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POESIA | Fábrica

De um operário de São Paulo

Quanto tempo vale sua vida?
Quanto tempo vale sua vida?
Isso não é algo que alguém precifica
Mas o meu tempo vale oito e setenta
Uma hora da minha vida vale oito e setenta!
Dia dia é: Bate e volta, prensa atrás de prensa,
Me perco no meio do agora
Respiro fumaça, cuspo ferro,
Como rápido pra poder dormir ao menos meio hora
Sorrisos, risos, rostos, amigos
Tempo perdido em meio ao ouro produzido
Como alguém pode precificar a minha vida?
Essa dor, esse roubo foi permitida?
Me tira da minha família para enriquecer a sua
Só queria estar na casa da minha tia
Comendo sua mistura
Mas estou aqui cuidando de cada centímetro da sua PINTURA.
Porque…
Importa mais qual a temperatura que o produto precisa
do que qual a temperatura você é exposto!
Quantos produtos químicos a mercadoria precisa
do que quantos produtos químicos você respira!
Então me diga quem construiu cada rua?
Cada prédio, cada estrutura
Me lembra quem construiu a sua… viatura?
Construída na metalúrgica da sua esquina
Andou pela rua da Cidade Tiradentes
E atropelou cada trabalhador que viu pela frente
E a culpa é do trabalhador que bate de cara com sua patente?
Então até quando vamos permitir esse pecado?
porque uma trabalhadora morreu em meio a uma fábrica de SAPATO!
Uma venezuelana entrou em trabalho de parto
E sua saída da fábrica do Matogrosso foi “negado”!
Na BYD da Bahia o trabalho escravo foi legalizado!
Cuidar do seu filho doente não é mais motivo de atestado!
E sobre assédio e misoginia
Me desculpa, mas a burguesia vai dizer
“estou de braços atado”!
Então questiono…
A vida não só tem valor quando ela é vivida?
Porque só 3%
Desfruta duma vida paradisíaca?
Pro preto trocou a senzala pela fábrica
O navio negreiro pelo camburão
E faremos então que nem Palmares
E essas correntes vão ao chão
Passado se torna rebelião
E futuro se torna satisfação
A trabalhadora contra os cães do estado sua dignidade mantém
E a burguesia oprime pra sustentar cada vintém
Mas a trabalhadora construiu tudo que você tem
E se ela parar não enriquece você e mais ninguém
Já eu não sou otimista, eu sou realista
Porque quando a classe operária está unida
Ela tem uma arma apontada para cara do facínora
Como mostra o canto das três raças
pros revoltados a greve é nossa festa,
A manifestação o nosso carnaval
E a revolução o nosso Natal!
Então me responda
Qual o valor da sua vida?
Porque num sistema que nos quer morto
Nos quer parado, nos quer engessado!
Nós temos que construir uma conduta
Portanto vida só tem valor quando se LUTA!