A sociedade brasileira é tão desigual que não resolveu algumas questões fundamentais de sua história. Em relação ao povo negro, as vantagens dadas ao branco e sua classe, bem como a intolerância religiosa tem origens profundas que precisam ser conhecidas. E confrontadas.
André Luiz| Petrolina (PE)
OPINIÃO- A filosofia e a educação nos ensinam que a resistência nos permite avançar sobre os marcadores sociais da sociedade escravagista. A resistência das religiões afro-brasileiras representa a força para obliterar o racismo multifacetado na organização social fundamentada a partir de 1850 com a Lei de Terras e a criminalização da cultura afro-brasileira pós-abolição. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo desnudar a estruturação da sociedade brasileira pela ótica da branquitude.
A representação da população negra brasileira aprisiona conceitos ainda subjacentes. O pacto da branquitude regulamenta o funcionamento uniforme nos processos e ferramentas até de seleção de perfil dos empregados. A seleção de cargos de liderança, em sua maioria ocupados por homens brancos, transmite o que a sociedade interpreta como pacto da branquitude. Trata-se de um pacto não verbalizado entre pessoas brancas para manter privilégios que foram herdados do passado de exploração de africanos escravizados.
Existe uma competição imagética, dentro do segmento que os considera iguais em privilégios. O pacto da branquitude, enquanto acordo não verbalizado, atua como uma profunda conexão de alianças de prerrogativas naturalizadas como se fossem parte do “normal” da sociedade. Esse sentimento de advertência está alocado no cerne do preconceito, da representação e da forma que reagimos a tal fenômeno, dessa forma constatamos a representação excessiva de sujeitos em locais mais qualificados não porque são qualificados, mas devido ao pacto narcísico da branquitude, assim sendo, se constata ausência de negros e negras em locais de liderança.
Contudo, seguindo na linha do pacto narcísico, corroborando para a objeção as políticas públicas destinadas ao público que fora alijado pelos longos 388 anos de escravidão. As religiões de matriz africana, sobretudo o candomblé, foram submetidas ao processo de aculturação, ou seja, reabilitadas para o novo “mundo”. O ponto central do apagamento surge da sociedade colonial portuguesa ancorada na religião cristã. A religião foi utilizada como ferramenta de dominação apagando a crença que não fosse dos colonizadores.
Pouco se sabe sobre a História das religiões afro-brasileiras no século XIX. As informações sobre os adeptos vinham de duas fontes: Registros policiais e as notícias de jornal. No fim do século XIX surge a Lei Áurea ‘libertando’ os escravizados e pondo fim simbólico as agruras do corpo, mas a perseguição partiu para alma como afirma Clastres:
Se o termo genocídio remete à ideia de “raça” e à vontade de extermínio de uma minoria racial, o termo etnocídio aponta não para a destruição física dos homens (caso em que se permaneceria na situação genocida), mas para a destruição de sua cultura. O etnocídio, portanto, é a destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de povos diferentes daqueles que empreendem essa destruição. Em suma, o genocídio assassina os povos em seu corpo, o etnocídio os mata em seu espírito. Clastres (2004, p. 56).
Em meados do século XX quando a perseguição se deslocou do físico para o espiritual a caçada aos terreiros não mais estava ancorada estritamente nos registros policiais, mas na perseguição à religião, severamente acusada de ‘baixo espiritismo’. Nessa perspectiva, a classe média carioca branca que deseja consumir elementos da religião dos cativos africanos adapta-se aos elementos para tornar-se a religião que seria puramente brasileira, higienizada e, sobretudo, civilizada, surge a Umbanda.
Religião de claro predomínio banto, descendentes das “macumbas cariocas” é eleita bem de consumo da classe média. O ponto de divergência da Umbanda para o Candomblé era o abate religioso, conforme Nogueira (2020, pag.97). A informação negada básica pelos “herdeiros” da religião africanizada é o fato de a abate religioso ser parte da alimentação tradicional da comunidade, contrapondo, o ato sádico que ainda persiste no imaginário popular. Ademais, a brutalidade de como os abates ocorrem nos matadouros, são diametralmente antagônicos aos processos litúrgicos da religião.
A leis de terras foi o mecanismo que escalonou o distanciamento da integração do negro na sociedade no possível pós-liberdade. A preocupação dos latifundiários era a propriedade estar nas mãos dos escravizados, foi algo que gerou apreensão pela legislação vigente, tendo em vista, que somente o Estado era o proprietário de terras, pois somente eles poderiam administrar o processo de inclusão dos escravizados na sociedade de donos de terra.
Clóvis Moura reafirma que no Brasil, as leis foram subdivididas em dois grandes conglomerados: 1° Escravismo pleno, onde as leis que não versavam com o fim da escravidão, dentre elas a famigerada Leis de Terras; 2° Escravismo Tardio, iniciando-se em 1871 com a Lei do Ventre Livre até a Lei Áurea que cedeu “liberdade” aos escravizados. A luta pelo reconhecimento e o respeito aos cultos de matriz africana ainda hoje representam uma bandeira legítima de nosso povo.