
O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, um dos principais nomes da imprensa alternativa no Brasil, faleceu na manhã deste sábado (2/5), aos 85 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado desde quinta-feira (30/4) e não resistiu às complicações de uma pneumonia. O corpo será cremado ainda nesta tarde.
Com sua morte, encerra-se uma trajetória que atravessa seis décadas de jornalismo, sempre em tensão com o poder e invariavelmente fora dos trilhos da grande mídia. Não por acaso, sua biografia, escrita em 2013 por Júlia Rabahie e Rafael Faustino, recebeu o título ContraCorrente – A História de Raimundo Rodrigues Pereira.
“Das figuras que conheci e com quem convivi, nenhuma reunia simultaneamente doses tão imensas de inteligência, espírito empreendedor e resiliência quanto Raimundo Pereira”, afirma Walter Sorrentino, presidente da Fundação Maurício Grabois, ligada ao PCdoB. “Raimundo pôs tudo isso a serviço do pensamento da esquerda progressista, nacional e democrática, de modo militante.”
Segundo o dirigente, “o jornalismo independente foi sua vida, seu partido político e sua paixão. Com sua obra em Realidade, Opinião, Movimento e Retratos do Brasil, ele foi protagonista em todos os acontecimentos marcantes do país por mais de 50 anos. Foi, sem dúvida, um dos maiores jornalistas da história brasileira”.
Infância e ITA
Raimundo nasceu em 8 de setembro de 1940, em Exu (PE) – a mesma cidade natal do “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga. Mas sua ligação com o Nordeste durou pouco. Em 1942, o pai, Joaquim, mascate de profissão, e a mãe, Lindanora, pegaram os filhos e partiram rumo ao interior de São Paulo, em busca de terras mais fartas. A família – incluindo a ama de leite Maria Pedro, que amamentou e ajudou a criar Raimundo – passou por Córrego dos Macacos e Monte Serrat antes de se fixar em Pacaembu, a Cidade Paraíso.
Foi em Pacaembu que Raimundo, apelidado de “Lorinho”, cresceu dividido entre a escola (onde tirava dez em matemática) e o futebol, sua “coisa incrível”, como ele mesmo definia. Na mesma cidade, descobriu o gosto pela comunicação, narrando, aos 12 anos, jogos do time infantil pelo sistema de alto-falantes da cidade.
Aos 19, passou no vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), em São José dos Campos. Foi lá que o “Lorinho” comportado deu lugar a “Dana Key”, apelido inspirado no comediante norte-americano Danny Kaye. Raimundo fazia teatro de rua e escrevia artigos subversivos no jornal estudantil O Suplemento. Numa edição, simulou uma emenda constitucional propondo a extinção das Forças Armadas.
No ITA, Raimundo foi eleito para o Centro Acadêmico Santos Dumont e ajudou a articular a tentativa de filiação da escola à UNE (União Nacional dos Estudantes). Seus amigos da época, como Gilcio Martins e Ezequiel Dias, lembravam que o rapaz de pernas tortas e “jeito muito brincalhão” estava sempre dominando a cena.
O golpe militar de 1964 interrompeu seus planos. Em 8 de abril, Raimundo foi tirado da sala de aula, levado ao Dops em São Paulo e submetido a uma sessão de tortura psicológica. “Chegaram até a anunciar no jornal do sindicato que eu estava largando o jornalismo para fazer política”, contou Raimundo numa entrevista. Com a expulsão, deixaria o ITA para sempre, sem o diploma de engenheiro.
Na grande imprensa
A vida deu uma guinada. Em 1965, ainda se recuperando do trauma, Raimundo entrou na USP. Mudando de área, formou-se em Física e trabalhou como redator de revistas técnicas. Em 1968, foi chamado por Mino Carta para ser editor de Ciências da recém-lançada revista Veja.
Quando a publicação amargava baixas vendagens, usou sua formação científica para produzir uma série de reportagens sobre a corrida espacial. O homem chegou à Lua e ajudou a impulsionar a circulação da revista. O jornalista descrevia o lançamento do foguete Saturno V como uma aventura: “O Saturno V tremeu, amarrado ao solo por imensas braçadeiras que agarravam suas 3.000 toneladas, seus 121 metros de altura”.
No auge do prestígio, comandou a histórica edição especial “Amazônia” da revista Realidade, que lhe rendeu o Prêmio Esso em 1971. Mas algo o incomodava: a grande imprensa havia se acomodado à ditadura. Conforme escreveu mais tarde, na edição zero do jornal Movimento, as grandes empresas jornalísticas estavam “aferradas a grandes interesses econômicos”.
Era hora de fazer um jornal sem patrão. Ou melhor, de romper com a lógica da grande imprensa e mergulhar no que viria a ser sua marca definitiva: o jornalismo independente, crítico e militante. Raimundo queria ser dono do próprio instrumento de trabalho. A partir dos anos 1970, ele passa a criar praticamente todos os projetos em que atua, financiando-os com enorme dificuldade, mas preservando autonomia editorial.
Opinião e Movimento
Raimundo desconfiava da homogeneização da grande mídia e via no jornalismo uma ferramenta de interpretação da realidade a serviço da sociedade, especialmente dos trabalhadores. Essa escolha teve custos: projetos interrompidos, circulação irregular e dificuldades financeiras constantes. Mas também produziu um legado singular: uma obra vasta, construída fora das estruturas tradicionais.
É como lembrou o jornalista Carlos Azevedo, ao comentar sua trajetória: “São montanhas de textos, jornais, livros, revistas que ele produziu ou comandou. Inacreditável como, além disso, autofinanciou seus projetos durante toda a jornada. Sempre na contracorrente, sempre vitorioso!”
Em 1972, Raimundo aceitou o convite do empresário Fernando Gasparian para dirigir o recém-lançado semanário Opinião. O jornal rapidamente se tornou um fenômeno, vendendo 38 mil exemplares e servindo de tribuna para nomes como Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado e Chico Buarque.
A relação com o patrão era tensa. Raimundo, de bermuda, enfrentava Gasparian, de terno. A gota d’água veio quando Gasparian se aliou à abertura política do governo Ernesto Geisel, e a redação, não. Em 1975, o jornalista foi demitido.
Sua resposta foi imediata: ao lado de parte da equipe, fundou Movimento, o “jornal dos jornalistas”. Financiado por cotas e apoiado por uma rede de colaboradores que ia do seringueiro Chico Mendes ao sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, o jornal se tornou uma das mais importantes trincheiras da imprensa de oposição.
O preço foi alto. Movimento foi censurado desde o primeiro número. Depois que a censura prévia caiu, em 1978, bancas de jornal foram incendiadas para impedir sua circulação. Raimundo reagia com denúncias e processos, além de uma cobertura incansável das greves do ABC, que ele próprio reportava de dentro das fábricas, burlando a proibição. Sua máxima era simples: “informar para conscientizar”.
A vida pessoal
Nem tudo, porém, era política. Contracorrente dedica um capítulo inteiro a um dos episódios mais dramáticos da vida de Raimundo: o relacionamento de sua irmã, Leonora, com Sérgio Paranhos Fleury, o delegado do Dops conhecido como um dos torturadores mais temidos do regime. Raimundo rompeu com a irmã quando soube do caso – e só voltou a vê-la no leito de morte dela, em 2002.
O livro também revela facetas bem-humoradas. Raimundo, que durante a ditadura dormia sobre uma mesa de trabalho com uma folha de papel no rosto (furada para respirar), também era um pai presente que ensinava as quatro filhas a separar fato de interpretação nas notícias. As meninas retribuíam com um jornal feito a mão, O Olhudo, que o pai relia orgulhoso.
Com a redemocratização, Raimundo tentou emplacar um jornal diário, Retrato do Brasil. Fracassou em três meses. “São tentativas desesperadas”, disse Mino Carta, fundador da Veja e parceiro de longa data de Raimundo, em depoimento ao livro. Para Carta, o jornal diário “é um absorvedor de dinheiro, uma coisa infernal”.
Mesmo assim, Raimundo não desistiu. Em 1997, fundou a Editora Manifesto e, nos anos seguintes, lançou a revista Reportagem e a segunda versão de Retrato do Brasil, sobrevivendo com contratos de publicidade de empresas estatais e a ajuda de amigos. Cobriu o mensalão – e sustentou a tese de que o julgamento foi parcial. Defendeu Daniel Dantas contra o que considerava uma “conspiração da mídia”, o que lhe rendeu uma ruptura dolorosa com Mino Carta.
“A ditadura que nós vivemos de 1964 a 1985 era simples de ver. A ditadura sob a qual nós vivemos hoje, na imprensa, que é a ditadura do grande capital, é difícil de ver”, declarou Raimundo ao receber o Prêmio Especial Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 2013.
Relação com o PCdoB
Raimundo nunca se filiou a nenhum partido, apesar de ter ensaiado uma entrada no PCdoB no início dos anos 1990. Questionado certa vez pelo ex-ministro José Dirceu se tinha interesse em aderir a alguma legenda, respondeu com bom humor: “Todo mundo fala que eu sou do PCdoB, mas eu não gozo das vantagens de ser do PCdoB. Preciso resolver esse grande problema”.
Esteve sempre por perto, ajudando campanhas e formulando ideias. Raimundo apoiou inúmeras candidaturas comunistas, como as de Benedito Cintra, Jamil Murad e Orlando Silva. Em 1976, criou o slogan da campanha a vereador de Cintra, uma jovem liderança da região da Freguesia do Ó: “Sem direitos, sem feijão, é hora de oposição.” A frase sintetiza meio século de trabalho: olho na carestia, olho na liberdade, sem nunca perder o senso de oportunidade.
“O Raimundo Pereira morou por muito tempo na Freguesia do Ó e teve uma relação profícua com os movimentos políticos e sociais da região. Contribuiu muito com a luta democrática e popular de resistência à ditadura”, lembra Nivaldo Santana, secretário Sindical do PCdoB, que conheceu Raimundo na década de 1970.
“O jornal Movimento era distribuído em larga escala entre a militância. Além do jornal, vale destacar que um importante colaborador do semanário, Duarte Pereira, realizava cursos de formação marxista e deu valiosa contribuição para forjar uma legião de quadros políticos na região”, agrega Nivaldo.
Legado
Raimundo Rodrigues Pereira deixa quatro filhas, quatro netos e uma obra espalhada por dezenas de publicações, que compõem um dos retratos mais completos do Brasil da segunda metade do século 20. Fica a pergunta que ele próprio cultivava: o que leva um físico, expulso do ITA e prestes a se tornar uma estrela da grande imprensa, a largar tudo para fazer jornalismo de oposição “passando o chapéu”?
Para Raimundo, “jornalismo não é tecnologia”. A seu ver, a imprensa popular se faz “sem medo da verdade e sem omitir fatos relevantes”. Ele desenvolveu um método próprio, quase científico, de tratar a informação com precisão e desconfiança em relação aos enquadramentos dominantes. Carregou ao longo da vida o reconhecimento – inclusive de adversários – de ser “um dos mais competentes jornalistas brasileiros em toda a história”.
Mais do que seus textos, Raimundo deixa uma escola prática. Quem trabalhou com ele aprendeu um modo de fazer jornalismo. Vida e profissão se misturaram a ponto de se tornarem indistinguíveis. Ele pertence a uma geração que enfrentou a ditadura com papel, tinta e coragem, mas seu legado não se limita àquele período: atravessa a redemocratização e chega ao século 21 insistindo no jornalismo como ferramenta de compreensão do mundo.
Raimundo se foi. Mas o jornalismo que ele praticou – rigoroso, independente e desconfiado do poder – segue como necessidade. Em tempos de velocidade e superficialidade, talvez mais do que nunca.
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