O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, afirmou que a Rússia interferiu no referendo de 2016 que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia, processo conhecido como Brexit. A declaração provocou uma controvérsia política no país, levando o governo a esclarecer nesta segunda-feira (12/10) que reconhece a legitimidade da votação e não considera que a atuação russa tenha alterado seu resultado.
Em entrevista ao podcast The Rest Is Politics, no domingo (11/10), Burnham afirmou ter recebido informações sobre a interferência de Moscou depois de assumir o governo britânico, em julho deste ano. “Fiz a pergunta quando cheguei a Downing Street: houve interferência da Rússia no referendo de 2016? E recebi uma resposta clara de que sim”, declarou o primeiro-ministro trabalhista.
As declarações de Burnham ocorrem em um momento de discussão sobre o futuro das relações entre o Reino Unido e a União Europeia. Nesta segunda-feira (12/10), o primeiro-ministro deve defender no Parlamento a negociação de um novo acordo com o bloco, dez anos após o referendo que decidiu pela saída britânica.
A repercussão levou Downing Street, sede do governo britânico, a esclarecer a posição do primeiro-ministro. Durante uma entrevista coletiva nesta segunda-feira, seu porta-voz afirmou que, embora o governo considere provável a tentativa de interferência, não existem evidências de que Moscou tenha conseguido modificar o resultado do referendo.
“Considerando tudo o que sabemos sobre a Rússia, é inconcebível que eles não tenham tentado usar o referendo em seu próprio benefício. Mas, como disse o ministro [Stephen Doughty] esta manhã, não acreditamos que tenham tido sucesso”, declarou. O porta-voz acrescentou que Burnham “aceita integralmente o resultado do referendo”. Questionado novamente sobre a legitimidade da votação, respondeu: “Sim, acreditamos que o resultado do referendo seja legítimo.”
Volta à UE
O debate sobre a interferência estrangeira no Brexit não é novo. Em 2020, um relatório do Comitê de Inteligência e Segurança do Parlamento britânico criticou a ausência de uma investigação suficientemente aprofundada sobre possíveis operações russas durante a campanha de 2016. O documento apontou falhas na avaliação da extensão dessas atividades.
O Brexit também aprofundou as tensões entre o governo britânico e os movimentos independentistas da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte. Em setembro, os premiês dos três países assinaram um memorando conjunto em defesa do direito à autodeterminação de suas nações.
Eles também criticaram a saída do Reino Unido da União Europeia, afirmando que a decisão prejudicou suas economias e reduziu as oportunidades de suas populações. “A Europa é nosso lar comum e acreditamos que o futuro de nossas nações pertence à União Europeia”, declararam.

UK Parliament
‘Mentiroso’
As declarações do primeiro-ministro foram duramente criticadas por Nigel Farage, líder do Reform UK, partido da direita radical britânica, e uma das principais figuras da campanha pelo Brexit em 2016. Durante uma entrevista coletiva nesta segunda-feira, Farage negou que Moscou tenha interferido no referendo e acusou Burnham de divulgar uma informação falsa.
“O primeiro-ministro é um mentiroso. Sim, um mentiroso”, afirmou, ao ser questionado sobre a possibilidade de sua campanha ter sido beneficiada por operações russas. Para sustentar sua posição, Farage mencionou o ex-primeiro-ministro Boris Johnson, que ocupou o cargo de secretário de Relações Exteriores após o referendo.
Segundo o dirigente do Reform UK, Johnson teria questionado autoridades sobre a existência de interferência russa na campanha e recebido uma resposta negativa. “Não houve interferência russa. E a farsa da Rússia permeou todo esse processo”, declarou.
Ao responder a uma pergunta sobre os efeitos da saída da União Europeia para empresas do condado de Kent, no sudeste da Inglaterra, Farage reconheceu que o Brexit tornou as atividades comerciais mais difíceis para determinados setores. “Sem dúvida, para algumas empresas o Brexit torna a vida um pouco mais difícil”, afirmou.
O líder do Reform UK sustentou, entretanto, que outras empresas se beneficiaram da saída do bloco europeu, especialmente aquelas que mantêm relações comerciais com países de fora da União Europeia. “É verdade também que, para algumas empresas que atuam fora da União Europeia, o Brexit facilitou suas vidas”, declarou.
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