Notícias

Padilha abre mão de ir à ONU após constrangimento de Trump

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou nesta sexta-feira (19) que desistiu de viajar a Nova York para a Assembleia-Geral da ONU depois que o governo de Donald Trump impôs restrições à sua circulação. 

O Departamento de Estado dos Estados Unidos autorizou a entrada do ministro em território norte-americano, mas determinou que ele ficasse restrito a um perímetro de cinco quarteirões, entre o hotel, a sede da ONU, a missão do Brasil e a residência do representante brasileiro. 

A saída desse raio só seria possível em casos de urgência médica ou mediante autorização especial de Washington.

Para aliados de Padilha, a decisão norte-americana foi uma afronta não apenas ao ministro, mas ao Brasil e ao próprio acordo de sede da ONU, que obriga os Estados Unidos, como país anfitrião, a garantir a plena participação de delegações estrangeiras. 

A leitura feita no governo é de que Washington tentou impor uma humilhação pública ao país em um contexto de relações já desgastadas. Na avaliação de Padilha, aceitar tais condições significaria legitimar um ataque à soberania nacional, motivo pelo qual optou por cancelar a viagem.

Em carta divulgada no mesmo dia e endereçada aos ministros da Saúde da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde), o titular da pasta classificou o episódio como uma “decisão arbitrária e autoritária, que afronta o direito internacional e prejudica a cooperação harmônica entre países soberanos”. 

“Os pretextos alegados para esse ato não têm qualquer amparo nem na realidade dos fatos nem no arcabouço legal que rege a relação entre os países, na medida em que tenta fabricar acusações infundadas e descabidas contra o programa Mais Médicos, criado em 2013”, acrescentou. 

A carta conclui que a restrição “merece repúdio”.

No documento, Padilha recordou que seu pai, Anivaldo Padilha, foi preso e torturado pela ditadura militar brasileira e viveu anos de exílio nos Estados Unidos, no Chile e na Suíça. 

“Em razão desse exílio, só aos oito anos de idade pude conhecê-lo, juntamente com meus dois irmãos, ambos nascidos no exílio”, escreveu. 

O gesto buscou mostrar a contradição entre a acolhida que sua família recebeu no passado e a política de exclusão agora adotada pelo governo norte-americano.

O ministro ainda destacou que as medidas impostas tentam restringir o Brasil no exercício pleno de seus direitos. 

“Além desses efeitos, essa proibição tenta impor ao Brasil a exclusão parcial de seus direitos, retirando-nos as prerrogativas garantidas aos Países Membros pelo Acordo de Sede com a ONU”, afirmou. 

Para diplomatas ouvidos pela imprensa brasileira, o quadro foi “lamentável” e “humilhante”, ampliando a percepção de que Trump instrumentalizou a posição de país-sede da ONU para constranger uma autoridade brasileira.

A impossibilidade de comparecer à reunião da Opas, marcada para 29 de setembro em Washington, também pesou na decisão. 

Como as restrições não tinham perspectiva de reversão, o governo brasileiro avaliou que seria preferível expor a arbitrariedade norte-americana em vez de submeter o ministro a uma condição degradante. 

Ainda nesta sexta-feira, o chanceler Mauro Vieira declarou que o Itamaraty havia acionado o secretário-geral da ONU, António Guterres, e a presidência da Assembleia-Geral para interceder junto a Washington. 

“São restrições sem cabimento, injustas e absurdas, e nós estamos pedindo a interferência do secretário-geral junto ao país sede”, afirmou Vieira, em entrevista coletiva ao lado da chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, em visita a Brasília. 

O chanceler reforçou que o governo norte-americano descumpriu a obrigação de garantir livre acesso a representantes de países-membros.

Com visto, Haddad também não vai para NY

Enquanto Padilha cancelava sua viagem, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também confirmou nesta sexta-feira que não embarcaria para Nova York, mesmo tendo obtido visto dos EUA. 

No caso dele, a decisão não decorreu de restrições, mas da opção de permanecer em Brasília para acompanhar votações cruciais no Congresso Nacional. A ausência, no entanto, ocorre no mesmo cenário de tensão com Washington, marcado pela imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros por parte de Trump.

No ano passado, Haddad esteve presente na cúpula da ONU e manteve reuniões com agências de classificação de risco. 

Desta vez, a Fazenda explicou que sua prioridade é a agenda legislativa, em especial o projeto que eleva a faixa de isenção do Imposto de Renda para R$5 mil e a medida provisória que aumenta tributos. 

Com a desistência de Padilha e a ausência de Haddad, o Brasil chega à Assembleia-Geral da ONU de 2025 sem dois de seus principais ministros. A cúpula internacional, neste ano, simboliza o agravamento de uma tensão bilateral que já transbordou da diplomacia para a economia, com impacto direto sobre a imagem e os interesses do Brasil.

O post Padilha abre mão de ir à ONU após constrangimento de Trump apareceu primeiro em Vermelho.