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Petróleo, soberania energética e inflação voltam ao centro da guerra

A ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã recolocou o petróleo no centro do tabuleiro geopolítico. Desde o fim de fevereiro, ataques diretos e a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz fizeram o barril do tipo Brent saltar de 77 dólares para a casa dos 85 dólares, arrastando a cotação no mercado norte-americano para acima dos 80 dólares.

Bancos de investimento, que previam um 2026 com petróleo a 60 dólares, já trabalham com um “prêmio de risco” que pode levar os preços a 100 dólares. Na Europa, a inflação da zona do euro já reflete o choque energético. Nos EUA, o combustível caro ameaça a desaceleração inflacionária, impondo dilemas à política monetária. Para países emergentes importadores, o cenário traduz-se em pressão sobre o câmbio e risco de desabastecimento.

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Guerra e a hegemonia do petrodólar

A escalada produz um efeito ambíguo para Washington. Se por um lado a inflação interna desgasta o governo, por outro, a alta valoriza as petroleiras dos EUA — hoje o maior produtor mundial — e sustenta o fluxo de petrodólares para Wall Street. Apesar do avanço de moedas alternativas como o yuan ou outras em debates nos BRICS, o conflito fortalece o dólar no curto prazo, pois investidores buscam a moeda norte-americana em tempos de crise.

“Energia é soberania nacional, é poder geopolítico mundial”, resume o geólogo Guilherme Estrella, ex-diretor da Petrobras e um dos pais do pré-sal. Para ele, o controle das fontes energéticas segue como fundamento da hegemonia mundial, sustentada pelo comando dos fluxos de óleo, gás e petrodólares.

O lugar do Brasil no tabuleiro

Com o pré-sal, o Brasil conquistou a autossuficiência material. Possui uma das matrizes mais equilibradas do mundo (60% fósseis, 40% renováveis), o que permitiria praticar preços de energia a baixo custo para o consumo social e industrial.

Entretanto, Estrella critica a paridade de preços internacionais. “Nossos preços internos de energia ainda têm relação com os padrões mundiais e não há qualquer motivo aceitável para isto! Somos um território nacional super privilegiado em todas as formas de energia, todas abundantes”, afirma.

O cientista político André Tokarski enfatiza que o desmonte do refino sob Temer e Bolsonaro, aliado à Lava Jato, deixou o país vulnerável a volatilidades externss. “O Brasil se coloca no paradoxo de ser um grande exportador de petróleo, mas ao mesmo tempo um país dependente de derivados”, resume.

A política de preços alinhada ao mercado externo repassa choques de guerras ao consumidor brasileiro. Para Tokarski, a tarefa é recompor a Petrobras como empresa integrada. “O Brasil deve investir na diversificação das suas fontes de energia e sem abrir mão da exploração de nenhuma delas”. Isso inclui o pré-sal e a recuperação do refino, essenciais para a petroquímica e a indústria de fertilizantes.

Sul Global: vulnerabilidade e lições

A guerra aprofunda a divisão entre países do Sul Global. Importadores com o consumo maior que a produção, como Índia e nações africanas, sofrem com a inflação de alimentos e transportes. Já a China, com altos estoques estratégicos e liderança em renováveis, absorve melhor o choque.

Tokarski ressalta que o conflito deixa a lição que “nenhum país pode abrir mão de explorar e dirigir de forma soberana os recursos energéticos que dispõe”. No Brasil, exporta óleo bruto, mas carece de infraestrutura de processamento. Mesmo com aportes recentes da Petrobras, o refino ainda está aquém das necessidades internas. “Não houve na última década investimentos relacionados à expansão da capacidade de refino para abastecer o nosso mercado interno”, alerta Tokarski, destacando a dependência de diesel e gasolina importados.

A guerra e o impacto na transição energética

Estrella recorda que, historicamente, o carvão e o petróleo decidiram impérios e guerras. Nesse contexto, a transição energética pós-Acordo de Paris é vista por ele como um movimento condicionado pela geopolítica, uma vez que a “opção pela transição” perde força quando as grandes potências se recusam a assumir metas de descarbonização que firam os próprios interesses.

No Brasil, segundo Estrella, a transformação da Petrobras em “ativo financeiro” limita o Estado no uso da energia para o desenvolvimento, gerando uma transição “não distributivista e consequentemente antissocial”. Para o geólogo, é preciso “repensar, com verdadeira soberania, um modelo de desenvolvimento que atenda realmente aos nossos interesses de sociedade e País”.

Tokarski acrescenta que a alta atual de preços valoriza empresas petrolíferas que perdiam espaço, mas também torna as renováveis mais competitivas. Para ele, o movimento é conjuntural e não garante o retorno estrutural do petróleo como ativo imbatível frente às fontes de baixo carbono.

A batalha pelo futuro

A guerra contra o Irã acentua o risco de o Sul Global ser empurrado para a periferia de um novo ciclo tecnológico. Estrella alerta que “não há espaço para posicionamentos periféricos”: a energia deve servir a um projeto de desenvolvimento com justiça social.

Entre a valorização do petrodólar e a pressão inflacionária global, a batalha pela soberania energética brasileira — que passa pela Petrobras e pelo controle sobre o refino — definirá o direito do país de decidir seu próprio caminho rumo ao futuro.

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