Ao ser anunciado como um dos vencedores do Prêmio Grande Otelo no último dia 4, o filme Manas mostrou que o cinema nacional vive de fato um grande fase. Embora não tenha uma trajetória tão consagrada quanto O Agente Secreto, com quem dividiu a categoria principal, o filme dirigido por Marianna Brennand é ainda mais urgente por se tratar de tema tão espinhoso: o abuso sexual na infância e a violência contra as mulheres.
Lançado em 2024 no aclamado Festival de Veneza, de onde saiu como o prêmio de melhor direção, Manas foi, pouco a pouco, mostrando a sua força por onde passava. Acumulou outras 30 honrarias mundo afora até chegar às salas de cinema no ano seguinte.
Com a repercussão prévia, a exibição ao público chegou com enormes expectativas, endossada também por boas avaliações da imprensa especializada. Nas manchetes do The New York Times, por exemplo, o filme foi chamado de “hipnotizante, documental e comovente”.
Mas o que faz de Manas um filme tão impactante? Além da sensível direção , que nos poupa enxergar o sofrimento da protagonista, mas não de sentir o que ela passa, Manas leva para a sétima arte um tema que pouca gente teria coragem de transformar em roteiro.
Na história, Marcielle (Jamilli Correa), uma menina de 13 anos, vive numa cabana com a família na ilha Marajó, sobre palafitas no Rio Amazonas. A relação com o pai Marcílio (Rômulo Braga) logo indica que aquele afeto sugere camadas não ditas e perigosas. Percebemos nos gestos, no desconforto de Marcielle e, aos poucos, na busca da própria protagonista por uma fuga deste abismo em que não escolheu estar.
A natureza ao redor endossa o sofrimento e, embora a câmera esteja sempre em close, todo personagem parece desconectado um do outro. Isso até que uma rede de proteção comece a se formar a partir destas vozes que saem do cansaço e da dor.
Tratar violência sexual na infância no cinema é tarefa das mais difíceis e só uma diretora com o talento de Marianna Brennand seria capaz de transformar isso em arte – sem que isso signifique romantizar o tema. E, em tempos de violência recorda contra mulheres no Brasil, ver Manas não é um filme fácil de ver, mas ajuda a entender os paradoxos da estrutura familiar conservadora no país.