
O Reino Unido declarou apoio à ideia de um assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, reforçando o peso político de Brasília nas discussões sobre a reforma do sistema multilateral. A posição foi expressa pela embaixadora britânica no Brasil, Stephanie Al-Qaq, em entrevista à CNN Brasil.
A manifestação é relevante não apenas pelo conteúdo, mas pela origem: Londres é uma potência nuclear e um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, com poder de veto. Trata-se, portanto, de um ator central na arquitetura decisória da ordem internacional criada no pós-Segunda Guerra.
Brasil como pilar do multilateralismo
Segundo Al-Qaq, o governo britânico vê o Brasil como um aliado-chave para fortalecer e modernizar as instituições multilaterais. Para a diplomata, o sistema atual precisa de reformas para voltar a funcionar de maneira eficaz e responder aos desafios globais contemporâneos.
Ela fez questão de afastar a ideia de que o Reino Unido seja um entrave a esse processo. “Não é o Reino Unido que está atrapalhando”, afirmou, ressaltando que Londres tem levado propostas concretas às discussões internacionais sobre mudanças no Conselho de Segurança.
O apoio britânico ocorre em um momento de forte pressão sobre o multilateralismo, especialmente diante da postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defende abertamente o enfraquecimento de organismos internacionais em nome da política de “América em primeiro lugar”.
Disputa de visões sobre a ordem internacional
A entrevista evidencia um choque de concepções. De um lado, a estratégia norte-americana aposta em instituições fragilizadas, abrindo espaço para uma ordem baseada em zonas de influência das grandes potências. De outro, países considerados potências médias — como Brasil, Canadá e Reino Unido — defendem a preservação e a reforma das regras multilaterais como forma de limitar assimetrias de poder.
Nesse contexto, Al-Qaq destacou a convergência entre Londres e Brasília. A diplomata citou, inclusive, a defesa feita recentemente pelo primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em Davos, de uma atuação coordenada entre países médios para conter pressões unilaterais e preservar normas comuns.
Cooperação além da diplomacia
Outro eixo central da entrevista foi a intenção de aprofundar a parceria bilateral em áreas estratégicas. Al-Qaq lembrou que Brasil e Reino Unido já cooperam em clima, saúde, ciência e tecnologia, além de manterem programas conjuntos de pesquisa e intercâmbio acadêmico.
A embaixadora afirmou, porém, que Londres quer ampliar significativamente a relação política e estratégica com o Brasil, especialmente nos campos da defesa e do combate ao crime organizado. Para ela, o fortalecimento dessas áreas é parte do esforço mais amplo de sustentar o sistema internacional baseado em regras.
Defesa: de compradores a parceiros
Na área militar, a diplomata defendeu uma mudança de paradigma. Segundo Al-Qaq, a cooperação não deve se limitar à venda de equipamentos, mas avançar para o desenvolvimento conjunto de tecnologias, sistemas e capacidades industriais.
“Estamos interessados não só em vender coisas, mas em construir junto, aprender junto”, afirmou. Como exemplo, citou o programa do caça Gripen, desenvolvido pela Suécia com forte participação tecnológica britânica e brasileira, modelo que, segundo ela, ilustra o tipo de parceria que Londres deseja expandir.
O aumento dos investimentos em defesa nos dois países, acrescentou, cria um ambiente favorável para esse salto qualitativo, especialmente diante de novos desafios militares, como o uso crescente de drones e tecnologias de baixo custo em conflitos recentes.
Um parceiro estratégico em tempos de incerteza
Ao longo da entrevista, Stephanie Al-Qaq enfatizou que Brasil e Reino Unido compartilham valores e uma visão pragmática das relações internacionais. Em um cenário global marcado por instabilidade e questionamentos à ordem multilateral, Londres vê Brasília como um ator indispensável — tanto para preservar as regras existentes quanto para adaptá-las a uma nova realidade.
O apoio britânico ao assento permanente do Brasil no Conselho de Segurança, nesse sentido, vai além de um gesto diplomático: sinaliza uma aposta estratégica no papel do país como voz relevante na redefinição da governança global.
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