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Pesquisa Quaest traz “trunfos silenciosos” para Lula

A rodada de junho da pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira (10), trouxe um diagnóstico amplamente repercutido sobre as eleições de 2026: o presidente Lula (PT), que busca a reeleição, abriu dez pontos sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, enquanto o governo oscila no limite do empate técnico entre aprovação (47%) e desaprovação (48%).

Mas o relatório completo do levantamento aponta outros indicadores favoráveis ao presidente. De um lado, ações e narrativas do governo parecem encontrar maior eco entre parte do eleitorado. De outro, segmentos moderados ainda demonstram maior resistência ao retorno do bolsonarismo ao poder.

Quando os entrevistados são questionados sobre “o que dá mais medo hoje”, a volta da família Bolsonaro aparece como preocupação superior à continuidade do governo Lula em grupos relevantes, como independentes e moderados. A polarização permanece viva, mas em bases um pouco diferentes das observadas em 2022.

Avanço sobre o centro

O dado politicamente mais relevante está no comportamento de quem se declara independente. Nesse grupo, a aprovação ao trabalho de Lula subiu de 37% em maio para 41% em junho, enquanto a desaprovação recuou de 52% para 47%. Os números sugerem uma melhora gradual do governo fora de sua base tradicional.

O movimento também aparece em regiões historicamente mais resistentes ao PT. No Sudeste, a desaprovação caiu três pontos, chegando a 51%, enquanto a aprovação alcançou 43%. No Centro-Oeste e Norte, agrupados no relatório, a aprovação foi a 44% e a desaprovação recuou para 50%.

Ainda é a economia

Parte dessa melhora pode estar ligada à agenda econômica voltada ao consumo e ao alívio financeiro. A Quaest mediu a percepção sobre duas políticas recentes do governo: a ampliação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o programa Desenrola 2.0.

Entre os beneficiários diretos da mudança no IR, 48% afirmam já ter sentido alguma diferença na renda. Desses, 15% relatam aumento significativo no poder de compra e 33%, melhora moderada. Outros 42% dizem não ter percebido mudança.

O Desenrola também registra avaliação positiva. Metade dos entrevistados considera o programa “uma boa ideia, porque ajuda quem está endividado a sair do vermelho”. Outros 20% afirmam que a iniciativa “ajuda um pouco”. Apenas 23% a classificam como “má ideia”.

Para um governo com desaprovação em 48%, a boa recepção de medidas de alívio financeiro pode ajudar a reduzir resistências em segmentos específicos do eleitorado, sobretudo entre os mais pobres e endividados.

A narrativa das tarifas

O tarifaço anunciado pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros também produziu efeitos políticos relevantes. O Planalto transformou o episódio em discurso de defesa da soberania nacional e de proteção ao Pix.

Segundo a Quaest, 46% dos entrevistados concordam com a versão de Lula, segundo a qual as tarifas seriam uma retaliação ao sistema de pagamentos brasileiro. Outros 36% concordam com Flávio Bolsonaro, que atribui a medida às declarações de Lula contra os Estados Unidos.

O resultado indica que o governo conseguiu sustentar parte de sua narrativa sobre o conflito comercial. Entre independentes e eleitores de direita não bolsonarista, a diferença aparece de forma mais acentuada.

A disputa pelo patriotismo

A pesquisa também mostra que muitos entrevistados acreditam que as tarifas prejudicarão empresas brasileiras e afetarão a vida das famílias. Ao mesmo tempo, parcela relevante rejeita a tese de que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos seja injusta para os norte-americanos.

Lula parece ter avançado sobre um terreno historicamente associado ao bolsonarismo: a identificação entre patriotismo, soberania e direita conservadora. Nos indicadores ligados à defesa dos interesses nacionais, o presidente registra melhora de desempenho após o acirramento das tensões comerciais.

A resistência ao bolsonarismo também aparece em outro ponto do levantamento. O episódio envolvendo o Banco Master, o empresário Daniel Vorcaro e o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro produziu desgaste para Flávio Bolsonaro entre os entrevistados que acompanham o caso.

Parte significativa afirma acreditar que o senador pode estar escondendo algum envolvimento irregular. Há, ainda, reprovação à tentativa de obtenção de financiamento para o filme junto ao empresário investigado pela Polícia Federal.

A base social de Lula

Os números de primeiro turno já são favoráveis a Lula, mas a vantagem se amplia em grupos específicos. Entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, o presidente tem 50% contra 23% de Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores com 60 anos ou mais, a diferença é de 41% a 29%.

São segmentos mais sensíveis a políticas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e programas de renegociação de dívidas. Isso ajuda a explicar a resiliência eleitoral do presidente mesmo em um cenário de aprovação apertada.

Até a eleição de outubro, o governo terá de enfrentar problemas, como a inflação dos alimentos e a resistência entre eleitores de renda mais alta. Ainda assim, o relatório da Quaest indica que a posição eleitoral de Lula parece mais consistente do que os índices gerais de aprovação sugerem.

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