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Paralisação mantém máquina militar ativa e paralisa serviços sociais nos EUA

O governo dos Estados Unidos entrou em shutdown à 0h01 desta quarta-feira (1º) após Donald Trump e a maioria republicana no Congresso barrarem a liberação de recursos para saúde e programas sociais. 

A paralisação, provocada pela recusa em estender subsídios de saúde e reverter cortes no Medicaid, atinge centenas de milhares de servidores e interrompe serviços públicos em todo o país. Cerca de 750 mil funcionários foram afastados, a maioria sem remuneração, enquanto apenas atividades consideradas essenciais continuam em operação.

A oposição democrata exigia a extensão dos subsídios do Obamacare, que garantem planos de saúde acessíveis para milhões de famílias, e a reversão dos cortes no Medicaid, aprovados em julho no pacote fiscal de Donald Trump conhecido como One Big Beautiful Bill. 

Sem a renovação, calcula-se que 4 milhões de pessoas percam a cobertura já em 2026, enquanto outras 10 milhões podem ficar sem seguro até 2034. Para quem continuar no sistema, os prêmios de seguro terão aumento médio de 75% no próximo ano, segundo levantamento da Kaiser Family Foundation.

O shutdown acontece sempre que o Congresso não consegue aprovar um orçamento ou um projeto de extensão temporária de financiamento. 

Desde 1981, foram 15 paralisações desse tipo, a mais longa delas entre 2018 e 2019, quando o governo ficou 35 dias parado em meio à exigência de Trump por recursos para o muro na fronteira com o México. 

Nessas situações, as agências federais ficam proibidas de gastar recursos adicionais e suspendem atividades não essenciais, afetando serviços que vão de bibliotecas a programas de pesquisa científica.

A paralisação atual é a quarta sob Trump e se diferencia das anteriores porque a Casa Branca a utiliza como instrumento político deliberado. 

O diretor de orçamento, Russell Vought, determinou que os órgãos públicos preparem planos de demissões permanentes, e não apenas licenças temporárias. O próprio Trump declarou que pretende aproveitar o momento para “fazer coisas irreversíveis, que são ruins”, em alusão a cortes de empregos e de programas sociais ligados a seus adversários. 

Segundo a Associated Press, a expectativa é que a agenda de deportações avance enquanto áreas como educação e meio ambiente permanecem paralisadas.

Saúde pública no centro do impasse

Os democratas afirmam que só aceitariam votar o orçamento se houvesse prorrogação dos subsídios do Obamacare e reversão dos cortes no Medicaid. As medidas estão no centro da disputa porque afetam diretamente milhões de trabalhadores e famílias de baixa renda. 

Os republicanos defendem o que chamam de ‘resolução limpa’ — um projeto de apenas sete semanas que prorroga o financiamento no nível atual, sem incluir a extensão dos subsídios do Obamacare ou a reversão dos cortes no Medicaid.

A votação no Senado, na véspera do prazo, deixou claro o impasse. O plano republicano, que estenderia o financiamento até 21 de novembro, obteve 55 votos, mas ficou abaixo dos 60 necessários. 

O projeto democrata, que mantinha os subsídios e previa mais de US$ 1 trilhão em gastos com saúde, foi rejeitado por 53 senadores. 

Houve dissidências em ambos os lados: Catherine Cortez Masto, John Fetterman e Angus King (independente) votaram com os republicanos, enquanto Rand Paul foi o único republicano a rejeitar seu próprio partido.

Trump radicaliza e transforma a crise em arma política

Em vez de negociar, Trump elevou o tom de confronto. “Podemos fazer coisas durante a paralisação que são irreversíveis, que são ruins para eles e irreversíveis para eles, como cortar um grande número de pessoas, cortar coisas de que eles gostam, cortar programas de que eles gostam”, disse pouco antes do início oficial do shutdown. 

Mais tarde, no Salão Oval, afirmou que “muita coisa boa pode vir de shutdowns”, incluindo demitir servidores federais democratas e enfraquecer iniciativas sociais ligadas à oposição.

A ameaça não é retórica. O OMB (Escritório de Gestão e Orçamento) já orientou agências a adotar como base o orçamento elaborado por Trump — um documento sem força de lei — em vez das aprovações do Congresso. 

A medida consolida a estratégia de retirar do Legislativo o poder constitucional sobre os gastos públicos. 

Especialistas apontam que a Casa Branca vem utilizando de forma sistemática instrumentos como o impoundment e os pocket rescissions para reter recursos aprovados, prática já considerada ilegal pelo Escritório de Responsabilidade Governamental, órgão independente ligado ao Congresso.

Impactos sociais e econômicos

Na prática, o fechamento afeta trabalhadores em todo o país. Os 750 mil afastados representam famílias sem renda imediata, enquanto os considerados essenciais — como controladores de voo e agentes de segurança — seguem em seus postos, mas sem pagamento até o fim da crise. 

O cenário repete cenas vistas em 2019, quando atrasos e filas se multiplicaram em aeroportos. Parques nacionais, museus e zoológicos federais estão fechados ou operam de forma limitada. A Estátua da Liberdade, em Nova York, e o National Mall, em Washington, suspenderam visitas.

O shutdown também compromete a divulgação de dados econômicos cruciais, como o relatório de emprego de setembro, e paralisa serviços voltados a pequenas empresas. 

Programas de pesquisa científica estão suspensos, assim como inspeções ambientais e parte das atividades dos Institutos Nacionais de Saúde e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Até mesmo o Departamento de Veteranos foi afetado, com a interrupção de linhas de apoio e a suspensão de programas de transição militar-civil e instalação de lápides em cemitérios.

Guerra política e fake news

A disputa no Congresso se acirrou com a troca de acusações. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, alertou que os americanos pagarão até US$ 600 a mais por mês em seus planos de saúde e responsabilizou Trump pela crise. 

John Thune, líder republicano, disse que os democratas se curvaram à “extrema esquerda” e que a negociação só poderá acontecer “com o governo aberto”.

Trump, por sua vez, divulgou um vídeo grosseiro gerado por inteligência artificial zombando de Schumer e do líder democrata da Câmara, Hakeem Jeffries. 

No material, Jeffries aparece com um sombrero e Schumer era dublado com insultos ao prórpio partido, o democrata. 

Em resposta ao vídeo falso de inteligência artificial divulgado pela Casa Branca, Hakeem Jeffries dirigiu-se diretamente a Trump em ato público nas escadarias do Capitólio. 

“Senhor presidente, permita-me me reapresentar. Eu sou o líder democrata na Câmara. Nós não trabalhamos para você. Nós trabalhamos para o povo americano”, afirmou, sob aplausos de cerca de 150 parlamentares democratas reunidos.

Horas depois, em coletiva, Jeffries elevou ainda mais o tom e desafiou Trump a não se esconder atrás de montagens digitais. 

“Na próxima vez que tiver algo a dizer sobre mim, não se esconda atrás de um vídeo falso e racista. Quando eu estiver de volta ao Salão Oval, diga isso na minha cara”, declarou.

Nas redes sociais, o democrata reforçou a crítica ao publicar uma foto de Trump ao lado do financista Jeffrey Epstein, morto na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual. 

O ex-presidente republicano foi próximo de Epstein nos anos 1990 e 2000, e há registros de encontros entre os dois. 

Um Estado contra os pobres

O atual shutdown não é apenas um acidente legislativo por falta de acordo entre senadores do Capitólio. Ele reflete uma política deliberada do governo Trump de usar crises para avançar na redução do Estado e nos cortes sociais. 

Enquanto a máquina militar e as deportações seguem intocadas, áreas vitais como saúde, educação, meio ambiente e programas de apoio a veteranos são sacrificadas.

Ao mesmo tempo em que ameaça empregos de 750 mil servidores, Trump insiste em desmontar os subsídios de saúde que garantem cobertura a milhões de trabalhadores pobres. 

A paralisação expõe, mais uma vez, a lógica de sua administração em transformar direitos sociais em alvo de chantagem política, enfraquecendo a proteção estatal e aprofundando a desigualdade em nome de uma agenda de poder autoritário.

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