
“Nós nos lembramos dos nomes dos homens — Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos. Mas quem foram as mulheres que participaram na linha de frente da Revolução Cubana e, posteriormente, do governo revolucionário cubano?” É a partir dessa pergunta que Ana Prestes, socióloga, mestre e doutora em Ciência Política e secretária de Relações Internacionais do PCdoB, resgata a trajetória de Vilma Espín em episódio da coluna MiraMundo, da TV Grabois, dedicado à uma das principais lideranças femininas da Revolução Cubana.
Vale reforçar que a participação das mulheres não foi um capítulo à parte da Revolução. Elas estiveram na resistência à ditadura de Fulgêncio Batista, participaram da guerrilha e, depois da vitória de 1959, ocuparam espaços decisivos na construção do novo projeto político. A trajetória de Vilma Espín reúne esses dois momentos: primeiro, na luta contra a ditadura; depois, na organização das mulheres cubanas e na disputa por espaço no trabalho, na educação e na política.

Da resistência à Federação de Mulheres Cubanas
Vilma era estudante de Engenharia Química na Universidade do Oriente, em Santiago de Cuba, quando se aproximou do movimento estudantil e do Movimento 26 de Julho. Filha de uma família abastada ligada à indústria do rum, envolveu-se ainda jovem na resistência à ditadura. A militância a aproximou de Frank País, um dos principais dirigentes da luta clandestina em Santiago de Cuba, assassinado em 1957.
A trajetória de Vilma também se cruzou com a dos homens que entrariam para a memória mais conhecida da Revolução. Ela passou pelos Estados Unidos e pelo México, onde encontrou Fidel Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Raúl Castro, que se tornaria seu companheiro. Os dois tiveram quatro filhos, enquanto Vilma mantinha a atividade política.
Vilma integrou o pelotão feminino conhecido como Las Marianas, comandado por Celia Sánchez, e seguiu para a Sierra Maestra com os combatentes da guerrilha. A queda de Batista, em janeiro de 1959, encerrou a ditadura, mas abriu para Vilma uma nova frente de atuação: participar da construção da sociedade que surgia da Revolução.
O novo governo tinha diante de si uma população marcada pelo analfabetismo, pela pobreza e por profundas desigualdades sociais. Para as mulheres, a situação era agravada pela exploração econômica e pela restrição de sua participação na vida pública.
“Qual vai ser o grande desafio? Não só dela, mas de todos os dirigentes revolucionários: erradicar as profundas mazelas da ilha, o analfabetismo, a fome, a desestruturação social, o fato de que ela era um parque de diversões da elite norte-americana, cassinos, grandes hotéis e mulheres altamente exploradas”, pontua Ana Prestes.
A força organizada das mulheres
Em 23 de agosto de 1960, diferentes organizações femininas foram reunidas na Federação de Mulheres Cubanas (FMC). Vilma foi escolhida para presidir a nova entidade e permaneceria à frente dela até sua morte, em 2007. A criação da FMC deu uma estrutura nacional à organização das mulheres e colocou suas demandas no centro da agenda política da Revolução.
Alfabetização, educação, formação profissional, acesso ao trabalho, cuidado com as crianças e organização comunitária passaram a integrar uma agenda que buscava ampliar a autonomia e a participação das mulheres na sociedade.
A Revolução e a vida das mulheres
Nos primeiros anos, essa tarefa exigia presença direta nas comunidades. O trabalho da FMC alcançou também as áreas rurais, onde as mulheres estavam entre as prioridades.
A atuação combinava cuidados básicos e formação profissional. A alfabetização abriu caminho para a continuidade dos estudos, enquanto a formação técnica preparava mulheres para ocupar postos de trabalho que antes lhes eram negados. A criação de estruturas de cuidado também entrou nessa equação. Os círculos infantis, implantados a partir de 1961, ajudaram a criar condições para que mães pudessem, de fato, trabalhar e estudar.
A política de cuidado, nesse sentido, não estava separada da política de trabalho. Para ampliar a presença feminina fora de casa, era preciso enfrentar também uma das responsabilidades que historicamente recaíam sobre as mulheres.
Mas a disputa não parou na porta do mercado de trabalho.
Em 1975, entrou em vigor o Código da Família, um dos principais marcos legais da política cubana para a igualdade nas relações familiares. A FMC participou ativamente da discussão, e Vilma esteve envolvida na elaboração do texto e em suas modificações posteriores. O código estabeleceu, de forma pioneira, direitos e deveres iguais entre os cônjuges, reconheceu a responsabilidade compartilhada pela criação e educação dos filhos e incorporou à legislação a ideia de que as tarefas e responsabilidades familiares não deveriam ser atribuídas exclusivamente às mulheres. Levava, assim, para dentro da lei uma questão que a organização das mulheres já vinha colocando: a igualdade precisaria alcançar também a família.
A mudança deslocava a disputa para um terreno mais íntimo. A emancipação das mulheres não se resumia ao acesso à educação ou ao trabalho; envolvia também as relações dentro de casa, a divisão das responsabilidades e o reconhecimento da mulher como sujeito de direitos no espaço familiar. Ao interferir nesse âmbito, o Código da Família transformava em questão pública uma desigualdade que por muito tempo havia sido tratada como assunto privado.
As conquistas e suas contradições
É justamente nesse ponto que aparecem os limites de uma transformação que avançava em diferentes frentes, mas não alterava todas as relações sociais na mesma velocidade.
“Não é porque a gente fez a revolução e agora a gente tem uma legislação que coloca o sinal de igualdade entre homens e mulheres que automaticamente homens e mulheres estão em condições iguais”, afirma Ana.
A entrada das mulheres no mercado de trabalho não eliminou a divisão desigual das tarefas domésticas. Segundo Ana, os homens podiam defender a igualdade nas reuniões, nas manifestações e na vida política, mas isso não significava assumir a mesma parcela do trabalho dentro de casa. “As mulheres tiveram sobrecarga de trabalho ao continuarem com as tarefas domésticas e assumirem mais os postos no mercado de trabalho.”
A própria FMC precisou lidar com essas tensões. Ao longo das décadas, sua atuação incorporou questões como violência doméstica, abuso sexual, educação sexual, orientação sexual e identidade de gênero.
“A opressão da mulher extrapola porque ela tem uma matriz patriarcal bastante profunda. Então os temas da homossexualidade vão surgir, os temas de abuso sexual vão surgir, os temas também da violência doméstica”, afirma Ana.
Fazer essa agenda avançar, ao mesmo tempo em que se construía o projeto revolucionário mais amplo, exigia de Vilma uma atuação entre diferentes frentes. Ana Prestes a define como uma “grande equilibrista”: alguém que precisava dar atenção às questões específicas das mulheres sem se afastar da construção do novo governo.
A dimensão dessa transformação ajuda a entender uma expressão usada por Fidel Castro em 1966 para definir o processo: uma “revolução dentro de outra revolução”. Mais do que incluir mulheres em espaços já existentes, a ideia apontava para a mudança do próprio lugar que elas ocupavam na sociedade.
Do trabalho à política
Os resultados apareceriam na composição da força de trabalho e das instituições cubanas. No início dos anos 1980, quase 60% das mulheres entre 25 e 44 anos estavam empregadas, contra cerca de 20% antes da Revolução. Nos anos 1990, elas já representavam 40% da força de trabalho, diante de 15% antes de 1959.
A presença feminina avançou também em áreas de alta qualificação. Quase metade das pessoas formadas em medicina já era composta por mulheres, e elas passaram a ocupar uma parcela significativa das direções de hospitais. Na política institucional, chegaram ao Parlamento e passaram a ocupar espaços de decisão que não existiam para elas antes de 1959.
“A progressão da participação da mulher na política em Cuba, principalmente no Parlamento, foi bastante sustentada, bastante importante ao longo do processo de construção revolucionário”, pontua Ana Prestes.
Os indicadores sociais também acompanhavam essa mudança. “Chegando aos anos 2000, houve um aumento da longevidade das mulheres cubanas, que chegou a ser a maior de toda a América Latina. As mulheres chegaram aos 77,6 anos”, destaca.
Quando a crise colocou as conquistas à prova
Com a queda da União Soviética, Cuba perdeu uma parcela importante de seu apoio econômico e comercial, enquanto o bloqueio dos Estados Unidos permanecia. O país entrou no chamado Período Especial. A crise chegou quando as mulheres já haviam conquistado uma presença muito maior m diversos espaços. Mas também encontrou uma divisão doméstica que as políticas públicas não haviam conseguido eliminar. “E as mulheres cubanas vão assumir muito o peso desse Período Especial”, afirma Ana.
A própria FMC chegou àquele período com três décadas de organização e uma história de conquistas que Vilma Espín não admitia ver retroceder. No 5º Congresso da entidade, realizado em meio à crise, ela reafirmou o compromisso das mulheres cubanas com os direitos conquistados: “Estamos conscientes dos tempos difíceis em que vivemos”. A declaração expressava uma posição que também marcava a atuação da FMC naquele momento: diante das dificuldades, a organização não apenas mobilizava as mulheres, mas se tornava um espaço de defesa das políticas que haviam transformado sua vida.
Vilma, a FMC e uma história que continua
Vilma morreu em 2007, aos 76 anos. Sua trajetória começou na resistência clandestina, passou pela guerrilha e encontrou na Federação de Mulheres Cubanas o principal espaço de sua atuação política durante quase cinco décadas.
A atuação de Vilma também ultrapassou as fronteiras da Ilha. Ela representou Cuba em organismos internacionais e levou para esses espaços a experiência acumulada nas políticas de educação, saúde, infância e igualdade das mulheres.
Essa trajetória, no entanto, não pode ser contada apenas pelo acúmulo de conquistas. A permanência da sobrecarga doméstica e das estruturas patriarcais revela os limites de uma transformação que avançou sobre o trabalho, a educação, a legislação e a política sem eliminar todas as desigualdades da vida cotidiana.
“Não sem contradições, não sem paradoxos, porque nós sabemos que as nossas sociedades ainda são profundamente patriarcais, profundamente machistas e também a sociedade cubana enfrenta essas condições.”
É entre avanços e contradições que a trajetória de Vilma Espín permanece relevante. Dirigente da Revolução e à frente da FMC por décadas, ela ajudou a colocar a questão das mulheres na agenda política cubana. Seu legado também revela que direitos conquistados precisam ser defendidos e ampliados ao longo do tempo.
O post “Revolução dentro da Revolução”: a liderança de Vilma Espín em Cuba apareceu primeiro em Vermelho.