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‘Quirinas’ traz levantamento inédito sobre trabalhadoras domésticas na literatura brasileira

As políticas públicas que ampliaram a mobilidade social do país nas últimas décadas influenciaram a forma como as trabalhadoras domésticas são representadas na literatura brasileira. É o que demonstra Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Pangeia/EdUff, 2026), da pesquisadora e jornalista Mariana Filgueiras.

Em entrevista a Opera Mundi, a acadêmica afirma que, desde 2015, a literatura vive um momento de “revisão simbólica e estética”, resultante da ascensão social dos filhos dessas trabalhadoras, que passaram a contar as histórias de suas mães, avós e tias. “Há uma oxigenação na nossa literatura”, aponta.

Tese vencedora do Prêmio CAPES 2025, o livro mapeia 37 personagens de obras publicadas entre 1859 e 2024, mostrando que após um século de invisibilidade, a maior e mais precarizada categoria profissional do país finalmente está sendo representada com complexidade.

“Não é uma moda literária, nós estamos aprendendo a enxergar o Brasil na literatura de forma muito mais ampla”, afirma Filgueiras, convocando os leitores brasileiros a prestigiarem as obras de autoras brasileiras. “Elas estão descolonizando o nosso olhar”, afirma.

Realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orientação da professora Eurídice Figueiredo, o estudo mobiliza um repertório teórico feminista, anti-racista e contra-colonial, além de trazer um panorama histórico sobre a formação e transformações do trabalho doméstico no país.

O estudo, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES), está disponível gratuitamente no site da editora Pangeia. Trata-se de um poderoso guia de obras que trazem o povo brasileiro na literatura nacional. Acompanhe a entrevista.

Opera Mundi: Como começa sua busca pelas trabalhadoras domésticas na literatura brasileira?

Mariana Filgueiras: Um professor me disse, certa vez, que nós o tema de uma pesquisa deve ser escolhido a partir daquilo que nos incomoda no mundo. Você pode escolher a partir de uma paixão, mas pensando o que te incomoda dentro dessa paixão.

Por muitos anos, eu atuei como repórter de literatura e a grande maioria dos livros que tinha de resenhar tratavam de homens em conflitos existenciais. Livros maravilhosos até, mas eu sempre questionava onde estava o trabalhador, a revanche social, a mobilização popular.

No mestrado, eu trabalhei a paixão, estudando Lima Barreto e João Antônio, que tinham esse olhar sobre o povo e os que estão à margem. No doutorado, sob orientação da professora Eurídice Figueiredo (UFF), fui desafiada a enxergar o mundo sob a ótica da escrita de mulheres.

Lendo o feminismo e me entendendo como feminista, o meu incomodo era não conseguir abdicar do trabalho doméstico, tendo uma mulher negra realizando a limpeza da minha casa regularmente. A questão, obviamente, não é acabar com esse tipo de ofício, um trabalho digno, mas saber que ele precisa ser muito bem remunerado e ter todos os seus direitos previstos.

Eu quis enfrentar essa questão e fiz um resgate da história da minha família e, lá pela quinta geração, descobri que foi uma família escravocrata. Foi horrível confrontar este passado que é, também, a história do Brasil. Meus antepassados diretos são fruto dela.

Você relata no livro que a pesquisa começou durante a pandemia

O trabalho começou bem no início da pandemia, e a categoria das trabalhadoras domésticas foi uma das mais afetadas. Elas foram as primeiras a morrer, porque ficavam mais expostas e, inclusive, confinadas quando os patrões não as liberavam. Quando isso ocorria, eles simplesmente não as pagavam.

Essas mulheres, que estavam cruzando a cidade o tempo todo, foram entendidas como essenciais por alguns decretos estaduais; mas historicamente, elas nunca foram vistas como essenciais pelo Estado brasileiro. Os direitos trabalhistas das domésticas só foram regulamentados em 2015. Nem a CLT de Getúlio Vargas os previu. É como diz Sueli Carneiro, a partir dessas trabalhadoras, você consegue ver toda a desigualdade brasileira.

Em termos dramáticos, o que há de específico na representação das trabalhadoras domésticas?

A Patrícia Hill Collins, feminista norte-americana, afirma que a trabalhadora doméstica é uma personagem extremamente especial, porque transita entre dois mundos. Ela ouve os segredos da elite, depois pega o transporte e entra em outro universo. Dramaticamente, enxerga o que ninguém mais está vendo.

Apesar disso, os romances ignoraram esse potencial dramático na literatura brasileira. Como você ignora a potência dramática de uma personagem que representa a categoria mais precarizada no Brasil? As trabalhadoras domésticas são as que menos se aposentam e as que ganham menos. Em sua maioria, são mulheres negras e mães solos.

Há um desperdício imenso desse potencial dramático na literatura brasileira. Só se fala das “pessoas na sala de jantar”, como dizia Rita Lee. Claro que a literatura não é obrigada a nada, mas ela conta muito sobre o Brasil.

Ao pesquisar a representação dessas mulheres, você faz um inventário de várias obras e nos traz um verdadeiro guia. Como você elaborou esse recorte?

Eu mapeei romances e contos entre 1859 e 2024 para entender onde essas mulheres estavam na literatura. Eu imaginava que elas estariam invisibilizadas, afinal, somos um país racista e a literatura é muito elitista, mas somente durante a pesquisa eu tive a dimensão do quanto isso ocorre.

Durante um século, a regra foi apagar, objetificar, sexualizar e infantilizar as personagens que representavam essas trabalhadoras. No início do século, elas apareciam para evidenciar como a patroa era boa, limpa, correta e elegante, enquanto elas eram representadas como personagens sem modos, sem elegância, não limpas e doentes.

Outra regra era a infantilização. Essas personagens falam errado, não têm argumentos, são muito apaziguadoras, como a Tia Nastácia de Monteiro Lobato, que evoca o mito da “mãe preta”, a black nanny ou black mother, como chamam as feministas norte-americanas. Essas mulheres apaziguadoras apanham muito nos romances, levam pedradas na cabeça. Alguém pode argumentar, mas o autor está fazendo uma denúncia. Sim, mas quando essas mulheres só aparecem apanhando, sendo estupradas, infantilizadas, sem nome ou fala, esse padrão revela uma invisibilização estrutural.

Os escritores sequer consideravam que essas personagens pudessem render dramaticamente, com uma história, família, dramas, anseios, desejos. Isso avança no tempo. As peças do Nelson Rodrigues são muito emblemáticas. Embora questione a família burguesa, ele nunca teve interesse nessa questão. Não há grandes cenas com trabalhadoras domésticas. A maioria nem nome tem.

‘Quirinas’ traz levantamento inédito sobre trabalhadoras domésticas na literatura brasileira
Acervo Pessoal

Mesmo em Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado, é possível ver esse processo. Pouca gente recorda que ela era uma empregada doméstica, a imagem que fica é da cozinheira “de mão cheia”, uma mulher muito sensual que se casou com Nacib. Mas ele tinha vergonha de se casar com a faxineira da casa e Jorge Amado foi cirúrgico ao construir esse flagra.

A Joselia Aguiar, que escreveu a biografia de Jorge Amado, conta que ele estava preparando uma coletânea de contos do Lima Barreto enquanto escrevia Gabriela, no final dos anos 50. Entre os contos dessa coletânea está O Filho da Gabriela, sobre uma patroa sem filhos que começa a criar o filho da empregada como uma espécie de madrinha. Em dado momento, essa mãe precisa levar o menino para o médico, mas a patroa não deixa. Então, ela reage e a confronta. É uma cena muito original e rara porque, em geral, as trabalhadoras não revidavam. Joselia suspeita que Jorge tenha batizado o livro com o nome dessa personagem do Lima.

Há exceções ao longo desse período a este tipo de representação?

Sim. É o que faz a professora maranhense Maria Firmina dos Reis em Úrsula, romance de 1859, antes mesmo da Abolição. Ela dá voz à Suzana, uma mulher escravizada que relata a sua história. É uma exceção que uma mulher escravizada fale e mostre suas opiniões e sonhos.

No conto Babá, de 1904, Lima Barreto também conta o encontro entre um enfermeiro e uma senhora centenária, abandonada num hospital para morrer sozinha. Comovido com aquela presença, ele busca saber por que ela foi deixada ali, e então, conta sua história, a de seus antepassados e dos filhos que foram levados para trabalhar em outras fazendas, e que ela nunca mais viu.

A Clarice Lispector era muito interessada nessa questão. A Paixão Segundo o G.H. é sobre uma mulher da classe média alta que diante da ausência da trabalhadora doméstica, tenta entender o porquê dela ter ido embora, entrando em um fluxo de consciência. É a primeira vez que essa relação conflituosa aparece como dispositivo de um romance.

A própria Carolina de Jesus, que reivindicava a identidade de catadora de papel, começou a escrever seus primeiros poemas como trabalhadora doméstica. Ela inclusive foi demitida porque estava escrevendo em vez de cozinhar. De raiva, ao sair, deixou uma poesia escrita nos azulejos da casa da patroa. Carolina escreve sobre o trabalho doméstico impulsionada pela raiva e seus escritos vão inspirar Joana Evaristo a escrever, o que, por sua vez, motivará sua filha, Conceição Evaristo, a escrever, influenciando a escrita de Lília Guerra e por aí vai.

Em Becos da Memória, de 2026, a Conceição Evaristo irá problematizar um tema presente em muitos desses romances: o da empregada doméstica que rouba a joia do patrão e é acusada por isso. Mas, neste caso, a personagem tinha de fato roubado o broche e isso vira um conflito imenso para ela. É o mesmo episódio, mas tratado de outra forma.

O que acontece com essa representação depois da redemocratização?

Nas décadas de 1980 e 1990, as trabalhadoras domésticas passaram a ser trabalhadas sob a ótica do humor, mas sempre de forma depreciativa. Após a ditadura, lotar os teatros era difícil e o humor trazia plateia. É o período do teatro besteirol e elas entravam em cena no momento de rir das patroas, mas ainda assim era um riso sobre elas. Isso acabou migrando para a TV depois, quem não lembra da empregada Edileuza de Sai de Baixo?

Essa foi a forma como a sociedade começou a manejar e a entender essa personagem, ainda que nesse lugar do riso. Há também filmes e novelas em que a empregada ou tem essa tônica de humor ou aparece sexualizada. Era um padrão.

Isso mudou?

Eu gosto de dar o exemplo da novela Renascer. Na primeira versão, de 1992, a Inácia, empregada doméstica de José Inocêncio, só atendia o patrão, levava a toalha e surgia como uma espécie de governanta do herói da trama. No remake da novela, em 2024, isso muda. Ela tem família, filhos, conflitos e conta com cenas imensas.

Claro que tem aí uma pesquisa sobre o que o público quer ver, mas já revela uma mudança. Ninguém olharia Inácia apenas estendendo a cama do José Inocêncio porque não pega bem. Os autores foram obrigados a criar conflitos, problemas, contradições e histórias paralelas para essa personagem.

Importante salientar que essa é uma reivindicação que vem das mulheres e do movimento feminista negro. Nada foi dado. Isso é fruto de muita conquista, muita luta e muita grita.

Quando as trabalhadoras domésticas começam a ganhar espaço na literatura?

A partir de 2015 é possível ver uma mudança simbólica em muitos campos. A trabalhadora doméstica até então completamente invisibilizada na literatura, começa a aparecer como personagem e seus conflitos são trazidos para o centro da trama. Como protagonista tem menos de 10 anos, mas há um movimento.

Demorou muito, mas as editoras e os eventos literários estão atentos. A própria Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), que recebeu muitas queixas por não ter autores negros, fez uma reviravolta sob a curadoria da Josélia. Hoje, a literatura não é mais só composta de publicitários em crise existencial, nem só de herdeiros.

Nós precisamos muito ler mais essas histórias, conviver com elas, povoar e ampliar a nossa imaginação. Em 2015, nós tivemos o filme Que horas ela volta? aplaudido de pé nos cinemas, que foi uma revolução. Depois veio o clipe Boa Esperança do Emicida, onde os trabalhadores botam fogo nos patrões. Ele convocou para o elenco as amigas trabalhadoras domésticas da sua mãe, para que elas colocassem toda sua raiva na dramaturgia.

A que você atribui essas mudanças?

Em 2015, nós tivemos Lei do Feminicídio e Lei das Domésticas. A lei das cotas são de 2011, então já tinha um período de vigência. Foi a grande política pública que tivemos nos últimos anos com efeito claro de modulação da mobilidade social, acompanhada de políticas como Bolsa Família e Luz para Todos.

Isso tudo teve um efeito simbólico, porque os filhos dessas trabalhadoras entraram na universidade e estão escrevendo as histórias de suas mães, avós e tias. Não é que os autores estão mais benevolentes e a elite branca que escreve e publica está olhando o país com mais generosidade. Tem um pouco disso, mas não é isso.

O que está acontecendo é que os filhos, netos e sobrinhos de uma classe historicamente apartada começaram a questionar essa realidade. Em muitos romances nós lemos “dedico esse romance à minha avó que foi trabalhadora doméstica”, “à minha mãe”, “à história da minha família”. Estamos vivendo um momento de revisão simbólica e estética muito importante. As placas tectônicas se moveram entre 2011 e 2015, e a literatura brasileira reflete isso.

Quando as trabalhadoras domésticas começam a ganhar protagonismo?

Em 2015, começam a surgir as primeiras narradoras e algumas histórias já mais centralizadas e complexas, mas é a partir de 2018 que vemos sistematicamente trabalhadoras domésticas como protagonistas e o mais interessante, o trabalho doméstico vira um tema e passa a ser problematizado.

Há uma cena em Perifobia, de Lília Guerra, em que a faxineira revida a patroa, como Lima Barreto fazia lá trás. Ela diz “não vou trabalhar hoje, você está me explorando”. Isso acontece sem ser didático porque quando, do nada, a personagem vira heroína, ocorre aquilo que Hills Collins alerta sobre o controle, de que um estereótipo positivo é também um estereótipo. É preciso ter cuidado com o controle da imagem.

A Lilia é uma grande notícia da nossa literatura. Ela tem uma relação com a música e uma disposição muito contra-colonial, como diz Negro Bispo, de incorporar a oralidade na linguagem estrutural. Há um conto dela chamado O Dia de Graça sobre uma mulher que está fritando sardinha, ou seja, é o trabalho doméstico que faz parte da vida cotidiana, não representado de forma negativa.

Essa carpintaria do cotidiano era muito pouco mostrada, temos o poema clássico da Adélia Prado limpando um peixe, mas nos contos da Lilia, o trabalho doméstico entra de forma muito natural e orgânica. Não são romances que se passam em viagens à Europa olhando pela janela do trem, é o nosso dia a dia.

Ela retrata muito cenas de comunidades. Um dos contos traz a história de um banco que alguém construiu na frente de um varal público, usado por todos na comunidade. Se você colocar o lençol ali e não ficar vigiando, alguém pode pegar, então, a história é a personagem pensando sentada neste banco, enquanto espera o lençol secar. Ela nos convida a entrar no universo dessas personagens, em cenas originais, inesperadas e incomuns na literatura.

A maior parte desses romances são escritas por mulheres ou esse foi seu recorte?

A maior parte é escrito por mulheres, isso é científico. Nós estamos em uma fase de transição muito importante e vem surgindo personagens cada vez mais complexas. Além disso, as séries de TV já estão começando a comprar os direitos desses romances. É um movimento, como afirma [a escritora] Cidinha Silva, que não tem mais volta. Não é uma moda literária, nós estamos aprendendo a enxergar o Brasil na literatura de forma muito mais ampla. É um convite a novas cenas, novas personagens. Uma oxigenação na nossa literatura.

Você citou Perifobia, da Lilia, eu gostaria que você trouxesse aqui outros romances contemporâneos para os leitores de Opera Mundi.

Eu analiso mais detalhadamente quatro romances, o Perifobia, da Lilia Guerra, Solitária, da Eliana Neves Cruz, Com Armas Sonolentas, da Carola Svedra, e Sweet Talk da Giovana Madalós.

Em Solitária, o quarto da empregada fala. Ele é personificado e tem voz. O livro traz a história de uma mãe trabalhadora doméstica e sua filha, muito próximo à situação de Que Horas Ela Volta?. Essa filha questiona o trabalho da mãe e a estimula a ser mais altiva. Aí as pessoas dizem, “ah, é realismo mágico”. Não, não é.

Sweet Talk conta a história de uma babá que rapta o filho da patroa e sai viajando de ônibus pelo Brasil, é um road book. O interessante é que as duas estão dando seu ponto de vista de maneira paralela no romance. Não é o ponto de vista só da patroa, como seria antigamente.

Já em Com Armas Sonolentas, há uma capivara que aconselha a personagem que é trabalhadora doméstica. Também, não é realismo fantástico, porque a ancestralidade é importante para a personagem, conversar com entes mortos é parte da sua cosmovisão.

É um olhar contra-colonial que o Nego Bispo traz. Em vez de dizer “ah, realismo mágico”, como as críticas mais imediatas, é preciso entender que no pensamento contracolonial, a natureza é personagem na dramaturgia. Essa é a visão indígena, quilombola. O Aílton Krenak fala o tempo todo que a natureza é tão importante quanto os humanos.

Você citou o Nego Bispo, eu queria que você trouxesse essas referências teóricas que você usou na análise desses livros.

Eu não poderia analisar esses romances que estão trazendo tantas novidades, com os mesmos olhos de uma crítica literária tradicional, antiga e eurocentrada. Também não tenho como colocar outros olhos em mim, que sou uma mulher branca e trago muitas referências eurocentradas, mas posso colocar novos óculos, digamos assim.

Os óculos que uso para ler esses livros são os da crítica feminista, conceito muito trabalhado pela minha orientadora, Eurídice Figueiredo, que consiste em analisar uma obra questionando, por exemplo, como o corpo dessa mulher está apresentado na narrativa. E não é apenas se ela está sendo objetificada ou sexualidade, mas se os dilemas femininos estão presentes no texto. Fala-se sobre menstruação, herpes, amamentação, assédio sexual, em suma, dilemas que o corpo feminino sofre no mundo? Essas questões estão minimamente trabalhadas ou se não estão, isso faz falta? Isso coloca a narrativa para andar?

Outra coisa é a linguagem falocêntrica, ou seja, com personagens masculinos muito bem descritos, enquanto as personagens femininas são estereotipadas. Há também casos em que a mulher sempre termina morta, assassinada, encarcerada. Como é o final dela? Ela dá um jeito ou não? Ou o fato dela ser subjugada, humilhada, violentada é mais um romance sobre isso ou um motor para a denúncia?

A crítica literária feminista nos convida a olhar os romances de outra forma. Não é só se o tempo é cronológico, psicológico, qual o ponto de vista do narrador, como a personagem foi construída, ferramentas básicas e maravilhosas da crítica literária. É necessário ir além e é isso que a crítica feminista permite. Ela nos convoca a não aceitar o mundo como ele é.

Como você avalia o impacto desse novo olhar para a literatura?

Pode parecer uma grande lista de cobrança, mas não é. Na realidade, é uma grande lista de janelas que podemos abrir para os romances. Essa crítica torna a leitura mais rica, mais convidativa e mais sensorial também.

Eu tento fazer uma crítica literária feminista, decolonial, antirracista e anticapitalista. Sou professora de universidade pública e te garanto que nós passamos a ser muito mais questionados pelos alunos. Eles não aceitam mais ementas eurocentradas e brancas. Esse é o nosso dever. Guerreiro Ramos fala muito que o racismo é um problema dos brancos. Isso precisa ser mudado a partir de nós. Nós precisamos olhar essa prática.

A capa do Quirinas, por exemplo, é da Manuela Navas, uma artista visual maravilhosa que sempre pinta as mulheres negras em situação de alívio, relaxamento, dançando e sendo felizes. Eu quis muito trazer essa mulher olhando o horizonte na capa.

As pessoas precisam ler mais as autoras brasileiras. Há também muitos filmes, como “Aqui não entra luz” da Carol Maia, que está em cartaz. Elas estão descolonizando o nosso olhar de forma sistemática. Precisamos fugir dos estereótipos e mudar o nosso olhar, em especial, sobre as trabalhadoras domésticas.

O download do livro Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia/EdUff) está disponível neste link.

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