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“Os EUA não têm direito de impor sua força ao mundo”, afirma embaixador do Irã no Brasil

Em meio à escalada militar que colocou o Oriente Médio no centro de uma das maiores crises geopolíticas recentes, o embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadirli, conversou com a Focus Brasil, em Brasília enquanto os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o território iraniano ampliavam o temor de uma guerra regional de grandes proporções e aprofundavam a instabilidade internacional.

Segundo dados apresentados pela Embaixada do Irã no Brasil, mais de 3.300 pessoas morreram durante os 40 dias da ofensiva americano-israelense, entre elas 262 crianças menores de 13 anos.

 O governo iraniano também afirma que 140 monumentos históricos foram danificados em 20 províncias do país, atingindo parte significativa do patrimônio cultural iraniano. Entre os episódios citados pela representação iraniana está o bombardeio contra universidades do país. 

Segundo a embaixada, após ataques que deixaram prédios universitários em ruínas, um estudante da Universidade Sharif tocou ao piano o hino “Ey Iran” em meio aos escombros, imagem que passou a circular como símbolo de resistência no país.

O Itamaraty também manifestou preocupação com ataques a instalações civis e reiterou a defesa histórica brasileira do uso pacífico da energia nuclear e da não proliferação de armas nucleares.

Ao longo da conversa, Ghadirli afirmou que o Irã foi alvo de uma ofensiva planejada em meio a negociações diplomáticas e sustentou que o país atua amparado pelo “direito legítimo de defesa”. “Nós fomos agredidos, nós fomos invadidos. Segundo o direito internacional, o Irã tem o direito de legítima defesa porque é um país que foi atacado”, declarou.

Campanha por aluno morto durante os ataques: só sobraram seus sapatos. Foi dado como desaparecido após o bombardeio à escola em 28 de fevereiro de 2026 Foto: Embaixada do Irã no Brasil

“Não existe mais unilateralismo”

O embaixador também criticou a cobertura da imprensa ocidental sobre o conflito e afirmou que o cenário internacional vive uma ruptura da ordem construída após a Segunda Guerra Mundial. “Esse ato de agressão cometido pelos Estados Unidos mostrou que os interesses unilaterais não existem mais no mundo”, disse. Para o diplomata, a reação iraniana demonstrou que “o unilateralismo não funciona mais” diante da reorganização geopolítica em curso.

Ghadirli ainda criticou a postura da União Europeia diante da crise e afirmou que o bloco perdeu protagonismo internacional. “A União Europeia não conseguiu mostrar que é uma união independente e que busca os interesses dos europeus nas questões internacionais”, afirmou.

Leia entrevista completa: 

Seu país está sendo atacado por duas grandes potências militares. Então, entendo que o nosso ponto de partida aqui tem que ser um pouco de o que o Irã tem a dizer sobre o que está acontecendo.

– Você mencionou corretamente. O primeiro país que você mencionou é os Estados Unidos, que é a maior potência militar e bélica do mundo. E a identidade que se conhece como a maior potência militar do Oriente Médio, que é o regime sionista. No meio das negociações, pela segunda vez, eles invadiram, agrediram e atacaram o Irã de uma forma inesperada.

Nesse segundo ato de agressão, em 28 de fevereiro, assassinaram o líder supremo da República Islâmica do Irã na sua residência. Junto com os membros da sua família. A sua neta de apenas 11 meses, chamada Zahra. 

Depois, rapidamente, eles atacaram uma escola que ficou muito famosa no sul do país, na cidade de Minab. Eles atacaram com bombas que explodem duas vezes. Aproximadamente 170 pessoas, incluindo professores, alunos, crianças e familiares perderam suas vidas. É interessante que um país considerado a maior potência bélica, a maior potênciamilitar do mundo, primeiro, disse que o próprio Irã quem disparou os mísseis Tomahawk que atingiram essa escola.

Depois, os militares americanos confirmaram que esse tipo de míssil somente pertence aos EUA. Só então, eles assumiram essa crueldade. Com uma justificativa extremamente fraca, eles justificaram que usaram os mapas feitos 10 anos atrás, que mostravam que o local pertencia a uma base militar. 

Muitos ataques durante esse período foram sobre as escolas, hospitais, residências, universidades, entre outros locais civis. Toda ação cruel que pudesse ser feita, esses dois regimes fizeram. Durante esses cinquenta dias de ataques, nós não temos mais do que a roupa e o sapato do aluno que foi assassinado, que se chamava Makan Nasiri. O meu colega vai enviar essa foto para vocês, para que vocês possam usá-la.

– As notícias que nós temos aqui tem um viés muito claro sobre o motivo do Irã atacar o regime iraniano, Com uma ideia de que seja um pouco um regime tirano, Porém, para quem se aprofunda um pouco, é uma contradição muito grande esse argumento, Porque, por exemplo, o Irã é um dos únicos países da região que tem eleições. Então, eu gostaria de saber, do ponto de vista iraniano, qual é o motivo para esse ataque?

Vejam bem, eles têm problemas com países que buscam pela sua independência, com países que têm os seus próprios princípios. O Irã mostrou que é um país que tem, de certa forma, o objetivo da sua independência. E, por conta disso, eles fazem todo o esforço para colocar o Irã como um país que não tem eleição, que viola os direitos humanos, que não dá atenção aos direitos das mulheres e muitos desses assuntos.

Uma grande parte das notícias que eles compartilham é para prejudicar o Irã e também, de certa forma, prejudicar a imagem do Irã. Então, sempre precisa ter uma visão crítica sobre as notícias que são compartilhadas por meio de main streams, ou por meio das correntes principais de comunicações ocidentais ou dos EUA.

O Donald Trump vem colocando o mundo todo sob um nível de tensão que não tem precedentes. A Europa, como bloco político e também militar, vem sendo solicitada a agir e a tomar posições. E eu queria saber se o senhor pode responder sobre como o Irã tem visto essas movimentações da União Europeia em meio a esse conflito.

Infelizmente, a União Europeia não conseguiu mostrar que é uma união independente e que é uma união que busca os interesses dos europeus nas questões internacionais. De certa forma, pode-se dizer que ela ficou no “cantinho” quando houve os assuntos mais importantes e os acontecimentos recentes mais importantes no mundo. E colocou a sua posição como um nível de terceiro ou quarto grau de importância. 

Bom, esse é um conflito que obviamente o Irã não procurou e eu queria saber qual é a saída para esse conflito ao fim e ao cabo.

Como você bem mencionou, nós fomos agredidos, nós fomos invadidos. Segundo o direito internacional, o Irã tem o direito de legítima defesa porque é um país que foi atacado, foi invadido. Portanto, nós temos, conforme o nosso legítimo direito de defesa, as programações estratégicas e os planos para nos defender. Nossas ações fizeram eles se arrepender. Eles receberam as nossas respostas. E temos outros planos para entrar em vigor.

Nós conseguimos puni-los. Só que os nossos planos para o futuro dependem das ações dos inimigos. Quanto mais eles continuarem a praticar os seus atos de agressão, vão ver de forma mais poderosa as nossas respostas e as nossas punições.

– A gente vive um momento de ruptura do sistema que vige desde o pós Segunda Guerra Mundial. Aparentemente, estamos em um momento no qual os Estados Unidos tentam manter o seu poder através da força no mundo, enquanto a China e outras nações tentam construir um mundo mais baseado no multilateralismo. Qual é a perspectiva iraniana sobre essa nova possível era geopolítica que podemos viver em breve?

Bom, esse ato de agressão cometido pelos Estados Unidos mostrou que os interesses unilaterais não existem mais no mundo. E a nossa resposta de dissuasão mostrou que o unilateralismo não funciona mais no mundo. Não existe um poder unilateral quando eles não conseguem realizar os seus objetivos de atos de agressão em um país que o seu poder militar não é proporcional a eles. Eu posso dizer a vocês que depois dessa guerra nós entramos num formato novo dos desdobramentos do mundo.

Talvez eu não possa dizer de uma forma detalhada como seria esse novo sistema mundial agora. Mas posso dizer que não existe mais unilateralismo.