Flávio Bolsonaro é formalmente investigado desde 22 de julho por suspeitas de crimes relacionados ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A informação, mantida sob segredo judicial, tornou-se pública após uma sequência de decisões que abriu parte das investigações derivadas da Operação Compliance Zero.
Em 9 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu a retirada completa e urgente do sigilo do caso Master, “seja quem for, doa a quem doer”. Lula não decretou a medida, atribuição que cabe ao Judiciário, mas cobrou publicamente que todos os envolvidos fossem submetidos ao mesmo grau de transparência.
No dia 10, após solicitação do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, o ministro André Mendonça liberou o acesso à Petição 15.556 e a outros 14 procedimentos. A abertura foi ampliada no dia seguinte e alcançou 53 processos. Em 13 de setembro, Flávio Dino retirou o sigilo de material apreendido em outra investigação sobre Dark Horse. Nesta segunda-feira (14), Mendonça abriu a Petição 15.645, elevando para 54 o número de procedimentos ou linhas de apuração com publicidade autorizada.
Foi nesse conjunto de documentos que veio a público a condição de Flávio Bolsonaro como investigado. O senador e candidato do PL à Presidência foi incluído no Inquérito 5.070, aberto por determinação de André Mendonça a pedido da Polícia Federal e com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
A investigação apura a possível prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes correlatos. Os documentos também colocaram sob investigação a atuação de Eduardo Bolsonaro e registraram a participação do deputado federal Mário Frias no projeto.
Flávio nas tratativas com Vorcaro
A Polícia Federal afirma que Flávio Bolsonaro atuou como “interlocutor direto” de Daniel Vorcaro nas negociações e cobranças relacionadas aos aportes. As mensagens mostram que o senador acompanhava o cronograma de pagamentos e cobrava a liberação dos recursos.
Em 8 de setembro de 2025, Flávio enviou um áudio a Vorcaro demonstrando preocupação com compromissos assumidos pela produção com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Em 22 de outubro, voltou a cobrar o banqueiro e afirmou que a produção estava “no limite”.
No dia 16 de novembro, véspera da primeira prisão de Vorcaro, Flávio tentou telefonar para ele e enviou uma mensagem manifestando apoio e pedindo uma orientação. Os investigadores consideram que a sequência justifica o aprofundamento da apuração sobre a participação do senador no financiamento.
O fundo Havengate foi criado nos Estados Unidos em 2020 para realizar investimentos imobiliários. De acordo com a PF, permaneceu sem atividade pública registrada durante quase quatro anos. A primeira remessa vinculada ao filme, no valor de US$ 2 milhões, ocorreu em 13 de fevereiro de 2025.
A constatação contraria uma explicação apresentada anteriormente por Flávio. Em entrevista concedida em maio, o senador disse que o Havengate havia sido criado exclusivamente para o filme. O relatório policial registra que o fundo já existia, tinha finalidade imobiliária e foi reativado para receber as transferências.
O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado que presta serviços na área de imigração a Eduardo Bolsonaro. Flávio afirmou que o fundo foi escolhido por ser administrado por uma pessoa da confiança do irmão e negou que Eduardo tenha sido beneficiado. Uma manifestação da PGR incluída nos autos afirma, porém, que Eduardo orientou a gestão dos recursos nos Estados Unidos.
Mário Frias aparece em uma mensagem de dezembro de 2024 encaminhada a Vorcaro. No texto atribuído a Flávio, o deputado é identificado como idealizador do projeto e participante de uma reunião sobre o filme.
Flávio não negou a autenticidade dos áudios divulgados. Sua defesa afirma que buscar investidores privados para uma produção cinematográfica não constitui crime e sustenta que o dinheiro não foi destinado ao senador ou a Eduardo Bolsonaro.
Nesta segunda-feira (14), os advogados do candidato pediram ao STF a publicidade integral das investigações relacionadas a Dark Horse. A defesa classificou como “parcial e seletiva” a abertura determinada pelo ministro Flávio Dino e afirmou que ainda não teve acesso à totalidade dos autos.
O que a quebra do sigilo revelou
A abertura dos processos ocorreu de forma gradual. Em 9 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu publicamente a retirada completa do sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master. Lula defendeu que a medida alcançasse todos os envolvidos, “seja quem for, doa a quem doer”.
Lula solicitou a abertura dos autos, mas não tinha competência para decretá-la. As decisões cabiam aos ministros responsáveis pelos processos no Supremo.
Em 10 de setembro, após cobrança do presidente do STF, Edson Fachin, André Mendonça liberou o acesso à Petição 15.556 e a outros 14 procedimentos. No dia seguinte, o ministro ampliou a medida. Ao fim das duas etapas, 53 procedimentos derivados ou relacionados à Operação Compliance Zero haviam sido abertos.
Entre os documentos divulgados estavam peças do Inquérito 5.070 e da Petição 16.369. Foi esse material que revelou a condição de Flávio Bolsonaro como investigado formal no financiamento de Dark Horse.
Em 13 de setembro, Flávio Dino retirou o sigilo de material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em outra investigação sobre o filme. O ministro também determinou o envio à Polícia Federal dos dados brutos extraídos dos celulares dos investigados.
Nesta segunda-feira (14), Mendonça retirou o sigilo da Petição 15.645, que reúne informações sobre pagamentos atribuídos a Vorcaro e ao Banco Master. Com a decisão, chegou a 54 o número de procedimentos ou linhas de apuração que tiveram o segredo judicial afastado. O conjunto reúne inquéritos, petições e outros tipos de processo, e não representa 54 acusações criminais autônomas.
Parte das informações pode continuar protegida. A preservação alcança dados pessoais sem relação com os fatos, informações de terceiros e diligências cuja divulgação possa prejudicar a investigação.
A disputa sobre a publicidade dos processos ganhou força após Mendonça divulgar um relatório da PF com mensagens atribuídas a Vorcaro e enviadas a Alexandre de Moraes. O episódio abriu uma crise interna no STF. O plenário analisa nesta terça-feira (15) se autoriza a abertura de uma investigação sobre a relação entre Moraes e o ex-banqueiro. Esse julgamento não interfere na condição de Flávio Bolsonaro como investigado no Inquérito 5.070.
Os documentos mostram duas frentes distintas envolvendo Dark Horse. A investigação relatada por Mendonça trata do dinheiro atribuído ao grupo de Vorcaro, das remessas internacionais e da atuação de Flávio e Eduardo Bolsonaro.
A segunda frente, relatada por Dino, apura a suspeita de uso de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares. Essa investigação deu origem à Operação Make Up, deflagrada pela PF em 10 de setembro com 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal.
Relatórios da Controladoria-Geral da União identificaram possíveis irregularidades na aplicação de R$ 2 milhões em emendas destinadas por Mário Frias ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura. As entidades são ligadas à empresária Karina Gama, que também participa da produção de Dark Horse.
A Polícia Federal apontou indícios de que parte dos recursos públicos pode ter sido direcionada ao filme. A hipótese ainda está sob investigação e não se confunde com os US$ 12,3 milhões enviados ao Havengate nem com o contrato de US$ 24 milhões relacionado ao Banco Master.
Até o fechamento desta edição, a PGR não havia apresentado denúncia contra Flávio Bolsonaro e o inquérito permanecia em andamento. Eduardo Bolsonaro também figura como alvo da apuração. A PF ainda investiga a origem, o destino e os beneficiários finais dos recursos destinados a Dark Horse.