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Petro desafia Trump na ONU e exige investigação por ataques no Caribe

Em discurso na 80ª Assembleia Geral da ONU, o presidente colombiano, Gustavo Petro, fez um pedido sem precedentes: que o organismo internacional abra “processos criminais” contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A acusação direta refere-se aos ataques militares realizados por Washington contra embarcações no Caribe – supostamente vinculadas ao narcotráfico – que resultaram na morte de pelo menos 14 pessoas, conforme reconhecido pelo próprio governo norte-americano.

Petro não poupou palavras: “Devem ser abertos processos criminais contra esses funcionários, que são dos EUA, mesmo que isso inclua o funcionário de mais alto nível que deu a ordem: presidente Trump”.

Segundo o líder colombiano, diante dos líderes mundiais, as vítimas não eram traficantes, mas “jovens pobres da América Latina que não tinham outra opção”, sem armas para se defender. Ele acusa Washington de transformar a pobreza e a migração em crimes puníveis com mísseis.

O líder colombiano também contestou a versão de que os passageiros seriam membros do grupo criminoso Tren de Aragua, como sustentou a administração Trump após o primeiro ataque. “Foi realmente necessário bombardear jovens pobres e desarmados nas Caraíbas?”, questionou.

A estratégia militar de Trump no Caribe

Os ataques citados por Petro fazem parte de uma escalada militar visível. Nos últimos meses, os EUA mobilizaram oito navios de guerra na região, justificando a ação como uma ofensiva contra o tráfico de drogas – especialmente vinculado à Venezuela de Nicolás Maduro, alvo constante de ameaças de Trump.

  • 2 de setembro: primeiro ataque, 11 mortos;
  • 16 de setembro: segundo ataque, 3 mortos;
  • 20 de setembro: terceiro ataque, 3 mortos.

A Casa Branca não detalhou como identificou a carga ilícita ou a suposta vinculação dos passageiros a grupos criminosos. Para Petro, a narrativa é falsa: “Disseram que os mísseis nas Caraíbas foram utilizados para travar o tráfico de droga. É uma mentira afirmada aqui, nesta mesma tribuna”.

Caracas denuncia uma tentativa de “mudança de regime” com o objetivo de controlar petróleo e recursos naturais. No sábado anterior, a Venezuela organizou exercícios militares com civis para se preparar contra uma eventual intervenção. Maduro, em sintonia com Petro, acusou Trump de usar o combate ao narcotráfico como pretexto.

Genocídio em Gaza e a crítica à cumplicidade norte-americana

Petro expandiu seu ataque ao governo norte-americano ao relacionar os bombardeios no Caribe à política de Trump no Oriente Médio. Denunciou que os EUA se tornaram “cúmplices do genocídio em Gaza” e defendeu a criação de uma força internacional armada de manutenção da paz para proteger os palestinos. , Ainda convocou países da Ásia, Europa Oriental e América Latina a se unirem contra a violação sistemática de direitos humanos.

“Trump não só deixa que caiam mísseis contra os jovens no Caribe. (…) Permite que lancem mísseis contra crianças, jovens, mulheres e idosos em Gaza. Se faz cúmplice do genocídio”.

A resposta colombiana: dados versus mísseis

Em resposta à “descertificação” de seu governo por Washington, Petro rebateu com números:

  • 2023-2024: maior apreensão de cocaína da história colombiana;
  • 700+ chefes do narcotráfico extraditados para EUA e Europa;
  • Redução de 40% no cultivos de coca em relação ao governo anterior.

Ele destacou que, diferentemente dos EUA, a Colômbia não precisou de “um só míssil” para combater o tráfico, priorizando a substituição voluntária de cultivos e a cooperação internacional.

“O fentanil se produz no aparelho industrial dos Estados Unidos. Os narcotraficantes vivem em outra parte, e não é na América Latina.”

O silêncio dos EUA e a geopolítica do narcotráfico

O choque direto entre Trump e Petro coloca em xeque as relações bilaterais e projeta uma nova tensão sobre a América Latina. O líder colombiano, que ironizou seu status de “presidente descertificado” por Washington, reafirmou que a guerra às drogas é usada como instrumento de dominação política.

Enquanto Petro discursava, representantes dos EUA deixaram o plenário – gesto lido como recusa ao diálogo. O presidente colombiano ainda acusou Trump de ser assessorado por “políticos aliados da máfia da cocaína” na Colômbia. “Não sei se Trump sabe que sua política exterior para Colômbia, Venezuela e Caribe é assessorada por colombianos aliados da máfia da cocaína”, disparou, ampliando o embate para dentro do próprio cenário político de Bogotá.

Ele ainda alertou: “A política antidrogas não é para deter a cocaína que chega aos Estados Unidos; é para dominar os povos do sul”.

Um divórcio anunciado

O discurso de Petro marcou uma das mais duras críticas a um presidente norte-americano em décadas. Ao relacionar ataques no Caribe, política antidrogas e o conflito em Gaza, o colombiano buscou enquadrar Trump não apenas como um governante controverso, mas como um chefe de Estado passível de responsabilização criminal internacional.

A postura evidencia um realinhamento no Sul Global, em que lideranças latino-americanas, como Petro e Maduro, tentam se apresentar como contraponto ao intervencionismo de Washington. Mas também revela os riscos de isolamento da Colômbia diante da pressão militar e econômica dos EUA.

O embate expõe a ruptura entre a visão de segurança dos EUA e a agenda social latino-americana. Ao criminalizar Trump perante a ONU, Petro não apenas desafia a impunidade de potências, mas coloca a Colômbia no centro de uma batalha por um novo multilateralismo – onde a vida de “jovens pobres” vale mais que uma retórica de combate às drogas.

Enquanto Trump ameaça “consequências incalculáveis” à Venezuela, a América Latina parece disposta a responder com voz própria. O recado de Petro ecoa além do plenário: a guerra às drogas não pode ser guerra aos pobres.

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