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Prefeito de Florianópolis demite servidores em greve

Diante de uma situação de descaso nos serviços públicos e dificuldades para trabalhar, os servidores de Florianópolis, Santa Catarina, decidiram cruzar os braços. A mobilização foi perseguida pela prefeitura, mas teve como resposta a resistência dos trabalhadores e apoio por parte da população.

 Evandro Prezzi| Santa Catarina


No dia 23 de abril, os servidores da Prefeitura de Florianópolis cruzaram os braços. Motivos não faltam: ataques sem fim, sucateamento da máquina pública e o descumprimento de acordos pela gestão de Topázio Neto (PODEMOS) e seu secretário Thiago Peixoto. O movimento, puxado pelo SINTRASEM (Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Municipal), começou forte, com adesão maciça de funcionários de todas as áreas — da educação à assistência social.

As principais pautas eram cumprimento da lei federal que iguala auxiliares de sala ao pessoal do Magistério, garantia da data-base de 2026, a convocação dos aprovados em concursos de todas as áreas do serviço público e a melhoria na infraestrutura das escolas, NEIMs e postos de saúde.

Desde o início, a imprensa burguesa e os grandes portais de notícias escolheram a tática de desacreditar o movimento grevista. As manifestações de rua, que contaram com o apoio do MLC (Movimento Luta de Classes) e da Unidade Popular, fizeram o prefeito recuar e propor uma mesa de negociação com a condição de que os servidores retornassem ao trabalho, o que foi rejeitado pela categoria. No dia 30, véspera do Dia do Trabalhador, a justiça atendeu ao pedido da prefeitura e declarou que a greve era “ilegal”, mas os servidores decidiram manter as mobilizações em boa parte da capital catarinense.

Descaso com a educação

Para o nosso jornal os trabalhadores em educação afirmaram que o quadro da educação é de completo abandono por parte da prefeitura – especialmente no que diz respeito ao básico e ao estrutural, como a alimentação. Uma servidora da educação infantil desabafou: “falta tudo. Sala de aula, alimentação, brinquedos. A estrutura básica para as crianças não existe mais”.

Por outro lado, como uma vitrine do atual governo, o ensino em tempo integral foi imposto de forma autoritária em escolas que sequer possuem estrutura para tal. Como resultado, as escolas perderam salas antes destinadas a atividades lúdicas e foram transformaram em salas de aula comuns. Um outro professor afirmou: “Os problemas são muitos. Parquinho quebrado, ar-condicionado não funciona e falta material didático. Eu sou professor de artes e não tenho nem giz de cera direito”.

Falando sobre a estrutura e condições de trabalho outra servidora denuncia: “A estrutura é precária. Com o calor que faz, nem consigo fazer a chamada direito. Falta material para escrita, e o livro didático consumível é um problema: não sabemos se ano que vem virá outro exemplar. Os bebedouros não funcionam. Na alimentação, falta cuidado com o hortifrúti, muitas vezes chegando estragado. Tem até escola com banheiro interditado. Como é possível trabalhar, produzir uma educação de qualidade e as crianças terem uma aula decente desse jeito?”

Demissões e perseguição

Com a greve só aumentando e a adesão crescendo, o executivo resolveu dar o golpe na dignidade da classe trabalhadora: começou a descontar o salário dos funcionários. Os descontos, no entanto, vieram de forma aleatória, atingindo até servidores aposentados e que não estavam em greve. Enquanto isso, a prefeitura declarava-se “disposta a negociar” — sob a condição de que os servidores retomassem as atividades.

Nas manifestações diante da sede do poder executivo municipal, tornou-se evidente o que a categoria já denunciava: não havia interesse genuíno em diálogo, mas sim em silenciar o movimento.

Mas o pior ataque veio no dia 6. No Diário Oficial, saiu a demissão de cerca de 240 servidores temporários, sob a justificativa de “ausência injustificada”. A demissão varreu todas as escolas e NEIMs da cidade.  Como resposta houve no dia 7 a maior manifestação que Florianópolis já tinha visto. Cerca de 10 mil servidores ocuparam as ruas da capital exigindo seus salários e empregos de volta.

Laís Chaud, pré-candidata ao governo do estado pela Unidade Popular declarou: “Se tem alguém que deve ser demitido nesta cidade é o prefeito e seu secretário de educação que são contra os educadores desta cidade!”

Na mesma semana, a Secretaria de Educação soltou uma portaria informando que se os diretores das unidades que estavam em greve continuassem de braços cruzados, seriam destituídos dos cargos e colocados de volta para as funções de origem.

A greve e a luta continuam!

Devido à continuidade da greve e aos ataques da prefeitura, o Tribunal de Justiça, por decisão do desembargador João Henrique Blasi, assumiu o papel de mediador entre as partes — uma tentativa clássica de esfriar o conflito de classes e recompor a dominação sobre os trabalhadores. As negociações ocorreram entre os dias 11 e 12 de maio, porém, longe de qualquer conciliação verdadeira, o que se viu foi mais uma manobra para punir o sindicato e criminalizar a luta.

A “proposta” apresentada pela prefeitura resumia-se a três pontos: não readmitir os servidores demitidos, recusar-se a negociar os descontos indevidos e não estabelecer nenhum prazo para atender às reivindicações da categoria. Ou seja: intransigência, repressão e o reforço da exploração. O Estado, mais uma vez, atuou como comitê de gestão dos negócios da burguesia.

Em assembleia, os servidores decidiram pela continuidade da greve. Nos dias seguintes, a categoria intensificou as mobilizações com panfletagem e atos em frente à prefeitura. A greve, que já dura duas semanas, começa a impactar diretamente a rotina dos serviços essenciais, pressionando o Judiciário a uma posição mais incisiva. O desembargador Blasi convoca nova audiência de conciliação para o mês de maio, mas a categoria mantém-se firme na rejeição às condições impostas pelo Executivo municipal.

A luta segue — nas ruas, nas escolas, nos postos de saúde e na disposição daqueles que recusam ser tratados com desprezo por esse governo.