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Rede de apoio entre mulheres impulsiona carreiras em mercado desigual

Em um mercado de trabalho historicamente marcado por desigualdades de gênero, as mulheres têm construído suas próprias redes de solidariedade para avançar profissionalmente. Pesquisa realizada pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados em parceria com a Todas Group revela que quatro em cada dez mulheres (41%) afirmam ter recebido mais apoio de outras mulheres do que de homens ao longo da carreira.

O dado evidencia a força da cooperação feminina em um ambiente corporativo que ainda reproduz barreiras estruturais para a ascensão das trabalhadoras. Em áreas como marketing, publicidade e comunicação, 56% das entrevistadas disseram ter recebido apoio majoritariamente feminino, enquanto em educação e treinamento corporativo o índice chega a 53%.

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Mais do que um gesto individual, essa rede de apoio revela um fenômeno coletivo: mulheres abrindo caminhos para que outras mulheres também ocupem espaços de poder, rompendo com estruturas historicamente dominadas por homens.

Ascensão profissional ainda exige sacrifícios desiguais

Apesar desse avanço, os dados mostram que o crescimento na carreira ainda cobra um preço elevado das mulheres. Três em cada quatro entrevistadas (74%) afirmaram ter aberto mão do autocuidado para avançar profissionalmente, enquanto 53% relataram ter sacrificado tempo com a família e o mesmo percentual apontou impactos na saúde mental.

A realidade reflete um mercado de trabalho que ainda impõe às mulheres uma dupla jornada e exige renúncias que raramente são cobradas dos homens. Dados da Pnad Contínua do IBGE indicam que, em 2025, o país contava com 44,9 milhões de mulheres ocupadas, mas a disparidade salarial segue expressiva.

O rendimento médio feminino foi de R$ 3.042, enquanto os homens receberam R$ 3.864, uma diferença de cerca de 21%. Entre profissionais com ensino superior, a disparidade é ainda maior: mulheres recebem cerca de 35% a menos que os homens.

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A desigualdade também se intensifica nos cargos de liderança. Em posições de direção e gerência, os homens recebem em média R$ 10.492, enquanto as mulheres ganham R$ 7.546, diferença que chega a 28%. Além disso, a participação feminina diminui à medida que os salários aumentam. Embora sejam maioria entre os trabalhadores com menores rendimentos, as mulheres representam apenas 16% do grupo que compõe o 0,1% mais rico do mercado de trabalho.

Esse cenário demonstra que, mesmo quando alcançam os mesmos níveis de qualificação, as mulheres continuam enfrentando um sistema que limita sua autonomia econômica e sua presença nos espaços de decisão.

Autonomia financeira é condição para liberdade

Não por acaso, a autonomia financeira aparece como uma das principais prioridades para as mulheres. Pesquisa sobre mulheres e mercado de trabalho aponta que 37,3% das entrevistadas consideram a independência financeira o principal objetivo profissional, acima até da realização pessoal ou dos relacionamentos.

Especialistas apontam que o acesso ao trabalho remunerado é fundamental para garantir autonomia e permitir que mulheres tenham condições de romper ciclos de violência ou dependência econômica.

Ainda assim, persistem obstáculos estruturais no ambiente profissional. Comentários sexistas, discriminação em promoções e preconceito contra mulheres com filhos estão entre as experiências relatadas por trabalhadoras ouvidas na pesquisa.

Mercado de trabalho entra no centro das mobilizações do 8 de Março

Diante desse cenário, o mundo do trabalho voltou a ocupar papel central nas mobilizações do Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março. Em diversas cidades brasileiras, movimentos feministas organizam manifestações com pautas ligadas diretamente à vida das trabalhadoras.

Entre as principais pautas estão a igualdade salarial entre homens e mulheres, o combate ao assédio e à violência no ambiente de trabalho e a implementação da Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da violência e do assédio no mundo laboral.

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Outro tema que ganhou força neste ano é a crítica à precarização das condições de trabalho. Movimentos feministas também defendem a redução da jornada sem redução salarial e o fim da escala 6×1, considerada por organizações de trabalhadoras um modelo que intensifica a exploração e dificulta a conciliação entre trabalho, vida pessoal e responsabilidades de cuidado — historicamente atribuídas às mulheres.

Solidariedade feminina e luta coletiva

Se a rede de apoio entre mulheres tem ajudado a abrir portas no mercado de trabalho, os movimentos feministas lembram que a superação das desigualdades não depende apenas de iniciativas individuais.

Garantir igualdade salarial, ampliar a presença feminina nos espaços de poder e combater a violência e a discriminação no trabalho são desafios que exigem políticas públicas, organização coletiva e transformação das estruturas econômicas e sociais.

Por isso, neste 8 de Março, milhares de mulheres voltam às ruas para reafirmar uma luta histórica: por autonomia, dignidade e igualdade real no mundo do trabalho e na sociedade.

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com agências

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