mais, é o país que domina a cadeia produtiva das terras raras”, ressaltou Rose.
O post Omissão sobre CV e PCC em reunião com Trump merece desconfiança de Lula, diz especialista apareceu primeiro em Opera Mundi.