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Pesquisa revela nuances nas escolhas políticas das mulheres evangélicas

Durante anos, a chamada “base evangélica” foi tratada como um eleitorado politicamente previsível, como se a pertença religiosa fosse suficiente para explicar suas escolhas políticas. Um estudo qualitativo do Instituto de Estudos da Religião (Iser) coloca essa ideia em perspectiva ao acompanhar, entre 2022 e 2025, 180 mulheres evangélicas de 16 a 65 anos, sobretudo das classes C e D e, em sua maioria, pretas e pardas. O levantamento “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, revelado pela Folha de S.Paulo em setembro, buscou compreender como essas mulheres articulam fé, família, cotidiano e política. As participantes foram ouvidas em grupos de três, em conversas de duas horas sobre temas como fé, família e país.

Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, os resultados não representam estatisticamente todas as evangélicas brasileiras, mas permitem aprofundar a compreensão sobre as experiências e percepções desse grupo.

É a partir desse material que a socióloga Morgane Laure Reina, em entrevista à TPM, questiona a ideia de uma “mulher evangélica” homogênea. Denominação religiosa, renda, raça, geração, região e condições de vida atravessam essas experiências de maneiras diferentes. A religião importa, mas não determina sozinha a forma como essas mulheres interpretam a política. E muito menos permite presumir que uma orientação dada no púlpito será automaticamente transformada em voto.

Mulheres não são uma extensão do voto masculino

Os dados das eleições de 2022 já indicavam uma diferença importante. Entre homens evangélicos, Jair Bolsonaro tinha vantagem de cerca de 20 pontos sobre Lula em agosto daquele ano. Entre as mulheres do mesmo segmento, entretanto, havia empate estatístico: 30% declaravam intenção de votar em Bolsonaro e 25% em Lula. Para Morgane, a diferença entre homens e mulheres mostra que gênero pesa tanto quanto religião na formação das escolhas políticas.

O acompanhamento do Iser ajuda a entender o que existe por trás dessa diferença. Entre as entrevistadas, 63% consideraram possível ser cristã e feminista, embora 70% não se identificassem como feministas. O dado revela uma distância entre o rótulo e as questões concretas que essas mulheres reconhecem em suas próprias vidas.

Na leitura apresentada por Morgane, essa diferença aparece também na forma como direitos são compreendidos. Mulheres podem defender igualdade salarial, combate à violência doméstica, prevenção ao feminicídio e políticas de saúde sem necessariamente se identificar com a palavra “feminista”. A própria pesquisa registrou uma mudança ao longo do período analisado: em 2025, seis em cada dez entrevistadas passaram a considerar possível conciliar cristianismo e feminismo, associando o tema a direitos e à sobrecarga das tarefas domésticas.

Quando a experiência reordena as convicções

Essa relação entre convicções e experiência também apareceu em uma edição do Entrelinhas Vermelhas que recebeu a historiadora Flávia Calé, secretária nacional da Mulher do PCdoB. Na conversa com os jornalistas Inácio Carvalho e Priscila Lobregatte, Inácio recuperou um artigo de Renato Meirelles sobre o que o pesquisador define como “conservadorismo empático” da classe C. No texto, Meirelles chama atenção para situações em que posições conservadoras convivem com respostas diferentes diante das circunstâncias concretas da vida, nas quais vínculos familiares, cuidado, afeto e responsabilidade também entram em jogo.

A reflexão ajuda a iluminar um ponto presente na pesquisa do Iser: não basta classificar essas mulheres a partir de uma posição política ou religiosa previamente definida. É preciso observar como suas experiências interferem na maneira como compreendem direitos, proteção e cuidado. Além de reforçar a necessidade de olhar para essas mulheres sem reduzi-las a caricaturas políticas ou confirmar uma expectativa prévia sobre seu comportamento eleitoral.

A política também passa pelo cotidiano

Essa dimensão aparece na própria relação das entrevistadas com o Estado. Segundo a pesquisa apresentada pela Folha, elas valorizam um Estado capaz de responder às demandas do dia a dia e não consideram que empreendedorismo e liberalismo, sozinhos, sejam suficientes para resolver seus problemas. Ao mesmo tempo, a igreja permanece um espaço de fé e sociabilidade que não é necessariamente visto como lugar de orientação eleitoral.

A crítica à instrumentalização política dos templos é um dado especialmente relevante. Uma das entrevistadas, uma jovem de 17 anos, questiona a presença de questões eleitorais na igreja porque, para ela, o pastor está ali para pregar. A pesquisa mostra, portanto, que a influência religiosa não deve ser confundida automaticamente com obediência eleitoral.

A relação com a violência contra a mulher também revela essa complexidade. Aqui, a igreja pode exercer papéis contraditórios: em determinadas situações, a pressão pela preservação do casamento pode dificultar a denúncia; em outras, a comunidade religiosa funciona como rede de apoio, oferecendo proteção, cuidado, acesso a trabalho e ajuda com os filhos.

Raça também atravessa o voto

A experiência religiosa se articula ainda com raça e classe. O eleitorado evangélico brasileiro é majoritariamente pardo e negro e está concentrado nas camadas populares. Essas experiências não desaparecem quando uma mulher entra na igreja e também podem interferir na maneira como ela interpreta a política.

A questão racial, porém, nem sempre é nomeada dessa forma dentro das comunidades religiosas. Segundo Morgane, muitas vezes ela é traduzida por uma linguagem espiritual de igualdade — a ideia de que “somos todos iguais diante de Deus” — que pode deixar o racismo fora do debate. Ao mesmo tempo, movimentos negros evangélicos e teologias negras vêm criando espaços para que essa experiência seja reconhecida e discutida dentro das próprias comunidades.

A decisão não termina no púlpito

É nesse conjunto de experiências que ganha sentido a ideia de que mulheres evangélicas não formam um eleitorado conduzido automaticamente pela orientação de seus pastores. A religião participa da formação de suas subjetividades políticas por meio da pregação, do aconselhamento e da sociabilidade da igreja. Mas esses processos se articulam à posição de classe, à raça, ao gênero e às necessidades que atravessam a vida cotidiana.

Trabalho, renda, creche, saúde, segurança, cuidado e proteção não são assuntos externos à fé. São parte da vida dessas mulheres e também entram na maneira como elas interpretam a política. A pesquisa do Iser não autoriza concluir que a religião perdeu importância, tampouco que essas mulheres abandonaram posições conservadoras. O que ela mostra é algo mais complexo: a identidade evangélica não basta, sozinha, para explicar como uma mulher pensa e decide politicamente.

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