
A Bolívia se aproxima das eleições gerais marcadas para o próximo dia 17 de agosto em meio a um cenário de fragmentação política no campo progressista e avanço eleitoral da direita.
Pela primeira vez desde 2005, as principais candidaturas presidenciais não estão vinculadas ao Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governou o país por quase duas décadas sob a liderança de Evo Morales e, posteriormente, de Luis Arce.
Com a esquerda dividida e sem um nome consensual, três figuras tradicionais da direita — todas derrotadas por Evo em disputas passadas — lideram as pesquisas de intenção de voto e alimentam expectativas de retorno ao poder pela via das urnas.
Os levantamentos mais recentes apontam o empresário liberal Samuel Doria Medina na dianteira, seguido de perto pelo democrata-cristão Jorge “Tuto” Quiroga e pelo ex-prefeito de Cochabamba Manfred Reyes Villa, nome identificado com a extrema direita boliviana.
Juntos, somam mais de 50% das intenções de voto, o que indica a possibilidade concreta de vitória ainda no primeiro turno, ou de um segundo turno inédito na Bolívia contemporânea.
Enquanto isso, os candidatos vinculados à esquerda — entre eles o senador Andrónico Rodríguez e o ministro Eduardo del Castillo — aparecem distantes na corrida eleitoral, reflexo de um processo de desgaste interno e disputa de lideranças que hoje ameaça não apenas a hegemonia do MAS, mas também a continuidade de um projeto político iniciado em 2006 com a ascensão do Estado Plurinacional.
Um MAS dividido entre três caminhos
A crise no campo progressista boliviano é marcada, sobretudo, pela fragmentação interna do MAS, que chega às eleições com três polos distintos em rota de colisão.
Fora da disputa por decisão do Tribunal Constitucional, o ex-presidente Evo Morales optou por não apoiar nenhuma candidatura e lançou uma campanha nacional pelo voto nulo. Em comícios e atos públicos, seus apoiadores têm repetido que, sem Evo na cédula, “ninguém os representa”.
Casas de campanha pelo voto nulo foram abertas em cidades como Santa Cruz, sob liderança de parlamentares do próprio MAS ainda leais a Morales. A mobilização se dá sob o discurso de resistência, mas tem como efeito colateral o esvaziamento das candidaturas de esquerda habilitadas.
Por outro lado, o presidente Luis Arce decidiu não disputar a reeleição e indicou como sucessor seu ministro de Governo, Eduardo del Castillo, cuja candidatura oficial pelo MAS não decolou.
Com menos de 2% nas pesquisas e rejeição por parte de movimentos sociais da base histórica do partido, Del Castillo enfrenta dificuldade em consolidar qualquer espaço de liderança. A baixa avaliação do governo Arce, agravada pela crise econômica e pelos impasses com a ala evista, também comprometeu a viabilidade eleitoral do seu escolhido.
A terceira via no interior do campo progressista é representada por Andrónico Rodríguez, ex-presidente do Senado e ex-aliado de Evo, que rompeu com o MAS e lançou candidatura por outra sigla.
Tentando se colocar como alternativa ao desgaste tanto de Arce quanto de Morales, Andrónico adotou um discurso crítico às duas lideranças e firmou aliança com setores dissidentes.
No entanto, seu isolamento político — criticado pelo governo e atacado por Evo — tem dificultado sua consolidação. As pesquisas refletem esse impasse: o candidato que chegou a liderar os levantamentos no primeiro semestre agora aparece em quarto lugar, com intenções de voto abaixo de 10%.
Evo fora da urna, mas no centro do embate político
Mesmo impedido de disputar a presidência, Evo Morales permanece como figura incontornável do processo eleitoral boliviano. Após a decisão da Justiça, o ex-presidente intensificou a retórica de confronto, denunciando perseguição política e afirmando que a exclusão visa desmontar o projeto plurinacional iniciado em 2006.
Sem reconhecer outros nomes do campo progressista como legítimos representantes, Evo passou a pregar abertamente o voto nulo e a deslegitimar tanto a candidatura oficial do MAS quanto a dissidência liderada por Andrónico Rodríguez.
A campanha pelo voto nulo ganhou corpo em setores organizados do evismo. Deputados, dirigentes de movimentos sociais e bases sindicais leais a Morales organizaram comitês regionais, imprimiram faixas e slogans e convocaram manifestações em defesa do que chamam de “voto de resistência”.
Nas palavras do deputado Anyelo Céspedes, “se Evo não está na cédula, nosso voto será nulo”. As ações ocorrem em paralelo a uma ofensiva discursiva contra os antigos aliados, incluindo acusações públicas de traição e distorção do legado político do ex-presidente.
O presidente Luis Arce reagiu com críticas ao movimento, alertando que o voto nulo, ao não ser contabilizado como válido, pode favorecer diretamente os candidatos da direita.
Em discursos recentes, Arce chamou a iniciativa de “ambição pessoal e egocêntrica” e afirmou que essa orientação mina as chances do campo popular. A avaliação é compartilhada por setores da sociedade civil que veem na desunião progressista o principal obstáculo à contenção do avanço conservador.
Direita retoma protagonismo com antigos adversários de Evo
Enquanto a esquerda boliviana se mostra fragmentada e sem capacidade de articulação nacional, os principais nomes da direita avançam de forma consistente nas pesquisas eleitorais.
O atual cenário é liderado por três figuras com trajetórias conhecidas do eleitorado — e todas elas foram derrotadas por Evo Morales nas eleições de 2005, 2009 e 2014. Agora, com o ex-presidente fora da disputa e sem um herdeiro viável, esses antigos adversários voltam à cena com força renovada.
O empresário Samuel Doria Medina, que aparece à frente nas intenções de voto, construiu sua trajetória no setor privado e tem vínculos com a era das privatizações dos anos 1990, quando foi ministro de Planejamento no governo de Jorge Paz Zamora.
Dono da Bolivian Foods e acionista majoritário da empresa de cimento SOBOCE, Medina representa a ala liberal e tecnocrática da direita boliviana. Em 2014, chegou a conquistar 24% dos votos contra Evo, ficando em segundo lugar.
Hoje, lidera a coligação Alianza Unidad e apresenta um discurso voltado à reabertura da economia ao mercado global, com promessas de ajuste fiscal e redução do papel do Estado.
Logo atrás dele nas pesquisas está o ex-presidente interino Jorge “Tuto” Quiroga, nome histórico da direita democrata-cristã. Vice de Hugo Banzer entre 1997 e 2001, Quiroga assumiu a presidência após a renúncia do titular e representou uma das últimas expressões do antigo regime político boliviano antes da vitória de Evo.
Com forte inserção em setores empresariais e apoio de elites regionais, Quiroga defende a revisão de políticas públicas implementadas na última década, especialmente no campo da justiça e das relações exteriores. Candidato pela coligação Libertad y Democracia, tem centrado seu discurso em propostas de segurança, livre mercado e recomposição do sistema institucional.
O terceiro nome é o do ex-prefeito de Cochabamba, Manfred Reyes Villa, rosto mais visível da extrema direita boliviana. Com passado militar e trajetória política marcada por confrontos com movimentos sociais durante a década de 2000, Reyes Villa representa setores conservadores radicais, com forte apoio na cidade de Santa Cruz.
Sua candidatura, pelo partido Autonomía para Bolivia, tem menos peso eleitoral que os dois primeiros colocados, mas segue mobilizando uma base fiel e ruidosa.
Juntos, Doria Medina, Quiroga e Reyes Villa somam mais de 50% das intenções de voto nas pesquisas mais recentes. Caso esse cenário se mantenha, a direita poderá retornar ao poder pela via democrática após duas décadas, encerrando o ciclo iniciado com a vitória de Morales em 2005.
O paradoxo é evidente: são os mesmos nomes derrotados em diferentes momentos da história recente do país que agora se apresentam como alternativa viável diante do esfacelamento do bloco progressista.
O que está em jogo: o futuro do Estado Plurinacional
Mais do que uma troca de nomes no Executivo, a eleição presidencial de 2025 coloca em questão a continuidade — ou a ruptura — de um projeto político e institucional que moldou a Bolívia nas últimas duas décadas.
A Constituição de 2009, aprovada durante o segundo mandato de Evo Morales, instituiu o Estado Plurinacional da Bolívia, reconhecendo a diversidade indígena, linguística e territorial do país.
Foi a consolidação legal de um ciclo iniciado em 2006, que ampliou direitos sociais, redefiniu a relação com os recursos naturais e deu protagonismo a setores historicamente marginalizados.
Agora, pela primeira vez desde então, há a possibilidade de que um presidente não comprometido com a construção desse modelo assuma o poder.
Nenhum dos principais candidatos da direita participou da formulação do Estado Plurinacional — e alguns deles expressaram, no passado, críticas abertas a esse arranjo constitucional.
A eleição de um desses nomes, portanto, pode representar um ponto de inflexão institucional, mesmo que mudanças constitucionais profundas dependam de maiorias parlamentares que hoje não estão garantidas.
Analistas apontam que o risco imediato não é o desmonte da Constituição de 2009, mas sim a adoção de um governo com visão distinta sobre o papel do Estado, os direitos coletivos e a soberania indígena.
A partir desse novo eixo, reformas graduais poderiam ser promovidas por dentro das instituições, esvaziando o sentido político do Estado Plurinacional sem necessariamente revogá-lo.
Como observou o professor Clayton Mendonça Cunha Filho, da Universidade Federal do Ceará, esta será “a primeira vez que um presidente eleito sob esse novo modelo de Estado não terá participado de sua construção”. Para ele, o próximo ciclo pode resultar tanto em uma reconfiguração do pacto nacional boliviano, quanto, no melhor dos cenários, em sua consolidação para além de um único partido ou liderança.
Entre o personalismo em declínio e as alternativas à esquerda ainda sem enraizamento nacional, o campo progressista entra na reta final das eleições com dificuldades evidentes para sustentar o projeto que marcou a política boliviana desde 2006. A disputa de 2025, assim, pode não apenas redefinir o comando do país — mas testar a resiliência de um modelo que se pretendia duradouro.
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