O ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, declarou que a atual crise no país, que culminou em amplos protestos convocados por diversas organizações sindicais desde o início de maio, decorre do retorno das políticas que ele mesmo combateu ao longo de seus 14 anos de mandato. “A origem é o retorno ao modelo neoliberal”, afirmou o líder indígena, criticando o desmonte promovido pelo atual presidente de extrema direita, Rodrigo Paz.
Em entrevista ao jornalista Breno Altman, nesta sexta-feira (22/05), para o programa 20 Minutos de Opera Mundi, Morales observou que não há, atualmente, intenção por parte da gestão ultraconservadora de atender às demandas dos setores populares bolivianos. Paz tomou posse em 8 de novembro e, no mês seguinte, promulgou o Decreto Supremo 5503. “Para o setor trabalhista, livre contratação; para o setor agrícola, livre importação com tarifas zero; para o setor comercial, o regime tributário simplificado foi eliminado”, explicou, comparando a medida ao Decreto 21060 de 1985, “quando o modelo neoliberal começou”.
Morales reiterou que os protestos que paralisaram o país não são dirigidos contra ele, como tenta fazer crer o governo Paz. Explicou que o que começou como reivindicações setoriais se transformou em uma rejeição mais ampla ao modelo econômico e ao caráter colonial do Estado. “Eles culpam tudo em mim, tudo no Evo. Os culpados são aqueles que emitiram o Decreto Supremo e essa lei”, frisou. “A partir de uma reivindicação setorial — salário, posse de terras, atenção às demandas em saúde, educação — transforma-se em uma revolta popular contra o modelo neoliberal e contra o Estado neocolonial”.
O ex-presidente também denunciou que a atual gestão atende ao agronegócio enquanto ignora as bases camponesas: “E novamente, há cinco ou seis dias, ele revogou a lei, chegando a um acordo com o setor do agronegócio, sem chegar a um acordo com os pequenos proprietários rurais”, pontuou.
Morales acusou as atuais autoridades do país de quererem “privatizar a Constituição”, ao lembrar que, durante seus 14 anos de gestão, a Bolívia viveu um boom econômico por meio da política de nacionalização de serviços básicos, como eletricidade e telecomunicações, e de recursos naturais, como a água. “Graças às políticas econômicas que vieram da luta dos movimentos sociais. Agora o povo está defendendo isso. É por isso que eu resumo dizendo: é uma revolta contra o modelo neoliberal, contra o Estado neocolonial”, afirmou.
Na entrevista, o líder indígena vinculou a ofensiva neoliberal à entrega do lítio, recurso estratégico para a transição energética mundial. “Se o governo boliviano se comprometer publicamente que não irá privatizar, que não entregará o lítio a estrangeiros, que não entregará terras aos Estados Unidos, que não irá privatizar a educação nem os serviços básicos, as tensões seriam reduzidas”, afirmou. “Nossa revolução deve ser democrática, e que não nos leve a uma guerra civil.”
Intervenção dos EUA provocaria ‘guerra civil’
Sobre o papel dos Estados Unidos na crise interna, Morales afirmou que os norte-americanos querem manter o controle sobre o Triângulo do Lítio — formado por Bolívia, Argentina e Chile, que concentra cerca de 60% das reservas mundiais do mineral. Segundo ele, a lógica da Operação Condor continua vigente, destacando para a continuidade da perseguição de Washington contra líderes populares e progressistas da América Latina, incluindo o próprio brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Em um contexto de agressões promovidas pelo governo de Donald Trump a diversas nações, com destaque para os latino-americanos após o anúncio da chamada “Doutrina Donroe” — como a invasão ocorrida na Venezuela em 3 de janeiro e as recentes investidas contra Cuba —, Morales avaliou que o risco de intervenção militar direta dos Estados Unidos na Bolívia a pedido de Paz seria “um ultraje” e provocaria “uma guerra civil”.
Apesar disso, o ex-presidente avaliou que os Estados Unidos estão em decadência e “já não são mais uma potência hegemônica”. Lembrou que o país atualmente governado por Trump condena recorrentemente países de esquerda, mas que na semana passada foi “correndo à China comunista”.
Assista à entrevista na íntegra:
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