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R$ 134 milhões negociados por Flávio com Vorcaro dariam para bancar creches, UBS e moradias; veja outros exemplos

Não foram apenas os profissionais da indústria do cinema que se surpreenderam com o valor negociado por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro. O montante de R$ 134 milhões, citado nas reportagens sobre as tratativas, tornou-se símbolo do tamanho da operação envolvendo o senador, o banqueiro e a produção de Dark Horse, cinebiografia sobre a trajetória política do ex-presidente. 

Logo após a divulgação dos áudios, sites especializados e perfis de cinema passaram a comparar o orçamento atribuído ao filme com produções recentes premiadas internacionalmente. A comparação chamou atenção: nenhum dos últimos vencedores do Oscar de melhor filme chegou perto do valor apontado nas negociações para bancar a produção sobre Bolsonaro.

A repercussão, no entanto, não ficou restrita ao mundo do cinema. Nas redes sociais, páginas de diferentes áreas passaram a dimensionar o valor em termos mais concretos, comparando os R$ 134 milhões com políticas públicas, obras, equipamentos de saúde, escolas e moradias. A Revista Focus Brasil fez sua própria lista, tomando como referência investimentos anunciados pelo governo Lula em áreas como educação, saúde e habitação.

Mais problemas no caminho de Dark Horse

O filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro com foco na eleição de 2018 e no episódio da facada, acumula controvérsias políticas, suspeitas financeiras e denúncias trabalhistas. Reportagens apontam que Flávio Bolsonaro buscou apoio financeiro junto a Daniel Vorcaro, preso em meio a investigações relacionadas ao Banco Master. Segundo a AP, o senador negou irregularidades e afirmou se tratar de uma iniciativa privada para buscar patrocínio. 

As reportagens também indicam que o patrocínio contratado chegaria a R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido pagos. A divulgação dos áudios motivou uma ofensiva jurídica com ao menos 20 pedidos de investigação, segundo a CNN Brasil. 

Além das suspeitas sobre a origem e o destino dos recursos, a produção também foi alvo de denúncias feitas por trabalhadores brasileiros que participaram das gravações. Relatório do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo, o Sated-SP, cita queixas sobre alimentação de má qualidade ou estragada, atrasos no pagamento de cachês, revistas invasivas e restrições de acesso ao banheiro. 

Abaixo, confira o que poderia ser feito com R$ 134 milhões:

Educação

Creches do Novo PAC

O governo federal anunciou, pelo Novo PAC Seleções, investimento de R$ 4,1 bilhões para a construção de 1.178 creches e escolas de educação infantil em todo o país. Pela média do programa, cada unidade fica em torno de R$ 3,48 milhões. Com R$ 134 milhões, seria possível construir aproximadamente 38 creches ou escolas de educação infantil. 

Escolas de tempo integral

O MEC informou que o Novo PAC Seleções prevê 685 novas escolas de tempo integral, dentro de um pacote de investimentos de R$ 10,7 bilhões que também inclui creches, escolas de educação infantil e ônibus escolares. Considerando a referência apresentada pelo governo para a expansão da rede, os R$ 134 milhões negociados por Flávio Bolsonaro equivaleriam a dezenas de equipamentos educacionais públicos. 

Novos campi de Institutos Federais

O Novo PAC destinou R$ 2,7 bilhões para a construção de mais de 100 novos campi de Institutos Federais. Pela média aproximada de R$ 27 milhões por unidade, R$ 134 milhões seriam suficientes para financiar cerca de cinco novos campi federais.

Saúde

Unidades Básicas de Saúde

As Unidades Básicas de Saúde são a porta de entrada do SUS e oferecem atendimento primário, prevenção, diagnóstico e acompanhamento da população. Considerando a faixa de valores usada como referência para novas UBS, entre R$ 1,8 milhão e R$ 6,6 milhões, os R$ 134 milhões equivaleriam a cerca de 20 a 74 novas unidades em municípios brasileiros. 

Centros Especializados em Reabilitação

Centros Especializados em Reabilitação do SUS, voltados ao atendimento de pessoas com deficiência física, auditiva, intelectual, visual ou múltipla, têm custo médio estimado entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões. Nessa referência, R$ 134 milhões poderiam financiar aproximadamente 17 a 19 centros especializados.

Hospitais regionais e ampliações de rede

O valor também seria suficiente para bancar obras de ampliação, reforma ou implantação de unidades regionais de saúde de médio porte, especialmente maternidades, centros de atendimento especializado e estruturas hospitalares em municípios que dependem de repasses federais para ampliar a rede pública.

Habitação

Minha Casa, Minha Vida

Na habitação, a comparação também ajuda a dimensionar o valor. Dependendo da região, do padrão das unidades e da modalidade do programa, R$ 134 milhões poderiam financiar centenas de moradias populares. No caso do Minha Casa, Minha Vida Cidades, em que o aporte pode chegar a R$ 55 mil por família na Faixa 1, o mesmo valor poderia beneficiar até 2.436 famílias com apoio para acesso à casa própria. 

A cifra negociada para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, portanto, não impressiona apenas pelo tamanho do orçamento. Ela chama atenção pelo contraste. Enquanto o país discute investimentos públicos para ampliar creches, escolas, UBS, centros de reabilitação e moradias populares, R$ 134 milhões aparecem associados a uma operação privada, politicamente interessada e agora cercada por suspeitas, denúncias e pedidos de investigação.