Profissionais de saúde com adoecimento mental, esgotados devido à alta carga emocional exigida no trabalho; a necessidade de fortalecimento da atenção básica; a educação sobre saúde para a população; o dimensionamento de profissionais de saúde e o aumento de leitos de retaguarda; além do aumento da rotatividade de leitos hospitalares, o melhor financiamento da saúde e a antecipação da Operação Inverno.
Esses são os diagnósticos do trabalho intitulado “Raio-X da Saúde: A realidade de quem está na linha de frente nas emergências de Porto Alegre”, elaborado pelo vereador Alexandre Bublitz (PT) e apresentado na noite de quarta-feira (9) na Câmara. A pesquisa visitou nove serviços de saúde da Capital e entrevistou 64 profissionais e gestores da saúde e 57 usuários que aguardavam atendimento, entre os dias 27 de maio e 26 de junho. Os locais visitados foram a UPA Moacyr Scliar, o Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul (PACS), o Plantão de Emergência de Saúde Mental do PACS, o Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, o Pronto Atendimento Bom Jesus, o Pronto Atendimento Lomba do Pinheiro, o SAMU Porto Alegre, o Hospital Vila Nova e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
Ao todo, o trabalho elaborou 31 diagnósticos e 25 propostas de melhorias, relacionadas aos trabalhadores da saúde, aos fatores que influenciam na busca de pacientes às emergências, às condições das emergências e a fatores que influenciam na alta de pacientes das emergências de Porto Alegre.
“A saúde da cidade está com problemas e não é de hoje, com impressão de piora do quadro nos últimos anos. Há um drama da superlotação, a sensação de piora a cada ano. A população sofre e os profissionais também, com problemas de saúde mental”, afirmou Bublitz, para uma plateia composta prioritariamente por representantes de entidades da saúde e de conselhos da área.
O estudo destaca que muitos dos diagnósticos foram feitos considerando os problemas de funcionamento das próprias emergências, mas outros surgiram relacionados às questões estruturais da área da atenção básica, de programas de prevenção e promoção de saúde, financiamento e também com relação à rede hospitalar.
Para apresentar os resultados, o “Raio-x da Saúde” dividiu os diagnósticos em cinco áreas: Trabalhadores; Porta de entrada; Emergências; Porta de Saída; e Percepção dos Usuários.
O trabalho aborda o impacto emocional de lidar com mortes frequentes e com a sensação de impotência diante da superlotação. Entre os principais problemas relatados estão burnout, crises de ansiedade, depressão e ideação suicida. As entrevistas revelaram aumento significativo de afastamentos de profissionais por questões de saúde, sendo que, em algumas unidades, os afastamentos mais que dobraram nesse período.
A segurança dos profissionais de saúde foi outro tema que veio à tona, com relatos de ataques verbais e físicos. Outro aspecto trazido pelos profissionais foi a capacitação e treinamento. Devido ao aumento da demanda e da gravidade dos casos, muitos profissionais relataram insegurança para atuar e lidar com pacientes de alto risco sem ter o suporte necessário, seja por falta de profissionais, equipamentos ou capacitação interna.
A falta de médicos emergencistas também é outro problema apontado. O estudo diz que, em grande parte das emergências visitadas, poucos dos profissionais médicos tinham de fato especialização em emergência, cujo trabalho é realizar o atendimento do paciente de alto risco e auxiliar na coordenação dos trabalhos de atendimento. Dos Pronto Atendimentos visitados, apenas a UPA Moacyr Scliar apresentava médicos com especialização em emergência.
A diferença entre profissionais terceirizados, CLT e servidores, além dos ambientes de convivência apropriados para os profissionais de saúde foram outros aspectos comentados durante as entrevistas.

Um dos principais pontos levantados por gestores e profissionais foi o alto número de pacientes com classificação de risco Verde ou Azul na escala de Manchester, ou seja, casos de baixa gravidade que poderiam ser atendidos na rede básica. A pesquisa explica que os pacientes recebem essa classificação após atendimento inicial com a equipe de enfermagem, que determina o risco e a gravidade do caso.
A classificação verde ou azul costuma ser dada para pacientes que apresentam problemas de saúde sem urgência, como gripes, resfriados, queixas crônicas ou apenas pedidos de exames. “Tal tipo de atendimento, que é importante para a saúde da população, deveria ser feito na atenção primária, ou seja, em postos de saúde. Entretanto, segundo os relatos, a atenção básica não vem absorvendo essa demanda”, diz trecho do relatório, destacando que os índices chegam até a 85% dos pacientes classificados como baixo risco.
A educação em saúde é outro aspecto abordado pela pesquisa. Muitos profissionais citaram a falta de conhecimento da população sobre o funcionamento do sistema de saúde da Capital, o que significa desconhecimento sobre qual serviço procurar ou mesmo sobre doenças e condições básicas. Na prática, o estudo aponta que muitos desconhecem a diferença entre uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e acabam procurando as emergências por falta de conhecimento.
A grande quantidade de usuários dos serviços de saúde de fora de Porto Alegre foi outro ponto abordado. O indicador variou de acordo com a localização de cada emergência. No caso da UPA da Zona Norte, o relato é que aproximadamente 25% dos pacientes são de fora da Capital. Relato semelhante foi trazido por gestores do SAMU, que consideram que cerca de 500 mil pessoas trabalham e transitam em Porto Alegre, mas moram em outras cidades, porém buscam atendimento médico na cidade.
A superlotação das emergências apareceu em todas as vistorias feitas pelo “Raio-X da Saúde em Porto Alegre”. Unidades com até 400% de lotação, pacientes nos corredores dormindo em cadeiras ou em macas improvisadas, com poucos profissionais para realizar o atendimento são cenas comuns na cidade.
Há também o problema da diferença entre o número de leitos oficiais e instalados. Diversos critérios de recurso e de dimensionamento se baseiam no número de leitos oficiais, mas não nos leitos efetivamente existentes. O trabalho colheu relatos de que houve relatos uma naturalização quanto à demanda aumentada, sendo o “novo normal” a superlotação.
O dimensionamento reduzido de profissionais em quase todas as emergências é outro problema levantado. O número de trabalhadores está calculado para o número oficial de leitos e não o real, o que, na prática, influencia no aumento da demanda de trabalho e no esgotamento dos profissionais. Nesse sentido, a falta de assistentes sociais nos Pronto Atendimentos foi um ponto reforçado pelas entrevistas. Apenas o Pronto Atendimento da Cruzeiro do Sul apresentava um número maior de profissionais dessa área e, mesmo assim, eram apenas três, número considerado baixo diante da demanda. Nos Pronto Atendimentos da Bom Jesus e Lomba do Pinheiro, havia apenas um profissional em turno de 6 horas.
“Isso faz com que o PACS se torne uma referência para pacientes em situação de vulnerabilidade, mas, ao mesmo tempo, denota dificuldade para o atendimento de pacientes com necessidades assistenciais nas demais emergências”, assinala o relatório.
O aumento da demanda para saúde mental também surgiu na pesquisa. Porto Alegre tem apenas dois plantões de emergência em saúde mental, no IAPI e no PACS, ambos com relato de superlotação. Na Cruzeiro do Sul, os relatos são de aumento da demanda e dificuldade de alta dos pacientes, com média de 300% a 400% de lotação diariamente. Segundo o levantamento, o fato é recente, pois o percentual de lotação costumava ser em torno de 200%..
“Com a superlotação, se torna frequente a restrição das emergências de Porto Alegre. O problema é que, como a superlotação é generalizada, todas as emergências acabam ficando restritas simultaneamente, o que dificulta muito o trabalho do SAMU. Faz-se necessário uma organização melhor dos processos de restrição para saber quais tipos de pacientes ainda poderiam ser atendidos em cada local”, destaca o Raio-x da Saúde.

A pesquisa mostra haver a percepção do aumento de tempo de permanência dos pacientes nos Pronto Atendimentos da cidade. Na Bom Jesus, o relato é de um aumento de média de tempo de permanência de 3,2 dias para 6,8 dias de internação, com casos de pacientes ficando 31 dias na unidade. O ideal seria o paciente ficar internado por no máximo 24h.
Nesse sentido, a falta de leitos de retaguarda para desafogar as emergências é uma das principais demandas por parte de gestores e profissionais da saúde. Outro ponto destacado na pesquisa foi o fechamento recente de leitos, sobretudo dentro da pediatria, tanto no RS quanto em Porto Alegre. As entrevistas indicaram que o fechamento da Pediatria do Hospital São Lucas e as portas fechadas da emergência pediátrica SUS da Santa Casa aprofundaram a crise na cidade.
A falta de financiamento também foi citada, seja pela inadequação da tabela SUS, pelo não repasse de recursos pela Prefeitura, considerando os gastos com os leitos extras, ou pela não aplicação do investimento mínimo constitucional de 12% por parte do governo estadual.
Outro ponto enfatizado como prejudicial é o atraso da Operação Inverno em contratar profissionais. No Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, por exemplo, até o dia de junho em que a pesquisa foi realizada, ainda não havia quadro de profissionais para trabalhar na operação. “Tendo em vista que o aumento da demanda de casos inicia em abril e maio, o atraso impacta negativamente nos atendimentos”, conclui o relatório.
Do ponto de vista dos usuários, o Raio-X da Saúde identificou falta de vínculo com a atenção primária, expressa no fato de que 80,7% dos usuários entrevistados não procuraram o posto de saúde antes da consulta. Deste total, muitos relataram não ter vínculo com o posto de saúde, enquanto outros disseram não haver médicos ou não se sentirem com o problema resolvido no posto.
A pesquisa também revela que a ida dos pacientes às emergências ocorre muito para conseguir realizar exames, usuários que aguardavam serem chamados para realizar exames pedidos na atenção primária. Porém, acabam desistindo de esperar com a longa fila de espera e preferem ir na emergência para fazer realizar os exames de forma mais rápida.
Por fim, há também a falta de conhecimento por parte dos usuários sobre o funcionamento das emergências, o que se revela no desconhecimento de direitos e sobre o local adequado de atendimento, entre outros fatores.
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