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Rodrigo Paz vence na Bolívia e encerra 20 anos de hegemonia do MAS no poder

O senador Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão (PDC), foi eleito presidente da Bolívia neste domingo (19) com 54,5% dos votos, em um pleito que encerra duas décadas de governos progressistas do Movimento ao Socialismo (MAS) e marca a volta da direita ao poder. 

A vitória do candidato liberal ocorre em meio a um quadro de instabilidade econômica e fragmentação política, num país que, sob o ciclo iniciado por Evo Morales, viveu seu período mais longo de crescimento, inclusão social e afirmação soberana.

Com participação entre 85% e 89% dos 7,9 milhões de eleitores habilitados, o segundo turno foi o primeiro da história democrática boliviana e transcorreu sem incidentes, segundo o Tribunal Supremo Eleitoral. 

O ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, da aliança conservadora Libre, obteve 44,5% dos votos e reconheceu a derrota. A posse de Paz está prevista para 8 de novembro, em La Paz.

Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989–1993), o novo mandatário, de 58 anos, nasceu no exílio durante as ditaduras militares e foi criado entre a Europa e a América do Sul. 

Formado em economia e relações internacionais, com mestrado nos Estados Unidos, fez carreira política como prefeito de Tarija, deputado e senador. 

Durante a campanha, construiu uma imagem de gestor moderno e conciliador, mas sua base política está ancorada nas elites empresariais de Santa Cruz de la Sierra, principal centro econômico e bastião da direita boliviana.

Em seu discurso de vitória, Paz afirmou que o país entra em uma nova etapa e prometeu “governar com todos”, em referência à fragmentação que marcou os últimos anos de disputa entre o MAS e a oposição conservadora. 

Disse que pretende priorizar “trabalho, segurança jurídica e instituições fortes” e declarou que “a ideologia não dá de comer”. 

As palavras sintetizam a orientação econômica que norteia sua proposta: um programa de “capitalismo para todos”, voltado à liberalização do mercado, à formalização de pequenos negócios e à redução do papel do Estado como indutor do desenvolvimento.

O novo governo promete cortes de gastos públicos da ordem de US$1,5 bilhão, eliminação de subsídios aos combustíveis e reforma tributária para desonerar setores empresariais. 

O discurso de austeridade é apresentado como caminho de estabilidade, mas tende a atingir diretamente políticas que garantiram, durante o ciclo anterior, o crescimento da renda e o aumento do consumo interno. 

Com inflação anual acumulada de cerca de 25% e queda nos investimentos em gás natural, a Bolívia enfrenta um quadro de recessão, escassez de dólares e desabastecimento de combustíveis, situação que já provoca aumento dos preços e enfraquece o poder de compra das famílias trabalhadoras.

Paz assume também em meio a uma profunda desarticulação do campo popular. Impedido judicialmente de concorrer, Evo Morales lançou uma campanha pelo voto nulo que atingiu 19% dos votos válidos e denunciou perseguição política após ter a candidatura vetada. 

O atual presidente, Luis Arce, desistiu de buscar a reeleição, enfraquecido pela crise fiscal e pela ruptura com Morales. O resultado expôs a fragmentação do MAS e o desgaste do modelo redistributivo diante da pressão inflacionária e do cerco legislativo imposto pelos setores conservadores.

A vitória de Paz consolida uma reconfiguração do poder político boliviano e pode inaugurar um período de predomínio liberal no discurso e na condução do Estado. 

O novo presidente promete descentralizar o orçamento e conceder maior autonomia administrativa aos departamentos, mas a ausência de maioria parlamentar deve obrigá-lo a negociar com as forças que até pouco tempo formavam a oposição. 

O desafio para Paz será estabilizar as contas públicas sem ampliar o empobrecimento, já que o corte de subsídios e de investimentos tende a afetar as camadas populares que sustentaram o mercado interno ao longo dos últimos anos.

No cenário externo, a mudança de governo também redesenha o posicionamento internacional da Bolívia. 

Enquanto o argentino Javier Milei saudou a vitória de Paz como o “fim do socialismo do século 21”, o chileno Gabriel Boric falou em “cooperação entre países irmãos”. O Itamaraty ainda não havia se pronunciado até a manhã desta segunda-feira (20). 

O novo governo sinaliza reaproximação com Washington e revisão das políticas externas herdadas do MAS, que priorizavam os Brics, a integração sul-americana e a defesa da soberania nacional sobre os recursos estratégicos.

A Bolívia entra, assim, em uma fase de incerteza. O discurso de conciliação e de eficiência administrativa pode ganhar apoio entre os setores médios urbanos, mas o conteúdo fiscalista do programa — com cortes de subsídios e dependência de crédito — ameaça acentuar a desigualdade social e enfraquecer os avanços do período anterior. 

Paz promete “capitalismo para todos”, mas o desafio que o espera é evitar que essa fórmula se traduza em ajuste para muitos e prosperidade para poucos.

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