Maria de Jesus dos Santos Lima, conhecida como Claudinha Lima, assumiu a Secretaria Nacional de Nucleação do PT com o propósito de fortalecer a militância nos territórios e expandir as raízes do partido nas periferias. Nessa entrevista, fala sobre o crescimento do partido nas últimas eleições para o Parlamento, o que avalia como um avanço importante para toda a esquerda brasileira. “O PT elegeu deputados e deputadas, tanto federais quanto estaduais, que representam a diversidade da sociedade brasileira e do partido, que é o maior do Brasil. Existe uma diversidade, temos deputados e deputadas que são líderes do movimento sindical rural, mas também líderes do movimento urbano, da periferia. O partido renovou muito a sua bancada, não apenas do ponto de vista de ampliação. A renovação geracional foi muito forte, aumentou a nossa bancada de juventude. E é ela que discute a periferia, que faz a disputa nas redes sociais e na vida real das pessoas”.
Qual é o saldo do Partido dos Trabalhadores depois dessa eleição para a Câmara dos Deputados e o Senado do ponto de vista das periferias, mulheres, de negros e negras e da comunidade LGBT?
Do ponto de vista geral, na Câmara Federal, o PT cresceu uma vaga. Tínhamos 69 deputados e deputadas federais e elegemos 70. Mas tivemos um crescimento da Federação Brasil da Esperança, tanto no PCdoB quanto no PV, que fez com que a nossa bancada da federação chegasse a oitenta e oito deputados e deputados federais. Então, é importante nós termos isso, porque o crescimento do PT ajudou com que os demais partidos da federação também crescessem e a gente pudesse ter uma bancada maior do que nós temos. Outro ponto foi o crescimento da participação das mulheres. O PT elegeu 25 candidatas e ampliou o número de mulheres no parlamento, também ampliamos as bancadas de mulheres negras LGBT. É um avanço muito importante para a esquerda brasileira. Infelizmente, não conseguimos eleger deputados e deputadas federais em todos os estados da federação, como era planejado. No Senado, elegemos um número significativo de parlamentares, mas não podemos negar que houve uma derrota da esquerda e do povo brasileira, com o crescimento do PL. Pois é uma bancada que coloca em risco a democracia do país. Então, nós não podemos minimizar esse resultado.
E nas assembleias legislativas, como você avalia o desempenho eleitoral do partido?
Em todas as bancadas, ou nos mantivemos ou crescemos nas assembleias legislativas de todo o Brasil. E tivemos crescimento em estados onde não tínhamos deputados ou tínhamos apenas um, que é especificamente o caso da região Norte. Ampliamos a nossa bancada em Rondônia, de uma para duas mulheres eleitas. Crescemos no Amazonas e em estados onde nos últimos anos a gente tinha perdido bancadas e agora, de certa forma, recuperamos espaço nas assembleias legislativas.
Você acredita que esse crescimento do PT, de modo geral, e manutenção em em outros locais, é resultado da nucleação e fortalecimento da relação com a base nas periferias?
O PT elegeu deputados e deputadas, tanto federais quanto estaduais, que representam a diversidade da sociedade brasileira e do partido, que é o maior do Brasil. Existe uma diversidade, temos deputados e deputadas que são líderes do movimento sindical rural, mas também líderes do movimento urbano, da periferia. O partido renovou muito a sua bancada, não apenas do ponto de vista de ampliação. A renovação geracional foi muito forte, aumentou a nossa bancada de juventude. E é a juventude que discute a periferia, que faz a disputa nas redes sociais e na vida real das pessoas. Vou pegar aqui o exemplo da Luna Zarantini, que foi a deputada mais votada de São Paulo. É uma vereadora que discute muito essa questão das periferias, organiza as comunidades, os bairros, as pessoas. São Paulo é o exemplo de que a partir da organização dos núcleos podemos eleger deputados e deputadas e fortalecer o parlamento brasileiro, seja nas câmaras municipais ou federal e nas assembleias legislativas. Outro exemplo é da nossa mais jovem deputada federal, Ana Elisa, que teve mais de meio milhão de votos em Minas Gerais e é uma menina periférica que faz a disputa nas redes sociais. Ela está dialogando no dia a dia da periferia e na vida real do povo. Esses são dois exemplos de uma renovação que reforçam esse debate de que precisamos fortalecer os núcleos, o diálogo com as pessoas nas periferias. Também elegemos líderes do MST. Em Pernambuco, Rosa Amorim, mulher negra, recebeu mais de 110 mil votos. Isso é um reflexo de que as periferias estão ocupando também o parlamento. Assim como reelegemos lideranças muito importantes da agricultura familiar, como, por exemplo, no Pará, a mulher mais votada do PT foi a deputada Gilvanda, que teve quase duzentos mil votos. E e o deputado Ayrton Faleiro, líder histórico do movimento sindical. O PT continua na periferia e continua ocupando e se fortalecendo no parlamento. Penso que nós temos muito o que fortalecer no PT no que diz respeito à nucleação, ao fortalecimento das periferias e à organização dos núcleos.
A importância crucial das redes sociais na disputa ideológica e na construção das narrativas está muito visível no processo eleitoral. Você acredita que elas podem também fortalecer a nucleação e organização do partido?
Penso que precisamos integrar todos os nossos mecanismos de articulação e comunicação. Eu costumo dizer que o PT nasceu para questionar o sistema. Nasceu no chão da fábrica, em um momento muito complicado e difícil da nossa história, que foi o processo de redemocratização do Brasil, quando a gente estava saindo da ditadura. Por isso nós precisamos continuar afirmando que nós somos o partido antissistema, porque nós, por natureza, nascemos para questionar o sistema. Nessa perspectiva, a disputa nas redes sociais fortalece muito o debate da nucleação. Não creio que as redes substituam as ruas, mas também não acho que as ruas sozinhas darão conta do debate e da organização do povo nos próximos períodos. Os núcleos de base, o fortalecimento das periferias, vão se dar no território, mas esse lugar também pode ser nas redes sociais. E esse é o nosso grande desafio. Como é que a gente dialoga no território, com a vida real das pessoas, tanto nas redes quanto nas ruas? Há pesquisas que mostram que as pessoas passam em média 9 horas por dia no whatsapp. Esse é um território que precisamos ocupar se a gente quiser fortalecer o o debate das periferias. A campanha no segundo turno está trazendo esse alinhamento. O PT sempre foi muito bom de rua, e a esquerda também. Mas nós precisamos agora também ocupar o campo das redes sociais. A campanha do segundo turno acertou ao trazer o protagonismo da juventude que fez a disputa nas redes, que ganhou as eleições. Eu acredito que nós vamos ganhar as eleições, porque nós vamos continuar nas ruas, onde nós somos muito bons, mas nós também vamos disputar as redes sociais a partir de agora.