Pragmatismo absoluto ou neoliberal
O pragmatismo absoluto ou neoliberal constitui a concepção do pragmatismo como motor da despolitização e da desideologização, um dos fenômenos sociopolíticos globais mais relevantes das últimas décadas.
Quando a política se desloca para o pragmatismo absoluto, deixa de ser uma luta de valores para se tornar uma administração de recursos. Isso traz como consequência o fim das grandes narrativas: seguindo a lógica de autores como Daniel Bell (O fim das ideologias), presume-se que as grandes disputas históricas terminaram e que resta apenas otimizar o sistema global predominante atual.

(Foto: government.ru / Wikimedia Commons)
Hugo Chávez se opõe à tese do pragmatismo absoluto e do “fim das ideologias”. Em O Livro Azul, ele afirma o seguinte:
“Vivemos efetivamente uma era em que as ideologias parecem estar se extinguindo. ‘O fim das ideologias’, assim o chamaram muitos estudiosos da época… E é precisamente neste quadro desideologizado e com o objetivo de encontrar recursos válidos para que nosso povo avance pelo mapa intrincado e complexo do futuro que nos atrevemos a invocar um modelo ideológico autóctone e enraizado no mais profundo de nossa origem e no subconsciente histórico do ser nacional.”
Autores contemporâneos como Slavoj Žižek argumentam que o pragmatismo absoluto é, em si mesmo, a “ideologia invisível”. Ao dizer “não sou ideológico, não sou político, sou prático”, aceita-se de forma acrítica o statu quo (geralmente o neoliberalismo) como se fosse uma lei natural e não uma escolha política.
O perigo do pragmatismo absoluto é que ele pode transformar a política em uma simples “manutenção do sistema imperialista”, perdendo a capacidade de imaginar futuros distintos ou mudanças estruturais profundas.
Quando o pragmatismo absoluto colide com a mística revolucionária, ocorre uma ruptura que afeta tanto a identidade do movimento quanto seu vínculo com o eleitorado. Para um movimento baseado na luta heroica (Revolução Bolivariana), a memória histórica e ideológica é seu principal ativo; é o que legitima sua existência.
A fidelidade do núcleo duro dos eleitores em movimentos épicos não é racional-econômica; é majoritariamente emocional e moral. O pragmatismo absoluto rompe essa fórmula, causando desmobilização: a luta heroica requer militância ativa. Com o desaparecimento da “mística”, desaparece também a vontade de defender o projeto em momentos de crise.
Pragmatismo chavista
Hugo Chávez, sem abandonar sua forte carga ideológica, propôs o pragmatismo como método ou tática de resistência ativa para alcançar princípios ideológicos e objetivos históricos; por isso, combateu duramente o dogmatismo, especialmente quando percebia que a teoria afastava seus seguidores da realidade ou da eficiência necessária para governar.
Chávez costumava criticar aqueles que pretendiam governar seguindo os livros ao pé da letra, sem interpretar corretamente os diferentes contextos que prefiguram a realidade existente. Em certa ocasião, expressou:
“Não nos deixemos encaixotar em dogmas. O dogmatismo é o pior inimigo da criação revolucionária.”
Sobre a unidade acima da “pureza ideológica”, Chávez era um grande estrategista da unidade. Criticava os grupos de esquerda radical que se fragmentavam por “purismos”.
“Unidade, unidade, unidade. Devemos ser capazes de trabalhar com aqueles que não pensam exatamente como nós em prol de um objetivo superior.”
A influência do pensamento antidogmático de Hugo Chávez na Lei Antibloqueio — que inspirou a reforma da Lei de Hidrocarbonetos —, ambas propostas pela atual presidente (E) Delcy Rodríguez, constitui uma linha direta que o governo de Nicolás Maduro utilizou para legitimar uma virada necessária a fim de enfrentar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. A lei não é uma traição à Revolução Bolivariana, mas uma aplicação do pragmatismo chavista em condições de cerco e guerra multifatorial.
Quando um governo realiza reformas sociais, econômicas ou políticas para evitar uma guerra, está aplicando um cálculo de custo-benefício. O pragmatismo aqui reside em reconhecer que o custo da reforma é menor do que o custo total de uma invasão, de uma guerra civil, da destruição da infraestrutura e da possível perda do poder. Cede-se no secundário — uma lei, uma política econômica — para salvar o principal: a existência da República Bolivariana da Venezuela.
Não tenho a menor dúvida de que a presidente (E) Delcy Rodríguez está fazendo o que é correto segundo a lógica do pragmatismo chavista. Se Chávez estivesse vivo diante de uma ameaça de ocupação ou colapso total, não se agarraria a uma lei que asfixiasse o povo, mas “romperia as amarras” para salvar a República.
O pragmatismo chavista aplicado pela presidente (E) Delcy Rodríguez permite que a República Bolivariana da Venezuela sobreviva enquanto mantém sua identidade histórico-ideológica. É precisamente essa identidade histórico-ideológica o principal elemento dissuasivo diante de ameaças externas e internas.
(*) Francisco José Amealiach Orta é vice-presidente do Partido Socialista Unido da Venezuela. Foi governador de Carabobo e Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela.
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