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Porque Pelé é preto!

A resposta do jornalista Juca Kfouri, ao Ópera Mundi, numa entrevista sobre as razões pelas quais Pelé não é tão reverenciado no Brasil quanto o Messi ou Maradona na Argentina, foi contundente.

Porque Pelé é preto! Porque Pelé é preto! Porque Pelé é preto!

Insistiu nisso, como um mantra.

Resposta absolutamente verdadeira, clara e precisa, mas desconcertante, diante da singularidade do racismo brasileiro.

Racismo maneiroso, cheio de meias palavras, insinuações, hipocrisias. Racismo em que os racistas se negam a assumir sua condição de racistas.

Racismo pleno de dissimulações.

Mesmo quando é evidente, provado, identificado, cercado de imagens e testemunhas, o racista, sem qualquer culpa, com a cara lavada, cara de pau, dá um jeito de escapar, ou tentar, na linha de não ter sido bem isso que ele quis dizer ou fazer.

Argumenta, não obstante provas gritantes, ter sido mal interpretado. Ou então, tomado por um surto. Que não nos enganemos: é uma pessoa de bem.

Nessa hora, pensamos em Chico César: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade de pessoa ruim”.

Quando ouvimos falar de pessoa de bem, e é triste dizer isso, vemos encarnado o racismo nessa fase da vida brasileira, quando ele se tornou mais obsceno, mais agressivo, mais presente na mesa de jantar.

Sabíamos do racismo, mas às vezes não o sentíamos tão às claras, tanta gente com tanta vontade de proclamá-lo. E de saltar de banda quando a lei se aproxima, inventar mil e uma desculpas, como se tudo fosse fruto de um deslize.

O racismo brasileiro é tão profundo, tão entranhado na alma e no coração de grande parte da sociedade brasileira, a ponto de racistas se mostrarem indignados, não com o ato de racismo, com o crime cometido, mas com o fato de ter sido denunciado.

Muitos, surpreendidos cometendo crimes racistas, tentam sair pela tangente, sem o menor constrangimento, afirmando ser a denúncia um mimimi. Mera brincadeira sem qualquer maldade, argumentam, na melhor hipótese – é o racista um pouco mais educado, ou daqueles que se acreditam assim – racista civilizado, autêntica contradição em termos.

Há o outro, tão comum, o menos educado – este, ameaça ou tentam intimidar a vítima ou vítimas – filho autêntico do pensamento fascista, onde tudo deve ser resolvido na porrada. Modos racistas de ser, próprios de nosso país, marcado por séculos de Casa Grande e Senzala, cujas marcas centenárias nos perseguem.

Pelé é o exemplo e a vítima mais visível desse modo de ser racista da sociedade brasileira. Enquanto jogador profissional, Pelé foi irretocável, magistral, genial, considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos. Isso dito por todos os especialistas de futebol do mundo.

Não houvessem tantas testemunhas mundo afora, é só assistir, ouvir, um Rivelino ou um Gerson, contemporâneos dele, também geniais jogadores, capazes de render justas homenagens ao caráter e ao brilhantismo dele como jogador de bola, o maior de todos, conforme proclamam.

Ganhou tudo que podia ganhar enquanto jogador. Campeão paulista, brasileiro, das Américas e Mundial de clubes. Conquistou três copas do mundo pela seleção brasileira. Foi o primeiro jogador de futebol da história a fazer mil gols. Ainda assim, as cobranças para que ele fosse perfeito, não enquanto jogador, mas enquanto ser humano, continuam. E agora, não apenas no Brasil. Cobram que ele fosse pai exemplar, militante político abnegado, antirracista radical.

Não basta ter sido extraordinário jogador, ter confrontado João Havelange, ter sido um autêntico embaixador do Brasil, não basta ter prestado extraordinário serviço ao movimento negro brasileiro ao afirmar-se como rei mundo afora, sem pedir licença a ninguém, apenas e tão somente com a genialidade dele como futebolista, e com a personalidade de um cidadão a desfilar por dezenas de países sempre de cabeça erguida.

Para Pelé nunca houve nenhuma atenuante: sempre culpado. Depois de morto, querem, quem sabe, uma segunda morte dele. Tentam.

A Copa do mundo de futebol de 2026 foi um marco sob diversos aspectos. Maior número de seleções (48), presença de representantes de todos os continentes. Realizada em três países (Canada, Estados Unidos e México).

Não se esconda, no entanto: chamou atenção pelo altíssimo grau de discriminações e manifestações racistas, jamais vistas em tal dimensão numa Copa.

A começar por um dos países anfitriões que discriminou abertamente as delegações de países africanos, árabes e latino-americanos. Submeteram jogadores e membros das equipes a tratamentos vexaminosos, com revistas, detenções e deportações, sem nenhum respeito pelas regras esportivas. Nem ditaduras chegaram a fazer isso.

Tudo isso com a conivência e o beneplácito da Fifa, que não só fez vistas grossas a tais absurdos, como ainda premiou o presidente dos Estados Undios, com o “Prêmio da Paz da Fifa”, verdadeiro escárnio para com os amantes da paz e dos esportes. Trump vive à procura de prêmios da paz, a tentar esconder o banho de sangue em que tem mergulhado o planeta.

Mas, não só isso. Visível o esforço feito pela direção da Fifa em proteger, incensar e tentar canonizar Lionel Messi como o melhor jogador de futebol de todos os tempos, vã tentativa de apagar a memória de Pelé.

Não se pretende, porque inútil, desconhecer Messi como um dos melhores da atualidade, mas como diria o povo, não engraxaria a chuteira de Pelé, ainda muito distante em méritos, quanto ao trato da bola, de tantos grandes jogadores surgidos após o final dos anos 1950, quando ele desponta como Rei, nas palavras de Nelson Rodrigues, antes de 1958.

Aos 17 anos na Suécia surge para o mundo. Quem naquela idade receberia a bola, mataria no peito, daria um chapéu, e faria um dos mais belos gols da história, em final da Copa do Mundo? Só ele, mais ninguém.

Curioso: nenhuma das cobranças invariavelmente feitas a Pelé, quando no auge da fama, seja sobre a ditadura militar que esteve vigente no Brasil por mais de 21 anos, ou sobre o racismo secular da sociedade brasileira, são feitas a Messi, cujo país é notoriamente racista, além de ter um presidente declaradamente da extrema direita, protagonista de espetáculos grotescos e desrespeitosos, como a recente participação na convenção do filho do ex-presidente, preso por golpismo.

Nem mesmo as manifestações agressivamente racistas que a torcida argentina protagonizou durante a Copa do Mundo de 2026, chegando mesmo a ser objeto de investigações por parte da Fifa, foram objeto de questionamento junto ao ídolo argentino.

Esse esforço da torcida e imprensa argentina em desejar desbancar Pelé da condição de melhor jogador de futebol de todos os tempos tem amparo em vários setores esportivos da sociedade brasileira. Um pouco envergonhados é bem verdade, como é característica do racismo brasileiro, mas que há, há.

A afirmação de Juca Kfouri, contundente, de amplo impacto, não obstante não se constituir numa novidade, deve ser valorizada, celebrada, destacada pela importância dela.

Constitui ato de coragem, difícil de ser encontrada no jornalismo esportivo brasileiro, sempre pronto a jogar o racismo para debaixo do tapete. Esse jornalismo está cheio de gente de bem.

E a lembrança/comparação que ele faz com o caso trágico do jogador Edmundo, que atropelou e matou três pessoas, após uma noitada, no Rio de Janeiro e a não assunção por parte de Pelé de uma filha na juventude revela bem esse jeitinho brasileiro de ser racista. Enquanto o primeiro foi perdoado e esquecido, o segundo é lembrado em qualquer discussão mais acalorada sobre sua grandeza no futebol.

Recorremos a um dos mais brilhantes cronistas de nossa história, Nelson Rodrigues. Primeiro, para caracterizar a maioria de nossa imprensa esportiva, tomada do que ele chamou apropriadamente de complexo de vira-latas, incapazes de compreender nossas grandezas e de defender nossa soberania. Segundo, para lembrar a crônica de 8 de março de 1958, dele, publicada na revista Manchete Esportiva, denominada “A Realeza de Pelé”.

Nela, depois de assistir ao jogo Santos x América, quando Pelé fez quatro dos cinco gols do Santos, terminado 5 x 3, ele proclama o jogador de 17 anos como Rei, de cujo peito parecem pender, como ele diz, mantos invisíveis.

O cronista afirma a condição dele de Rei porque ele levava sobre os demais jogadores a vantagem de sentir-se assim. Nelson Rodrigues dá-se ao cuidado de falar de um memorável gol do Rei: sozinho ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra, conforme descrição do cronista.

Defende ser Pelé, com 17 anos, imprescindível à seleção. Afirma: ele não tremerá diante de ninguém. Não tremeu. Não se inferiorizará diante de ninguém, como de fato não se inferiorizou. Dessa atitude, precisávamos nós, e com ela fomos campeões do mundo pela primeira vez.

Dali em diante, Pelé assombrou o mundo com a majestade dele, e tornou-se o maior jogador de todos os tempos, sem ninguém a lhe fazer sombra, apesar de todos os esforços, de ontem e de hoje.

Rei: Nelson Rodrigues tinha razão.

O racismo não é fácil de ser debelado. Pelé, morto, continua vítima dele. É o Brasil sendo o Brasil. Apesar de todos os avanços, conquistas e lutas do movimento negro brasileiro e seus aliados, o país ainda não conseguiu extirpar da sociedade brasileira essa praga chamada racismo.

Por isso mesmo, a luta continua…

Emiliano José é jornalista, doutor em Comunicação pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, escritor, deputado federal (PT-BA)

Zulu Araújo é arquiteto, mestre em cultura e sociedade, ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, conselheiro do Grupo Cultural Olodum e doutorando em Relações Internacionais (UFBA)