
A Casa Branca atuou nesta segunda-feira (1º) para conter o desgaste provocado pelas revelações sobre o ataque que matou 11 pessoas em uma embarcação venezuelana no Caribe em 2 de setembro.
O episódio expõe tensões internas no governo Donald Trump e consolida o diagnóstico de advogados militares, especialistas em direito internacional e parlamentares norte-americanos de que os ataques no Caribe configuram crime de guerra.
Documentos, declarações oficiais e relatos de militares apontam que o secretário de Defesa Pete Hegseth deu ordem verbal para que “ninguém fosse deixado vivo”, versão que o governo tenta agora atenuar ao afirmar que o almirante Frank M. Bradley agiu “bem dentro da lei” ao conduzir múltiplos ataques contra o barco.
Bradley chefiava, no dia do ataque, o Comando Conjunto de Operações Especiais — unidade que dirige missões secretas e forças de elite como o SEAL Team 6 — e hoje está à frente do Comando de Operações Especiais, estrutura responsável por todas as forças especiais dos EUA.
As informações intensificam a pressão sobre Washington, que tem adotado uma política de escalada militar contra a Venezuela desde setembro, com mais de 20 bombardeios confirmados e 80 assassinatos.
A versão defendida pela Casa Branca afirma que Hegseth apenas autorizou Bradley a conduzir os ataques, mas omite se o secretário determinou a eliminação dos sobreviventes.
O episódio central ocorreu quando um drone das forças especiais dos Estados Unidos identificou um barco venezuelano de pequeno porte navegando perto de Trinidad.

Após acompanhamento aéreo, e sem que houvesse ameaça direta contra militares norte-americanos ou a segurança do país, o comando operacional autorizou o disparo de um míssil que destruiu a embarcação.
As imagens registradas pela própria plataforma mostraram que, após a explosão, dois homens permaneceram vivos, agarrados a destroços no mar. Segundo fontes com acesso direto à operação, esses sobreviventes não estavam armados, não representavam risco imediato e não fizeram qualquer movimento hostil.
Foi nesse momento, segundo o Washington Post, que a ordem verbal de Hegseth — “mate todo mundo” — passou a determinar os passos seguintes.
O almirante Frank M. Bradley, responsável direto pela missão, ordenou um segundo ataque, cuja finalidade foi eliminar os dois náufragos. Em círculos militares, o ato tem sido comparado a uma ordem de “não fazer prisioneiros”, prática explicitamente proibida pelas Convenções de Genebra e pelo próprio Manual de Leis de Guerra do Pentágono.
Ex-advogados militares que avaliaram o caso afirmam que atingir sobreviventes incapacitados constitui, em qualquer circunstância, “crime de guerra, assassinato ou ambos”.
Há também dúvidas sobre quem estava no barco. Especialistas em operações antidrogas afirmam que lanchas usadas por cartéis geralmente navegam com poucas pessoas, para ampliar o espaço destinado à carga.
A presença de 11 ocupantes — número considerado incomum para o transporte de cocaína — levanta a hipótese de que a embarcação reunia pescadores, migrantes ou trabalhadores informais, e não uma estrutura organizada do narcotráfico.

Essa incerteza reforça as críticas de que os Estados Unidos recorreram ao ataque letal sem esclarecer quem estava sendo atingido.
Para conter o dano político, a Casa Branca passou a descrever o episódio como uma ação “em legítima defesa” e diz que Bradley “agiu dentro de sua autoridade e da lei”.
A reconstrução oficial, porém, não esclarece por que o segundo míssil foi disparado, tampouco explica por que o governo divulgou apenas um vídeo editado de 29 segundos — que mostra o primeiro impacto, mas oculta o ataque que matou os sobreviventes.
Nem o Pentágono nem o Departamento de Justiça apresentaram até agora a gravação completa do ataque, solicitada formalmente pelo Congresso em outubro.
A porta-voz Karoline Leavitt declarou nesta segunda-feira, em coletiva de imprensa na Casa Branca, que “o secretário Hegseth autorizou o almirante Bradley a conduzir estes ataques cinéticos” e que o comandante “trabalhou bem dentro de sua autoridade e da lei para garantir que o barco fosse destruído”.

A declaração provocou reação imediata entre militares e funcionários civis no Pentágono. Em entrevista sob anonimato ao Washington Post, um oficial afirmou que a estratégia da Casa Branca visa “proteger Pete Hegseth” e que a falta de clareza sobre quem ordenou o segundo disparo transmite a sensação de que a cadeia de comando está operando para “jogar os militares debaixo do ônibus”.
As revelações publicadas pelo Washington Post na útlima sexta-feira (29) apontam que Hegseth havia dado ordem verbal para matar toda a tripulação. Quando o primeiro míssil deixou dois sobreviventes, Bradley determinou um segundo ataque para cumprir a instrução.
O jornal relatou que pessoas “com conhecimento direto da operação” confirmaram a ordem e afirmaram que a direção política acompanhou o ataque em tempo real por videotransmissão.
Especialistas em direito humanitário afirmam na imprensa do país que, mesmo considerando a controversa tese do governo Trump de que os EUA estariam em “conflito armado não internacional” com cartéis latino-americanos, matar náufragos seria crime de guerra.
O manual de leis de guerra do Pentágono afirma que “ordens para disparar contra náufragos são claramente ilegais”.
Um segundo oficial disse ao jornal que a fala da porta-voz Leavitt “deixou tudo em aberto” sobre a responsabilidade pelo segundo ataque. Outro oficial lamentou que Bradley tenha sido “colocado sob os holofotes” pela Casa Branca, lembrando que o almirante construiu toda a sua trajetória evitando exposição e atuando em unidades que operam tradicionalmente na sombra.
Em mensagem divulgada na noite desta segunda-feira, Hegseth afirmou que “apoia 100% o almirante Bradley” e que “permanece ao lado das decisões de combate que ele tomou”. A declaração foi recebida como tentativa de afastar a responsabilidade direta do secretário.
No domingo (31), Trump tentou descolar-se do episódio. O presidente afirmou que “acredita 100%” em Hegseth e disse que o secretário negou ter ordenado a morte dos sobreviventes. Trump declarou que “não teria desejado um segundo ataque”, embora tenha classificado o primeiro como “adequado”.

O recuo contrasta com a postura assumida por Hegseth nas redes sociais, onde declarou que “apenas começamos a matar narco-terroristas” e prometeu continuar a ofensiva.
Em outra mensagem, o secretário afirmou que “a intenção declarada é parar drogas letais, destruir barcos narcos e matar os narco-terroristas que estão envenenando o povo americano”.
A iniciativa de blindagem ocorre no momento em que o Congresso amplia o cerco ao Departamento de Defesa. As comissões de Serviços Armados da Câmara e do Senado abriram inquéritos paralelos para apurar as circunstâncias do ataque.
O republicano Roger Wicker, presidente do comitê no Senado, afirmou nesta segunda-feira que solicitou acesso a vídeos, áudios, ordens escritas e justificativas legais. Wicker declarou que “vamos descobrir quais são os fatos verdadeiros” e confirmou que conversou com Hegseth e com o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine.
O democrata Jack Reed, representante da oposição, reforçou o pedido de transparência e afirmou que o Pentágono ultrapassou os prazos legais para entregar o material.

A pressão legislativa também cresceu com o depoimento do senador Mark Kelly, democrata do Arizona. Em referência direta ao caso, Kelly afirmou nesta segunda-feira que “precisa haver investigação”, reforçando que “se houvesse, de fato, como foi noticiado, sobreviventes agarrados a uma embarcação danificada, isso poderia ultrapassar uma linha. Eu espero que não seja o caso.”
O senador, ex-comandante da Marinha, declarou que “quem precisa responder perguntas em público e sob juramento é Pete Hegseth”.
Sobre as acusações de Trump de que democratas teriam cometido “traição”, Kelly respondeu que “não vou ser intimidado por este presidente” e que “não vou me calar”.
Grupos de ex-advogados militares reforçaram a avaliação de ilegalidade. O Former JAGs Working Group afirmou no sábado (30) que “não apenas o direito internacional proíbe atacar sobreviventes, como exige resgatá-los, protegê-los e, se aplicável, tratá-los como prisioneiros de guerra”.
O grupo concluiu que “violações destas obrigações são crimes de guerra, assassinato ou ambos” e acrescentou que “não há outras opções”.
As preocupações aumentam porque a ofensiva militar dos EUA ocorre num contexto de escalada contra o governo Nicolás Maduro.
A administração Trump já realizou mais de 20 ataques desde setembro e intensificou ameaças de “operações em terra”.
No sábado, o presidente afirmou que o “espaço aéreo venezuelano está completamente fechado”, declaração que provocou ansiedade em Caracas. Trump confirmou que conversou com Maduro na sexta-feira (29), mas não detalhou o conteúdo.
Reportagens da Reuters indicam que Maduro solicitou anistia ampla, retirada de sanções e autorização para deixar o país com sua família, propostas rejeitadas por Washington.
A crise interna nos EUA se combina ao avanço de uma política externa que pressiona abertamente Caracas. Documentos entregues ao Congresso mostram que, mesmo enquanto a Casa Branca menciona o combate ao fentanil, quase todas as embarcações atingidas transportavam cocaína destinada à Europa e à África Ocidental.

Legisladores republicanos e democratas afirmam que a justificativa de “autodefesa” não se sustenta e que a campanha militar carece de base legal. O Departamento de Justiça defende a tese de que o país vive “conflito armado” com cartéis, mas o memorando permanece mantido em sigilo.
Entre militares, cresce o temor de que o governo tente transformar Bradley em bode expiatório. Oficiais disseram ao Washington Post que a incerteza sobre a responsabilidade política ameaça a confiança na cadeia de comando e pode ter efeitos duradouros.
Um deles afirmou que “a reputação do almirante foi manchada para sempre” apenas com sua menção no pronunciamento da Casa Branca.
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