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Pela primeira vez, Arábia Saudita assume ataques ao lado dos EUA no Iraque 

A Arábia Saudita confirmou nesta quarta-feira (29) sua participação em bombardeios conjuntos com os Estados Unidos contra posições das Forças de Mobilização Popular (PMF) no Iraque. 

Foi a primeira vez que o reino saudita tornou público uma ação militar direta na guerra do Irã, iniciada em fevereiro. A ofensiva foi condenada por Bagdá como uma violação da soberania do país e amplia o número de Estados envolvidos no conflito regional.

Também na quarta-feira, um drone atingiu um terminal de armazenamento de gás no porto egípcio de Damietta, no Mediterrâneo, provocando um incêndio e marcando o primeiro episódio conhecido da guerra em território do Egito.

Segundo os governos de Riad e de Washington, os ataques tiveram como alvo milícias alinhadas ao Irã acusadas de promover ataques com drones contra instalações petrolíferas sauditas e bases militares americanas. 

O ministério da Defesa saudita afirmou que a operação foi uma resposta ao lançamento de drones a partir do território iraquiano, enquanto o Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) declarou que os bombardeios buscaram neutralizar grupos responsáveis por ameaças à infraestrutura energética do Golfo.

O governo iraquiano, porém, rejeitou a justificativa. Em reunião de emergência, o Conselho de Segurança Nacional classificou a ofensiva como uma “flagrante violação da soberania do Iraque” e do direito internacional. 

O primeiro-ministro Ali al-Zaidi cancelou uma visita oficial que faria à Arábia Saudita nesta quinta-feira (30) e exigiu que Washington e Riad apresentem provas de que os supostos ataques contra o território saudita partiram do Iraque.

Segundo autoridades iraquianas, os bombardeios atingiram bases das PMF em sete províncias e deixaram ao menos 20 combatentes mortos. 

Milhares de pessoas participam, em Bagdá, do cortejo fúnebre de combatentes das Forças de Mobilização Popular (PMF) mortos nos bombardeios realizados por Estados Unidos e Arábia Saudita contra bases no Iraque. Foto: Reprodução

As PMF são uma coalizão de forças paramilitares xiitas criada em 2014 para combater o autointitulado Estado Islâmico (EI), sunita, posteriormente incorporada às forças de segurança iraquianas. 

A articulação do grupo contou com forte apoio do general iraniano Qassem Soleimani, comandante da Força Quds morto pelos Estados Unidos em um ataque em Bagdá, em 2020.

Também foram registrados funerais de integrantes das forças paramilitares em cidades como Mossul e Najaf, enquanto grupos da resistência iraquiana prometeram responder aos ataques caso Bagdá não consiga proteger a soberania nacional.

A entrada da Arábia Saudita na guerra envolve um dos países mais ricos do Oriente Médio e uma das maiores potências militares da região. O reino possui o maior Produto Interno Bruto (PIB) do mundo árabe, é o maior exportador mundial de petróleo e, graças às receitas do setor energético, mantém um dos maiores orçamentos militares do planeta, equipado principalmente com armamentos adquiridos dos Estados Unidos e da Europa.

Do outro lado está o Irã, segunda maior economia do Golfo e principal potência militar da região em efetivos, produção doméstica de mísseis, drones e capacidade de projeção por meio de aliados como Hezbollah, Forças de Mobilização Popular (PMF), houthis e grupos da resistência palestina. 

A rivalidade entre Riad e Teerã há décadas molda o equilíbrio estratégico do Oriente Médio, tornando o envolvimento direto dos dois países um fator de grande peso para a evolução do conflito.

Mudança de postura

Embora a Arábia Saudita tenha sido apontada por diferentes veículos internacionais como participante de operações sigilosas ao longo dos últimos meses, esta é a primeira vez que o reino reconhece oficialmente sua participação direta na campanha militar liderada pelos Estados Unidos.

A decisão marca uma inflexão na postura adotada por Riad desde o início da guerra. 

Apesar das históricas rivalidades com Teerã, a monarquia saudita vinha buscando reduzir tensões com o Irã nos últimos anos, ao mesmo tempo em que procurava preservar seus projetos de diversificação econômica e atração de investimentos previstos na estratégia Visão 2030.

O prolongamento do conflito, entretanto, passou a atingir diretamente os interesses sauditas. 

Além dos ataques contra instalações petrolíferas, o reino enfrenta dificuldades para exportar petróleo desde o fechamento do Estreito de Ormuz e passou a conviver com novas ameaças no Mar Vermelho.

Na semana passada, o movimento Ansar Allah — mais conhecido como houthis — anunciou um bloqueio contra portos, navios e cargas sauditas no Mar Vermelho. A medida afeta justamente a principal rota utilizada por Riad para contornar as restrições impostas ao transporte de petróleo pelo Golfo Pérsico.

Aliança reforçada com Washington

A entrada pública da Arábia Saudita na guerra ocorre poucos dias após Washington e Riad firmarem um histórico acordo de cooperação nuclear civil. 

O entendimento prevê uma parceria de longo prazo para o desenvolvimento do programa nuclear saudita e amplia a cooperação estratégica entre os dois países em um momento de crescente instabilidade no Oriente Médio.

Embora o acordo tenha sido apresentado oficialmente como voltado à geração de energia e à diversificação da economia saudita, ele foi anunciado em meio à escalada militar regional e fortaleceu os laços entre o governo de Donald Trump e o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

Analistas ouvidos pela imprensa internacional avaliam que a liderança saudita passou a considerar necessário demonstrar que ataques contra seu território terão custos para seus adversários. Ao assumir publicamente a ofensiva no Iraque, Riad também sinaliza maior alinhamento com a estratégia militar conduzida por Washington.

Guerra se espalha pelo Oriente Médio

A participação oficial da Arábia Saudita amplia a regionalização da guerra iniciada após os ataques ilegais dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. 

Nas últimas 48 horas, a escalada ganhou novo impulso com ataques iranianos contra forças americanas na Jordânia, uma nova onda de bombardeios dos EUA contra alvos da Guarda Revolucionária no Irã e um ataque com drone que provocou um incêndio em um terminal de gás no porto egípcio de Damietta.

Para Bagdá, os bombardeios desta quarta representam um novo precedente para a expansão da guerra para territórios que, até então, buscavam evitar envolvimento direto no confronto entre Washington, Tel Aviv e Teerã. 

Ao reunir mais um aliado regional dos Estados Unidos em operações militares abertas, o conflito entra em uma nova etapa, marcada pelo aumento do risco de escalada e pela multiplicação dos focos de tensão no Oriente Médio.

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