
Marcada por instabilidade política e incidentes técnicos que tornaram morosa a apuração dos votos, as eleições peruanas de 2026 representam um momento desafiador para as forças progressistas e de esquerda. Com o segundo turno agendado para 7 de junho, essas forças enfrentam a difícil tarefa de mobilizar um eleitorado cético e contornar os obstáculos logísticos e riscos de fraude registrados no dia da realização do primeiro turno, em 12 de abril, para garantir sua relevância no futuro político do país. Estas eleições ocorrem após uma severa crise política. Desde a última eleição, em 2021, o Peru viveu uma severa crise política que resultaram na formação de quatro governos.
No momento em que redigimos este artigo (28 de abril), a apuração no Peru mantém a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori (1938-2024), na liderança. O cenário, marcado por fragmentação e baixa vantagem percentual, acende alertas sobre os riscos de uma guinada conservadora, ao mesmo tempo em que abre uma perspectiva para a esquerda.
Segundo dados oficiais da Oficina Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), cerca de 96% das atas já foram contabilizadas, com Keiko à frente com aproximadamente 17% dos votos válidos. A disputa pela segunda vaga permanece apertada, com Roberto Sánchez, do Juntos por el Perú, de esquerda, ligeiramente à frente de Rafael López Aliaga, ultradireitista, conhecido como Bolsonaro peruano. Ambos orbitam a faixa dos 12% e 11,9%, respectivamente, o que mantém indefinida a composição final do segundo turno.
O avanço de Keiko, ainda que sem maioria expressiva, recoloca no centro do debate o risco de retomada de políticas de direita, em um contexto de forte insatisfação social e deterioração econômica. A fragmentação do voto evidencia um eleitorado dividido, mas também abre espaço para rearranjos decisivos na etapa final.
Neste cenário, uma eventual ida de Roberto Sánchez ao segundo turno pode representar uma oportunidade concreta para a consolidação de um campo progressista mais amplo. A capacidade de unificar setores dispersos e captar o voto de rejeição à direita será determinante.
A experiência recente da região indica que disputas polarizadas tendem a se definir no segundo turno. Caso Sánchez avance e consiga ampliar alianças, as expectativas de uma vitória progressista ganham força, especialmente diante da ausência de hegemonia de qualquer candidatura no primeiro turno.
Com a totalização final ainda em andamento, o Peru se aproxima de uma decisão que ultrapassa a escolha de nomes e reflete uma encruzilhada política. O segundo turno, previsto para junho, será um confronto entre projetos antagônicos de país.
Colômbia: sondagens indicam vantagem de Iván Cepeda, do progressista Pacto Histórico
A liderança de Iván Cepeda nas pesquisas para a eleição presidencial colombiana indica uma possível continuidade do governo de Gustavo Petro. Com 36% das intenções de voto e vantagem de 15 pontos percentuais sobre os dois principais candidatos direitistas – Abelardo la Espriella e Paloma Valencia, esta ligada ao ex-presidente Álvaro Uribe, o candidato do Pacto Histórico surge como protagonista de uma disputa cada vez mais acirrada.
O dado mais relevante não é apenas a liderança no primeiro turno, mas a vantagem projetada em cenários da segunda rodada, em 21 de junho, quando se prevê uma disputa acirrada entre Cepeda e um dos dois direitistas que passe para essa etapa.
A eleição colombiana reflete não apenas uma luta entre personalidades, mas um embate mais amplo sobre os rumos políticos do país, que se encontra em uma encruzilhada histórica, entre manter o ciclo progressista inaugurado com o governo de Gustavo Petro ou retroceder aos tempos sombrios sob a liderança de forças direitistas antidemocráticas e pró-imperialistas.
Os povos da América Latina e Caribe não são indiferentes ao que poderá ocorrer no Peru e na Colômbia. Uma vitória eleitoral das forças direitistas aumenta os riscos de neocolonialismo, neoliberalismo e autoritarismo, sobretudo considerando a estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos anunciada por Donald Trump em novembro do ano passado, em que proclama uma nova versão da famigerada Doutrina Monroe. Por outro lado, uma vitória progressista abre a perspectiva de novo protagonismo da Celac, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, e acumula forças para desenvolver em melhores condições a luta anti-imperialista.
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