
O caso das eleições estaduais nesse ano, traz à tona uma antiga e falsa ‘polarização’, termo na moda entre os especialistas da burguesia. Na verdade, aquilo que vemos em todo o país são as disputas entre as mesmas e velhas famílias, que se revezam no poder enquanto nós, trabalhadores, sofremos no dia a dia com as consequências dessas disputas. A eleição em Pernambuco é um bom exemplo dessa falsa disputa.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
OPINIÃO- A campanha para governador em Pernambuco em 2026 pega fogo na palha ou estrume seco atiçada pelo prefeito João Campos do Recife (PSB) e pela governadora Rachel Lira (PSD) que busca a reeleição. Os dois jogam na desqualificação e desmoralização do adversário. A imprensa sensacionalista e mídias patrocinadas por eles jogam azeite na fogueira. Assim eles vendem a imagem pública de concorrente arquirrivais. Só que não.
Não passa de falsificação esta bipolaridade de posições políticas. A governabilidade efetiva de ambos possui os mesmos compromissos e vícios. As diferenças de estilo e pessoais são irrelevantes. Nas questões de Estado e governança são idênticos. No essencial, representam os estratos sociais e os interesses da burguesia.
Não assumem compromissos com participação popular nas decisões, com a democracia, nem transparência na gestão da coisa pública. Os ricos burgueses podem trocar um pelo outro – seis por meia dúzia – e continuam numa boa. Porque as raposas, machos ou fêmeas, com pelugens cinzas ou prateadas não deixam de ser raposas.
Neocoronelismo
Nenhum dos dois candidatos é oriundo de classes subalternas, populares. Tampouco assumem claramente compromissos de representar os interesses dos trabalhadores e da maioria do povo. Nasceram em berço de ouro. A “meritocracia” dele e dela é a herança de famílias oligárquicas influentes em Pernambuco, de pais, avós, tios…
Os novos coronéis mudam as formas – superfície, aparência – e conservam as essências do velho sistema de dominação, do clientelismo da “política de governadores” adaptadas aos tempos atuais. Uso e abuso da máquina no clientelismo da troca de favores. Na falta de democracia e de transparência.
Nas licitações – imprecisões nos editais – audiências públicas – açodadas e atabalhoadas – quase secretas. Decisões bilionárias sobre questões de grande interesse social: abastecimento de água, transporte urbano, uso do solo e prédios públicos. Abusam do poder econômico e do controle político. Despejam milhões na propaganda dessa mídia “minha verba, minha vida” serviçal da burguesia.
Liberais
João Campos e Rachel Lira adotam em Recife e em Pernambuco políticas de privatizações neoliberais. Patrimônio público, espaços de lazer, empresas, áreas e prédios públicos que pertencem ao povo da cidade e do Estado passam às mãos de ricos particulares, investidores que vão ganhar mais dinheiro e ficar mais ricos, as custas da população. Douram a pílula com nome de “revitalização”, de “concessões parciais” e Parcerias Públicas Privadas – PPP.
Assim, Rachel mete a mão na Compesa – Companhia de águas e saneamento pública. Intenta investimento público para ‘melhorar’ o Metrô do Recife e depois passar às mãos dos clientes privados. João pincela melhorias de espaços de lazer e privatiza parques reduzindo áreas de lazer da população, atravessa goela abaixo sem debate – audiência pública de 20 minutos – o negócio imobiliário bilionário do “Distrito Guararapes” da privatização do centro do Recife.
Dois neoliberais como moedas de cara e coroa, herdeiros do coronelismo. Dos métodos antidemocráticos, sem discussão, simulação de consultas da população. Sobre questões que precisavam amplo debate, de impactos ambientais, lazer público, economia – do bolso da população mais pobre.
Não usam transparência nos editais de licitação das privatizações. Simulam audiências públicas e usam máquina e dinheiro para aprovação na Câmara e na Assembleia Legislativa da distribuição dos privilégios como faziam os donatários das capitanias com os foreiros. Negociatas pelo alto, pescarias em águas turvas e o povo a ver navios…
Dois atores de talento discutível disputam a ribalta do espetáculo eleitoral burguês em Pernambuco. O dramaturgo Pirandello escreveu “Arlequim Servidor de Dois Amos”. Em Pernambuco calhava mudar o nome da peça: “Arlequim e Colombina Servidores do mesmo Amo”. Pois ambos servem as mesmas classes dominantes.
Espetáculo de teatro de baixíssimo nível, marcado pela troca de acusações, perseguições, difamações e banalização de factoides em pedidos de impeachment. Ambos adotam a estratégia de desqualificar e desmoralizar o oponente. A quem serve tal “radicalização”? É casual? Desde o século XVI o realismo de Maquiavel ensina que em política nada é o que parece, nem acontece por acaso.
Novos Velhos
O povo pernambucano precisa romper com a velha tradição coronelística, o clientelismo autoritário da velha política. Do atraso das hegemonias oligárquicas, das campanhas eleitorais de faz de conta e deseducadoras. Ainda que travestida de jovialidade e modernidade na aparência.
Eles debatem propostas? Assumem compromissos claros para o desenvolvimento econômico, social, político e cultural de Pernambuco? Quais são as obras estruturantes de infraestrutura assumidas? Quais são as políticas públicas de melhoria das condições de vida da maioria da população? da saúde, educação, geração de emprego, renda e moradia popular?
Quais projetos são voltados para atacar a pobreza extrema? Para erradicar a mendicância, abrigar os “moradores das ruas”? Quais projetos para melhorar investimentos na educação e saúde públicas e gratuitas tornando-as de referência? Que dizem da tarifa zero de transporte público para trabalhador de baixa renda? De mudar a escala de trabalho 6/1? Do destino dos funcionários demitidos nas privatizações? Dos incentivos e promoções da cultura, ciência e tecnologia?
Tais questões deviam radicalizar o debate político. Sobre elas guardam silêncio sepulcral. Mas gritam como porcos antes de morrer nas trocas de acusações de quem aponta erros do outro com dedo sujo. São assim os queridinhos e preferencias da burguesia, do grande empresariado, da imprensa. Não debatem programas. Não assumem compromissos. Dois candidatos e um só projeto de governança da burguesia.
Não podem e não falam a verdade nua e crua de que governam, fundamentalmente, para as elites, as classes abastadas. Fazem ouvido de mercador, silenciam no que interessa. Jogam farinha no ventilador para engabelar os tolos no que não interessa, nessa farsa de radicalização, cortina de fumaça lançadas para ocultar que ambos servem aos mesmos e estes não são os pobres das periferias que formam a maioria.
Guerra de propaganda
Na propaganda da governadora – “a gente cuida e sua vida muda” – a jovem senhora quer vender imagem de trabalho e seriedade. Do lado do jovem prefeito a propaganda diz “Recife de todos e de todas” para vender imagem administrativa de obreiro e moderno. Eles torram milhões com publicidade – João Campos limou 55,7 milhões em propaganda e marketing (BCA Propaganda Ltda. – 19,3 milhões, Labox Comunicações, 11,7 milhões (2025), Rachel Lyra limou de janeiro a julho do ano passado 52,3 milhões.
Recife e Pernambuco reais são bem diferentes da propaganda oficial. O Estado tem uma das taxas de desemprego maiores do Nordeste. A capital é a terceira mais cara, do custo de vida mais alto da região. Tem mais de dez bairros sem abastecimento de água regular, morros e alagados do Norte e oeste na capital. Transporte urbano caro e precário. Alheios ao drama dos mais pobres os dois “rivais” só apresentam vantagens imaginárias.
Antagonismo de verdade
Sob o capitalismo o antagonismo de classes entre exploradores e explorados, opressores e oprimidos é demarcado pela luta entre a burguesia, senhores do capital e o proletariado do mundo do trabalho. As polícias de alianças, na verdade de conciliações com representantes das classes dominantes tem mergulhado a nação e o povo de Pernambuco no empobrecimento, na exclusão social e na miséria.
Destina-se mais dinheiro para pagar juros de ricos banqueiros da dívida. Pagou-se em 2025 nada menos 233, trilhões- débito que não é do conhecimento do povo – que com saúde e com educação.
A alternativa nessas eleições
Não compete aos comunistas armar o palanque do pastoril eleitoral da burguesia. O papel dos comunistas autênticos é lutar contra a burguesia, denunciar a corrupção do capitalista como balcão dos negócios dessa classe exploradora dos trabalhadores e da maioria do povo. Neste sentido, participaremos das eleições com autonomia, isso significa livre de acordos e compromissos com partidos e coligações da burguesia. A lista de tarefas da Unidade Popular nessas eleições está estabelecida. Como bem lembrou Engels: “Nenhum dos nossos candidatos tem obrigação de apoiar algum partido ou alguma medida, a não ser o programa do nosso partido”.
Foi nesse espírito que a Unidade Popular apresentou a pré-candidatura de Camila Falcão para disputar o voto e a consciência da classe trabalhadora pernambucana. Indo na contramão de tudo que tem sido posto como ‘opção’, uma professora, filha de trabalhadores e militante das causas sociais. Alguém que defende o programa do poder popular e socialista, que ergue, com entusiasmo a bandeira da luta e do combate a todas as mazelas do capitalismo, mostrando aos pernambucanos que há saída para além dessa disputa de quem vai administrar o Estado para os ricos e continuar nosso povo no sofrimento, mesmo Pernambuco seja tão rico.