
A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana trouxe um dado que chamou atenção no cenário paulista: em onze meses, a aprovação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) entre as mulheres caiu dez pontos percentuais, passando de 57% para 47%. No mesmo período, a avaliação masculina permaneceu praticamente estável, foi de 63% para 62%.
O levantamento também mostra que, embora o governador continue liderando as intenções de voto entre o eleitorado feminino, o desgaste na avaliação do governo acendeu um alerta sobre a relação da gestão estadual com essa fatia do eleitorado.
Violência contra mulheres avança em meio a falhas na execução orçamentária
A queda na aprovação entre as mulheres coincide com um cenário de agravamento de indicadores relacionados à violência de gênero e com questionamentos sobre a execução das políticas públicas voltadas às mulheres em São Paulo. Nos três primeiros meses de 2026, o estado registrou 86 feminicídios — alta de 41% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 72% na comparação com 2022, início da atual gestão. O período também registrou crescimento de 47% nos casos de lesão corporal dolosa contra mulheres e de 22% nos registros de estupro de vulnerável em relação a 2022. Além disso, as mortes decorrentes de intervenção policial aumentaram 8% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
Na área das políticas públicas, a execução orçamentária da Secretaria Estadual de Políticas para a Mulher também foi alvo de críticas. Levantamento da Folha de S.Paulo mostrou que, nos dois primeiros anos completos da pasta, apenas 53% do orçamento autorizado foi executado. Em 2024, o programa Enfrentamento à Violência contra a Mulher não teve nenhum recurso executado. Já em 2025, dos R$ 5 milhões previstos, apenas R$ 1,3 milhão foi empenhado, o equivalente a 26% da dotação.
Sobrecarga feminina amplia percepção de falhas do Estado
Para a presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM) no Estado de São Paulo, Claudia Rodrigues, no entanto, a queda na aprovação entre as mulheres reflete uma percepção crescente de que o governo estadual deixou de responder às demandas que mais afetam o cotidiano das mulheres.
“As mulheres percebem um certo descaso do governo com o Estado. Saúde, transporte, educação e segurança atingem toda a população, mas recaem primeiro sobre as mulheres, porque elas ainda concentram a responsabilidade pelo cuidado da família. São elas que acompanham os filhos, organizam a rotina da casa e sentem diariamente os efeitos da ausência de políticas públicas. Esse sentimento acaba pesando na forma como avaliam o governo”, afirma.
A dirigente argumenta que a sensação de insegurança vivida pelas mulheres vai além dos indicadores de violência doméstica. Ela também está presente na rotina de quem enfrenta transporte público lotado, utiliza aplicativos de mobilidade, depende dos serviços de saúde e precisa garantir diariamente a segurança dos filhos.
“O governador é o gestor do Estado. Quando o Estado deixa de responder às necessidades da população, esse desgaste chega primeiro às mulheres, porque elas são as que vivem mais intensamente os impactos da falta de políticas públicas”, acrescenta.
A avaliação de Claudia Rodrigues dialoga com uma série de indicadores que vêm marcando a gestão Tarcísio e que ultrapassam o recorte da pesquisa eleitoral.
Economia, transporte e educação ampliam desgaste
Nos últimos dias, o Portal Vermelho mostrou que São Paulo registrou o pior desempenho econômico dos últimos dez anos, segundo o Índice de Atividade Econômica Regional (IBCR), do Banco Central. O estado também atingiu o maior número de feminicídios desde o início da série histórica da Secretaria da Segurança Pública, além de manter em alta a letalidade policial pelo terceiro ano consecutivo.
Leia também: Sob Tarcísio, SP amarga pior desempenho econômico em 10 anos
Na área dos serviços públicos, a gestão também enfrentou desgaste após a privatização das linhas 11, 12 e 13 da CPTM. Poucos dias depois da transferência para a iniciativa privada, falhas operacionais e um incêndio em uma composição obrigaram o governo a devolver temporariamente a operação à CPTM. Ao mesmo tempo, medidas orçamentárias relacionadas à educação e à pesquisa motivaram críticas de universidades, entidades científicas e da oposição.
Apesar do desgaste, Tarcísio ainda lidera a disputa entre as mulheres, com 34% das intenções de voto, contra 28% de Fernando Haddad (PT). A vantagem eleitoral, porém, convive agora com um dado incômodo para o governador: em menos de um ano, dez pontos de sua aprovação entre as mulheres desapareceram. Para Claudia Rodrigues, a tendência é que temas como segurança, transporte, saúde e educação ganhem ainda mais peso no debate eleitoral. “As mulheres têm a percepção do que precisa ser melhorado para a sociedade. Vamos cumprir um papel importante de conscientização e de denúncia sobre o que é fundamental para o conjunto da população”, finaliza
O post Quaest: mulheres dão recado a Tarcísio; aprovação cai 10 pontos apareceu primeiro em Vermelho.