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Resiliência iraniana desafia os sinais ambíguos de Trump na guerra

A Guarda Revolucionária do Irã acionou o Khorramshahr-4, um de seus mísseis hipersônicos mais avançados

Nesta terça-feira (10), o cenário de guerra no Oriente Médio apresenta novos contornos de incerteza. Enquanto o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou para hoje uma ofensiva de ataques “mais intensos” — os maiores desde o final de fevereiro —, as mensagens vindas da Casa Branca revelam contradições.

Para conter a instabilidade no mercado de petróleo, o presidente Donald Trump afirmou na segunda-feira (9) que as operações estariam “praticamente concluídas” e “à frente do cronograma”, alegando a destruição de 90% da capacidade de mísseis do Irã. No entanto, o mesmo Trump ameaçou um ataque “20 vezes mais forte” caso Teerã bloqueie o Estreito de Ormuz. Essa oscilação entre a declaração de vitória e a retórica de “fogo e fúria” reflete, segundo analistas, divergências internas na administração e uma dificuldade em definir o objetivo final da intervenção.

O “Fator Netanyahu” na guerra

A análise da resiliência iraniana ganha profundidade com a entrevista de Alastair Crooke — ex-diplomata britânico, ex-agente de inteligência do MI6 e fundador do Conflicts Forum em Beirute. Em entrevista ao jornalista Chris Hedges, republicada pelo portal Outras Palavras, Crooke qualifica o conflito como uma imposição política do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, sobre Trump.

Segundo o especialista, Netanyahu utilizou o pretexto da “ameaça nuclear” para convencer  Washington ao confronto, embora o objetivo real fosse a destruição do arsenal de mísseis convencionais e modernos do Irã, que anula a supremacia aérea israelense. Washington adotou a “doutrina da decapitação”, similar ao modelo tentado na Venezuela, apostando que a morte das lideranças provocaria um levante popular imediato. O plano, contudo, subestimou a coesão nacional e a estrutura descentralizada do Estado iraniano.

A estratégia da “exaustão” e o vácuo tecnológico

O Irã demonstra uma preparação de décadas para uma guerra de resistência. Crooke explica que Teerã não expôs sua tecnologia de elite de imediato. Em vez disso, utilizou mísseis e drones datados da década de 2010 para saturar as defesas de Israel e dos EUA. “Os mísseis antigos foram disparados justamente para esgotar a capacidade de tentar derrubá-los”, revela o ex-diplomata.

Enquanto o Pentágono gasta bilhões em interceptores caríssimos contra “iscas” obsoletas, o Irã preserva seus mísseis de ponta, como o hipersônico Khorramshahr-4 (Mach 14), cujas interceptações são tecnicamente quase impossíveis. Além disso, o Irã focou na destruição sistemática de radares avançados dos EUA criando uma “cegueira” tecnológica no Golfo Pérsico que compromete a superioridade ocidental. A Guarda Revolucionária reivindicou a destruição de dez radares avançados dos EUA, incluindo sistemas sofisticados e caros.

Dissuasão e Impactos regionais

O major-general Ali Mohammad Naeini afirmou que as forças iranianas aguardam a frota naval dos EUA, incluindo o porta-aviões Gerald Ford, no Estreito de Ormuz, alertando que o fim do conflito “está nas mãos do Irã”. 

O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, rejeitou negociações, classificando as ações de Teerã como “autodefesa legal” e criticando o “erro épico” americano que fez disparar os preços do petróleo. E alertou que a persistência dos ataques resultará no bloqueio total das exportações de petróleo da região.

Impactos regionais e transformações profundas

As consequências do conflito já extrapolam as fronteiras imediatas. Na segunda-feira (9), estilhaços de mísseis causaram feridos em Israel e uma morte no Bahrein. Líderes regionais, como o presidente egípcio Abdel-Fattah al-Sisi, manifestam grave preocupação com o caos geopolítico.

Para Crooke, o impacto econômico será permanente, com a fuga de capitais do Golfo em direção à Ásia e o fim do status da região como porto seguro para turismo e tecnologia. Enquanto Israel enfrenta profundas divisões internas acentuadas pela guerra, para o Irã, a sobrevivência do regime e da infraestrutura militar básica já é lida como uma vitória simbólica contra um adversário historicamente considerado invulnerável.

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