
Por José Roberto
Da Página do MST
Este é um relato de militante e advogado sobre a marcha do MST na Bahia, escrito a partir do chão da caminhada, do encontro com o povo e da força coletiva que se constrói passo a passo. Mais do que registrar um percurso, este texto busca traduzir a experiência viva de uma luta que não cabe apenas nas palavras, pois pulsa no corpo, na memória e na organização dos que seguem firmes na defesa da terra e da dignidade.
A marcha do MST na Bahia não é apenas um deslocamento pelas estradas. Ela é um gesto político profundo, uma afirmação pública de que o povo do campo continua existindo, resistindo e lutando. Em cada passo dado, há a denúncia da fome, da desigualdade e da concentração fundiária, mas também há a construção concreta de um futuro possível, feito de Reforma Agrária Popular, de produção de alimentos e de justiça social.
Quem acompanha essa caminhada percebe logo que não se trata de um ato isolado. A marcha é parte de uma história maior, de décadas de resistência contra o latifúndio, a violência no campo e a invisibilização dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Na Bahia, essa luta ganha contornos ainda mais fortes, porque toca numa realidade marcada por profundas desigualdades e por uma estrutura agrária que ainda exclui muitos e concentra poder e terra nas mãos de poucos.
Ao ocupar o espaço público com bandeiras, cantos, palavras de ordem e presença coletiva, o MST transforma a estrada em território político. A marcha rompe o silêncio imposto aos sujeitos do campo e mostra que a luta pela terra não é um assunto do passado, mas uma questão urgente do presente. Marchar, nesse contexto, é dizer que a reforma agrária popular continua sendo necessária e que o povo não aceitará calado a manutenção das injustiças.
A força dessa experiência está também na unidade. Homens, mulheres, jovens, idosos e crianças caminham juntos, dividindo a água, o alimento, o cansaço e a esperança. É nessa convivência que a marcha revela sua dimensão mais bonita: ela ensina que a luta não se faz sozinha. Cada gesto de solidariedade, cada palavra de incentivo e cada canção entoada no percurso reforçam que a transformação social nasce da organização coletiva e da confiança entre os que lutam.
Como militante, observo que a marcha também é uma grande escola. Em cada parada, em cada conversa, em cada momento de mística, o povo aprende e ensina ao mesmo tempo. Aprende sobre disciplina, coragem, paciência histórica e compromisso político. Ensina que a luta não se resume à reivindicação, mas envolve consciência, formação e construção permanente de vínculos. Marchar é, também, formar-se na prática da resistência.
Há na marcha uma beleza que não pode ser ignorada. O canto que acompanha os passos, a bandeira vermelha que avança na estrada, a mística que fortalece o espírito coletivo, tudo isso compõe uma linguagem própria do movimento. Essa dimensão simbólica não é acessória: ela é parte da política. É por meio dela que a dor se transforma em força, que o cansaço se converte em esperança e que a luta ganha rosto, voz e sentido.
A juventude tem um papel decisivo nesse processo. São os jovens que trazem novo fôlego, novas perguntas e novas formas de continuar a luta pela reforma agrária popular. Ao marchar, eles reafirmam que o campo precisa ser lugar de vida, de estudo, de cultura, de trabalho digno e de futuro. A presença da juventude mostra que a luta pela terra não é apenas memória dos que vieram antes, mas também compromisso com os que virão depois.
Do ponto de vista político, a marcha expõe com clareza a disputa entre dois projetos de país. De um lado, está a lógica do lucro, da concentração de terra e da destruição dos territórios. De outro, está o projeto popular defendido pelo MST, que coloca a vida, o alimento, a cooperação e a justiça social no centro. É por isso que a marcha incomoda tanto: porque ela torna visível a contradição e reafirma que outro modelo de sociedade é não apenas necessário, mas possível.
Ao final, o que fica dessa caminhada é a imagem poderosa de um povo em movimento. Um povo que não pede favores, mas reivindica direitos. Um povo que não aceita a desigualdade como destino, mas insiste em caminhar para transformá-la. Este relato de militante é, portanto, também um testemunho de esperança organizada: a certeza de que a marcha não termina na estrada, porque segue viva na luta cotidiana por terra, dignidade e futuro.
*José Roberto é militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, integrante do setor de Direitos Humanos do MST na Bahia, advogado popular ligado à Rede Nacional de Advogados Populares – RENAP, Advogado e Mestre em Planejamento Territorial pela Universidade Estadual da Bahia, Presidente da Comissão de Direito Humano à Terra e ao Território da OAB Bahia.
**Editado por Fernanda Alcântara
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