A chegada de 82 militares das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) à Colômbia para participar das operações de busca e resgate após o terremoto que atingiu o país abriu uma nova frente de disputa política em torno da relação entre Bogotá e Tel Aviv.
O grupo desembarcou em Cali na sexta-feira (14/08), formado por resgatistas, engenheiros e especialistas em diferentes áreas, para auxiliar as autoridades colombianas no atendimento às regiões afetadas pelo tremor.
Embora a missão tenha sido apresentada pelas autoridades colombianas e israelenses como uma operação humanitária, a presença de militares das IDF ganhou dimensão política em razão da ruptura das relações entre Colômbia e Israel promovida pelo então presidente Gustavo Petro, em 2024, em razão do genocídio perpetrado pelo Estado sionista na Palestina, em contraste com a recente guinada da política externa colombiana desde a posse do atual presidente de extrema direita, Abelardo de la Espriella.
O episódio também colocou novamente no centro da controvérsia o capitão Roni Kaplan, porta-voz das IDF para a imprensa de língua espanhola, que respondeu diretamente às críticas de Petro e, posteriormente, protagonizou um confronto verbal com uma mulher que protestava em favor da Palestina em Cali.
Petro questiona
Ex-presidente da Colômbia, Gustavo Petro questionou publicamente a decisão de receber militares israelenses para a operação de emergência. Em uma publicação nas redes sociais, Petro perguntou: “são ajuda humanitária ou são soldados de guerra, senhores israelenses?”.
Na mesma mensagem, o ex-presidente afirmou que a Colômbia possui cerca de 200 mil militares, e que esses profissionais poderiam ser empregados em atividades de assistência humanitária.
Em outra publicação, Petro afirmou que a Colômbia precisa, sobretudo, de profissionais de saúde, medicamentos e especialistas em resgate. A crítica, portanto, foi dirigida à presença de militares estrangeiros em uma operação que, segundo ele, poderia ser executada pelas próprias estruturas colombianas.
A manifestação ocorre em um contexto de longa e profunda divergência entre Petro e o governo israelense. Durante seu mandato, o colombiano tornou a defesa da causa palestina um dos eixos de sua política externa, rompeu relações diplomáticas com Israel em maio de 2024 e acusou repetidamente o governo de Benjamin Netanyahu de cometer genocídio em Gaza.
‘Palestina livre, jamais!’, responde Kaplan
A resposta a Petro veio do próprio Roni Kaplan. Em reação, o porta-voz israelense escreveu: “com todo respeito. Somos soldados de Paz”. Kaplan acrescentou que os militares israelenses vão à guerra quando são obrigados a fazê-lo para poder viver em paz e afirmou que suas ações seguem o direito internacional humanitário.
A missão em Cali, de fato, não foi apresentada como uma operação de combate. Os 82 integrantes das IDF foram enviados para atuar em busca e resgate, avaliação de estruturas danificadas e apoio técnico às equipes colombianas. Segundo a EFE, o contingente inclui resgatistas, engenheiros e especialistas em diferentes áreas.
A controvérsia ganhou uma nova dimensão no sábado (15/08) contradizendo a fala do porta-voz. O próprio Kaplan apareceu em Cali acompanhando o trabalho das equipes, militares em serviço ou reservistas das Forças de Defesa de Israel, e não uma equipe civil de uma organização humanitária. No contexto de uma entrevista à imprensa colombiana, Kaplan, diante de uma mulher que protestava e gritava “Palestina livre”, respondeu, também aos gritos: “Palestina livre, jamais”.
Segundo o diário Publimetro Colombia, Kaplan repetiu a frase duas vezes. O episódio provocou novas críticas, especialmente porque ocorreu enquanto a delegação israelense estava no país para participar das operações de socorro às vítimas do terremoto.
Para o governo colombiano, empossado no dia em que o terremoto assolou o país, a presença dos israelenses representa a cooperação internacional em uma emergência. Porém, a participação de militares das IDF, para setores da sociedade colombiana, não pode ser dissociada das operações israelenses em Gaza e da política externa adotada por Petro.
O que se discute na imprensa colombiana, contudo, envolve a própria natureza da atividade do porta-voz das IDF em produzir narrativas que justifiquem as ações militares do sionismo.

IDF
Quem é Roni Kaplan?
Uruguaio-israelense, Kaplan é capitão das IDF e atua como porta-voz militar para a imprensa internacional de língua espanhola. Ele ocupa essa função desde 2012 e tornou-se uma das principais vozes israelenses destinadas ao público latino-americano.
Sua atuação durante os conflitos entre Israel e grupos palestinos, contudo, já provocou controvérsias anteriormente. Uma delas remonta à guerra imposta a Gaza, em 2014.
Em artigo publicado pelo El País, em 2025, o jornalista Javier Martín, então correspondente que cobria o conflito, relatou ter recebido uma ligação de Kaplan após publicar uma reportagem sobre a morte de duas crianças palestinas em Jabalia. Segundo o jornalista, Kaplan contestou a informação e pediu que a reportagem fosse corrigida, atribuindo o ataque a um foguete do Hamas. Martín afirma ter respondido que estava no local e havia fotografado os restos do projétil.
O relato mostra que a função de Kaplan há mais de uma década não se limita a fornecer informações técnicas sobre operações militares: ele também desempenha papel central na defesa pública da versão israelense dos acontecimentos durante guerras e crises.
Em 2014, por exemplo, Kaplan argumentava que uma parcela significativa do território israelense estava sob ameaça de foguetes do Hamas e afirmava que o objetivo das IDF era interromper os ataques e reduzir o número de vítimas civis. Também acusava o Hamas de utilizar a população civil como “escudo humano”.
Denúncia criminal no Uruguai
Em maio deste ano, organizações sociais uruguaias apresentaram uma denúncia criminal contra o porta-voz israelense, atribuindo a ele responsabilidade por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio. Entre os denunciantes estavam o PIT-CNT, a Coordenadoria pela Palestina, o Serpaj e organizações de familiares de desaparecidos durante a ditadura uruguaia.
O caso ajuda a explicar a razão da presença de Kaplan em Cali ganhar uma repercussão maior do que teria uma simples operação internacional de resgate.
A denúncia foi apresentada pela ex-promotora e ex-diretora da Instituição Nacional de Direitos Humanos do Uruguai Mirtha Guianze, entre outros representantes. As organizações acusaram Kaplan de desempenhar um papel de propaganda e de contribuir para justificar ou encobrir ações israelenses em Gaza.
Mudança radical na política externa
Petro passou os últimos anos de sua administração denunciando os crimes cometidos por Israel na Palestina. Em 2024, rompeu relações diplomáticas com o país, depois de condenar a ofensiva israelense em Gaza. A Colômbia também se aproximou diplomaticamente da causa palestina e apoiou o processo movido pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça.
A situação mudou completamente com a chegada de Abelardo de la Espriella. O novo governo não apenas retomou a aproximação com Israel, como adotou uma série de posições que representam uma ruptura com a política externa de Petro. Entre elas está o reconhecimento da soberania israelense sobre os Altos do Golã, território sírio ocupado por Israel desde 1967, posição que contraria o entendimento predominante da comunidade internacional e das Nações Unidas.
O governo de De la Espriella também anunciou uma política externa muito mais alinhada aos Estados Unidos e a Israel. Nesse contexto, o envio de uma equipe militar israelense para atuar no terremoto adquiriu significado político que ultrapassa a dimensão estritamente humanitária.
A Colômbia aceitou, após o terremoto, equipes de socorro de países governados pela direita, entre eles Israel, El Salvador, Estados Unidos e Equador, enquanto a ajuda brasileira, por exemplo, oferecida horas após o terremoto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria sido direcionada a alimentos e medicamentos.
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