
O Jornal A Verdade publica mais uma poesia enviada por brigadistas, leitores e apoiadores da nossa imprensa
Sofia Martins | São Paulo
Quem mandou ser gente?
Tudo que me compõe é um reflexo de quem já passou por mim
Meu andar é um mosaico das ruas e das lutas que já atravessei.
Às vezes reflito:
“será que sobra alguma coisa que seja só minha?”
Demorou pra eu perceber que sim.
Sobra a honestidade.
Sobra a vontade de mudar a realidade.
Sobra a coragem de ir pra luta sabendo que talvez não volte pra casa.
Sobra o medo de perder mais alguém.
Perdi amigos dentro de pino
Perdi amigos dentro de viatura
Pra maldita bala que não pergunta nada
Pro pó que não pergunta se você ainda quer viver
Pra farda que não quer saber de você.
Mas eu sigo.
Sigo por quem não pôde lutar por si.
Sigo porque no Natal ainda tem gente com fome.
Sigo porque tem gente que não vê mais sentido em viver.
Pra além disso
Sigo porque ainda vejo esperança nas manhãs de sol
no sorriso das crianças
e nas bandeiras que nosso povo levanta.
A melancolia que nos persegue aparece quando perdemos mais um,
vira peso nas costas e nó na garganta
que dificulta os dias que seguem
mas precisamos seguir lutando pra evitar a perda de outro.
A melancolia é companheira das lutas.
Gente sem melancolia é gente vazia.
Poesia sem melancolia é texto desocupado, sem emoção
E a luta me ensinou que espaço vazio
Vira ocupação.
Me ocupo lutando.
Me ocupo ocupando.
Tamo ocupado com a construção
de uma sociedade sem opressão.
“Teu sangue será adubo
Tua alma já é semente”
E eu quero ser árvore que abriga,
pássaro que voa,
bloco que constroem moradia.
Vale a pena
Mesmo a melancolia apertando o peito
Mesmo o vazio que tenta invadir as vezes
Vale a pena porque a gente junto é uma coisa só
coisa que ainda grita
coisa que ainda sente.
Sente que ainda vale a pena manter viva a memória dos nossos heróis
E a esperança de um novo modo de vida.
Vale
Vale cada gás que a gente engole junto
Vale a memória de cada amigo que a farda levou
Vale porque a gente transforma em faixa
em luta
em nome de ocupação.
Quem mandou ser gente foi a vida
Quem mandou resistir foi o amor
Quem mandou lutar foi a esperança
Pra que haja fraternidade
Pra que haja uma nova realidade.