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Pobreza energética afeta mais a população negra e amplia a sobrecarga das mulheres

Um em cada três domicílios chefiados por pessoas pretas ou pardas no Brasil destina mais de 10% da renda ao pagamento de despesas energéticas. Entre os lares chefiados por pessoas brancas, essa proporção cai para um em cada seis. Os dados são do Observatório Brasileiro de Erradicação da Pobreza Energética (OBEPE), iniciativa da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), e evidenciam como as desigualdades raciais continuam determinando quem enfrenta maiores dificuldades para acessar serviços energéticos de qualidade.

O resultado não surpreende quando observado ao lado de outros indicadores sociais. Embora representem 56,8% da população brasileira, pessoas pretas e pardas correspondem a mais de 70% da população em situação de pobreza e insegurança alimentar. Em média, pessoas brancas recebem cerca de 70% a mais do que pretas e pardas, diferença que influencia diretamente a capacidade das famílias de absorver gastos com eletricidade, gás de cozinha e outros serviços essenciais.

Diante desse cenário, o governo federal tem apostado em medidas voltadas à redução da pobreza energética. Em 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o programa Luz do Povo, que ampliou a Tarifa Social de Energia Elétrica e passou a garantir isenção da conta de luz para famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único com consumo mensal de até 80 kWh, além de descontos para outros grupos de consumidores. Segundo o governo, cerca de 115 milhões de brasileiros deverão ser beneficiados pela iniciativa.

Saiba mais: Lula sanciona o programa Luz do Povo em benefício de 115 milhões de brasileiros

Além da conta de luz

O problema não está apenas no custo da energia, mas também no acesso aos recursos que ela proporciona. Ela também aparece na dificuldade de acessar equipamentos que fazem parte da rotina doméstica e que influenciam desde o acesso à informação até o tempo dedicado aos afazeres da casa.

Entre os domicílios chefiados por pessoas pretas ou pardas, 69,2% não possuem computador. Nos lares chefiados por pessoas brancas, o percentual é de 49,5%. A diferença também aparece na posse de máquinas de lavar roupa: enquanto 38,4% dos domicílios chefiados por pretos e pardos não contam com o equipamento, entre os brancos o índice é de 17,5%.

Mais do que uma diferença patrimonial, os números ajudam a compreender como a desigualdade afeta o cotidiano. A falta de computadores limita o acesso à educação, à informação e às oportunidades oferecidas pela economia digital. Já a ausência de uma máquina de lavar significa mais tempo dedicado ao trabalho doméstico manual.

É nesse ponto que a pobreza energética também revela uma dimensão de gênero. Em um país onde as mulheres ainda assumem a maior parte das tarefas domésticas e de cuidado, a falta de equipamentos que reduzem esse trabalho tende a ampliar a sobrecarga feminina. O tempo gasto lavando roupas, preparando alimentos ou realizando outras atividades da rotina deixa de ser destinado ao descanso, ao lazer, à qualificação profissional ou ao trabalho remunerado.

A desigualdade aparece ainda no preparo das refeições. Segundo o levantamento, 16,6% dos domicílios chefiados por pessoas pretas ou pardas utilizam lenha ou carvão vegetal para cozinhar. Entre os lares chefiados por pessoas brancas, o percentual é de 12%.

Embora frequentemente associadas ao passado, essas fontes energéticas continuam presentes na realidade de milhões de brasileiros. Além de expor as famílias à fumaça e aumentar o risco de doenças respiratórias e cardiovasculares, o uso da lenha está relacionado a condições mais precárias de vida e à dificuldade de acesso a fontes modernas de energia.

Os dados reforçam que a pobreza energética não se resume ao acesso à eletricidade. Ela envolve a capacidade de pagamento das famílias, a posse de equipamentos domésticos, a qualidade dos serviços energéticos e as condições necessárias para garantir uma vida digna. No Brasil, essa realidade segue marcada por profundas desigualdades raciais — e seus efeitos acabam recaindo também sobre o tempo e o trabalho das mulheres.

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