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Para entender a fundo as desigualdades globais

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Quase metade da população mundial vive na pobreza. Em contrapartida, a riqueza dos bilionários aumentou 81% desde 2020. Os bilionários têm ainda, 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos do que pessoas comuns. No Brasil, o 1% mais rico já concentra 24,3% de toda a renda do país, segundo dados da Oxfam. A desigualdade, ampliada como nunca sob o capitalismo tardio, é um tema tão relevante quanto negligenciado pelas mídias comerciais. Mas como examiná-la, em detalhes?

Uma iniciativa lançada há poucas semanas dá pistas importantes. O site Our World in Data (OWID) – que foi a principal referência no acompanhamento das consequências da covid-19 – tornou pública, na internet, a ferramenta Desigualdades Econômicas. Talvez o título seja modesto. A partir do site criado por OWID, é possível acessar, de modo interativo, tanto estatísticas globais antes pouco visíveis quanto um conjunto de estudos sobre elas.

Os textos revelam: os primeiros estudos sobre desigualdade, em um contexto de industrialização, urbanização acelerada e transformação profunda nas relações de trabalho, focaram na relação capital x trabalho. Examinavam que fatia da renda dos países destinava-se aos capitalistas e a que quinhão era destinado aos trabalhadores. Tais estudos renda foram de grande relevância à época. A partir dessa base inicial, surgiram ao longo do século XX outras análises que procuravam compreender como a renda total é dividida entre os indivíduos ou famílias e complementavam os trabalhos iniciais com informações mais detalhadas sobre a desigualdade entre as populações.

Esta busca abriu espaço para medidas estatísticas como o coeficiente de Gini. Ele varia de 0 a 1. Quanto mais perto o coeficiente calculado sobre uma determinada realidade estiver de 0, mais próximo da igualdade perfeita; quanto mais próximo de 1, maior a concentração de renda. Foram criadas também as Curvas de Lorenz, gráficos que comparam a distribuição real da renda com uma distribuição hipotética perfeitamente igualitária. Surgiu a técnica de dividir as populações em decis e centis — para examinar como a renda total flui para cada fatia de 1/10 ou 1/100 de uma determinada sociedade. E cresceu, também, a preocupação com os efeitos da desigualdade na economia.

A busca por melhorias na mensuração da desigualdade segue até hoje. O avanço na coleta e cruzamento de dados em escala global ampliou o debate sobre o assunto. Fontes e metodologias foram concentradas em plataformas de acesso público. Fundada pelo economista e historiador Max Roser e mantida em parceria com pesquisadores da Universidade de Oxford, a plataforma Our World in Data (OWID) busca ampliar estes estudos. As ferramentas recém-lançadas baseiam-se em três fontes principais: a Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial, o Estudo de Renda de Luxemburgo e a Base de Dados Mundial sobre Desigualdade.

Ao organizar e popularizar os dados da Plataforma sobre Pobreza e Desigualdade (PIP) do Banco Mundial — que abrangem quase todos os países do mundo, a OWID joga luz sobre a desigualdade interna de cada países. Ao fazê-lo, permite também algumas comparações internacionais. O gráfico abaixo permite compreender a lógica. A cada país são associados dados mostrando quanto o decil superior (os 10% mais ricos) tem renda superior ao inferior. Acompanhe: apesar de os ricos dos Estados Unidos terem rendas mais altas que seus pares na Alemanha, o cenário se inverte na base. Uma pessoa entre as 10% mais pobres da população alemã vive um pouco melhor do que sua equivalente estadunidense.

A distância fica ainda mais evidente quando o comparativo envolve países de baixa renda: em Angola e Madagascar, mesmo quem está no topo da distribuição de renda vive com valores muito baixos se comparado aos padrões de nações com mais renda, a ponto de o “rico” desses países ser considerado, pelos parâmetros internacionais, pobre. Os países listados a seguir são apenas um exemplo. A interatividade da ferramenta presente na plataforma permite incluir ou excluir da lista dezenas de países, o que torna as comparações particularmente interessantes.

Razão entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres – Fonte: Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial (2026), via Our World in Data. Licenciado sob CC BY, autor Joe Hasell.

PARA ENTENDER O GRÁFICO: No Brasil, quem está na faixa dos 10% mais pobres vive, segundo o Banco Mundial, com US$ 161 por mês, enquanto quem está entre os 10% mais ricos tem uma renda de US$ 1.626 — uma diferença de 10 vezes. Embora o Vietnã e Madagascar apresentem a mesma diferença de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres, a renda dos mais pobres do segundo país é mais de cinco vezes menor que a dos mais pobres do primeiro. Além disso, a renda do decil mais pobre no Brasil é menor do que a do mesmo grupo no Vietnã.

Por que não compreendemos como o mundo é desigual

Os artigo da nova plataforma do OWID levantam um segundo ponto importante: pessoas de países ricos desconhecem que a maioria da população mundial vive com uma renda muito baixa; logo, subestimam quão desigual o mundo realmente é. Os dados do Banco Mundial, estimaram para 2026 uma renda mediana global de U$ 290 por mês. Metade da população mundial vive com menos do que esse valor.

A existência de dados que permitam a análise da desigualdade para além de nossas experiências individuais e que permitam pensar na desigualdade econômica em termos globais serve para demonstrar que o problema da desigualdade é bem maior, complexo e cercado de fatores que a maioria não imagina. Um deles, sustenta a OWID, são as escolhas institucionais e políticas.

Renda ou consumo mensal por decil (do mais pobre ao mais rico) em quatro países (dólares ajustados pela inflação e custo de vida). Fonte – Plataforma de Pobreza e Desigualdade do Banco Mundial (2026), via Our World in Data. Licenciado sob CC BY, autor Joe Hasell.

PARA ENTENDER O GRÁFICO: Em todos os países retratados, a renda no topo cresce mais rápido que na base. Nos EUA, o distanciamento entre o decil mais rico e os demais se acentua sobretudo na última década, com o topo disparando enquanto a base permanece quase estagnada desde 1963. No Brasil, a linha dos mais ricos oscila bruscamente entre 1981 e 1994 e sofre uma queda visível no início dos anos 2020, antes de retomar a trajetória de alta. Na Bélgica, a distância entre os decis é a menor entre os quatro países: o crescimento é mais uniforme e gradual. Já na China, o padrão é o mais extremo: partindo de uma base extremamente baixa até os anos 1990, a renda do decil mais rico cresce de forma quase exponencial a partir dos anos 2000, abrindo um grande espaço em relação aos decis mais pobres.

A OWID ainda aponta que existem limitações quanto à comparabilidade dos pontos de dados entre os países ao longo dos anos. A combinação de dados de renda e de consumo, que estão relacionados, mas não são iguais, pode atrapalhar estimativas. Quem ganha mais, geralmente tem o consumo menor do que a renda; já quem ganha menos pode, em grande parte das vezes, ter o consumo maior que a renda, o que leva à busca por empréstimos ou à utilização de suas economias. Isso faz com que a desigualdade seja maior quando baseada em renda ao invés de dados de consumo.

Outra limitação dos dados do Banco Mundial é a dificuldade para captar a renda dos mais ricos. O grupo abrange os menos propensos a participar das pesquisas, problema denominado de “ricos ocultos”. Quando participam, costumam subdeclarar sua renda. A parcela mais pobre também pode ser omitida, pois vive sem endereço fixo ou em áreas que os pesquisadores não conseguem acessar. Segundo o artigo, em 2026, aproximadamente 30 países não possuíam dados de pesquisa da década anterior. O Banco Mundial precisa estimar os dados faltantes para calcular médias regionais ou globais, o que torna essas estimativas menos precisas.

O poder da comparabilidade de renda

A segunda fonte empregada pela plataforma do OWID é Banco de Dados de Estudos de Renda de Luxemburgo (LIS). Possui esse nome por conta do país onde a base de dados é sediada. Abrange 5 décadas de dados de renda, coletados em 52 países da Europa, América do Norte, América Latina, África, Ásia e Australásia. O LIS objetiva priorizar a comparabilidade entre os países através da harmonização de dados dos domicílios individuais, mapeando-os em um conjunto comum de definições.

O LIS emprega um mecanismo conhecido como “equivalência”, técnica estatística utilizada para tornar as rendas comparáveis entre famílias de tamanhos ou composições etárias diferentes. Faz-se um ajuste levando em consideração que, nas famílias, seus membros podem compartilhar gastos, o que traz resultados diferentes para os estudos.

Além disso – e muito importante –. o LIS também trabalha para captar a renda antes e depois dos impostos e benefícios produzidos pelas políticas públicas. Isso permite estudar os efeitos da ação estatal sobre os rendimentos . Segundo estudo publicado pelo Social Science Research Council (SSRC), com base em dados do LIS, a lógica por trás dessa análise é comparar, para as mesmas famílias, dois indicadores de desigualdade: o Gini da renda de mercado (o que a família ganha antes de qualquer intervenção do Estado) e o Gini da renda disponível (o que sobra após pagar impostos e obter benefícios, como aposentadorias e seguro-desemprego). Os pesquisadores explicam que é comum, nesse campo de estudo, considerar a diferença entre esses dois indicadores para medir o quanto cada governo redistribui.

Na prática, essa redistribuição acontece por alguns canais principais: impostos diretos sobre a renda, que retiram (ou deveriam retirar) uma fatia maior de quem ganha mais; e transferências do Estado, como aposentadorias, seguro-desemprego e benefícios assistenciais, que somam renda a quem tem menos. Um levantamento do próprio LIS mostra o quanto esses mecanismos pesam de país para país: em nações como Finlândia, Alemanha, Polônia e Suécia, a combinação de impostos e transferências provocou a redução do Gini nos anos 2000, tornando a renda mais igualitária, em 0,20 ponto ou mais.

Para o OWID, a desvantagem do LIS está em abranger menos países do que o estudo do Banco Mundial. No entanto, é capaz de oferecer maior confiança nas comparações que faz.

A subestimada renda dos mais ricos

O trabalho do OWID chama atenção para um viés presente em todas as pesquisas sobre desigualdade: o fenômeno dos “ricos ocultos”, subestima a verdadeira riqueza acumulada pelo topo da pirâmide. Por múltiplos motivos, quem tem renda muito alta tende a escondê-la. Na tentativa de abordar melhor essa questão, pesquisadores desenvolveram uma abordagem diferente, baseada em fontes como registros fiscais e contas nacionais.

Essa abordagem é a utilizada pelos pesquisadores do Banco de Dados Mundial da Desigualdade (WID), e traz vantagens para o rastreamento de rendas mais altas. No entanto, inclui componentes que as pessoas normalmente não consideram parte de sua renda. Uma desvantagem da metodologia do OWID é a falta de dados subjacentes em diversos países e períodos, o que dificulta a precisão das estimativas e pode levar a suposições ousada demais. Essas estimativas são documentadas em artigos detalhados e em notas técnicas.

Em linhas gerais, apesar das limitações, o conjunto de dados WID é importante para a noção de quanto rendas mais altas são subestimadas e do caminho que a desigualdade percorreu a longo prazo em alguns países.

Leia mais sobre a metodologia do WID.

Fatia da renda do 1% mais rico (antes de impostos) – Fonte: World Inequality Database (WID.world) (2026), via Our World in Data. Licenciado sob CC BY. Onde não há dados de 2024, foi usado o valor mais próximo disponível entre 2019 e 2023.

PARA ENTENDER O GRÁFICO: O mapa mostra a fatia da renda nacional total que fica concentrada nas mãos do 1% mais rico da população de cada país, medida antes do pagamento de impostos (mas já descontadas as aposentadorias públicas e privadas). Quanto mais escuro o vermelho, maior a concentração de renda no topo.

O que a análise da OWID nos diz, afinal

As métricas do trabalho recém-lançado ajudam a entender melhor muitos aspectos sobre a desigualdade. No entanto, nenhuma consegue, sozinha, explicar a desigualdade econômica no mundo – este fenômeno cada vez mais exacerbado e desestruturador. A sensibilidade do coeficiente de Gini para analisar a renda nas extremidades da pirâmide, abordada pelo estudo, exemplifica isso.

Os dados também reforçam que a desigualdade não é mera consequência do crescimento econômico e que as tendências mais consolidadas não são regras fixas. A desigualdade é resultado de escolhas institucionais, fiscais e políticas feitas (ou não) por cada país. Também fica clara a necessidade de compreender as limitações que cercam as metodologias, os dados, nem sempre estarão disponíveis para os pesquisadores.

Mesmo com limitações, os dados trazidos não devem ser descredibilizados. A OWID realiza um trabalho amplo e robusto para medir a desigualdade mundial, o compilado de dados trazidos é ambicioso. No entanto, a tarefa continua sendo um grande desafio técnico e político para ser realizada com precisão.


Referências

CARVALHO, André Roncaglia de; SOUZA, Luciana Rosa de. A evolução conceitual da desigualdade e da pobreza no pensamento econômico. Revista de Economia Política, São Paulo, v. 41, n. 2, abr./jun. 2021. DOI: https://doi.org/10.1590/0101-31572021-3142. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rep/a/WryMCyMCHPCkT3WdS39dySv/?lang=pt. Acesso em: 25 ago. 2026.

OUR WORLD IN DATA. Threshold income or consumption per month for each decile. [S. l.], 2026. Disponível em: https://ourworldindata.org/. Acesso em: 25 ago. 2026.

OXFAM BRASIL. Resistindo ao Domínio dos Ricos: Defendendo a Liberdade Contra o Poder dos Bilionários. Oxfam Internacional, 2026. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/wp-content/uploads/2026/06/1768514534760Davos_2026_BR.pdf. Acesso em: 8 set. 2026.

SOCIAL SCIENCE RESEARCH COUNCIL. Income Inequality in Rich Countries: Examining Changes in Economic Disparities. Items, [S. l.], 2020. Disponível em: https://items.ssrc.org/what-is-inequality/income-inequality-in-rich-countries-examining-changes-in-economic-disparities/. Acesso em: 25 ago. 2026.

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