Notícias

Roubos na capital de São Paulo superam em dobro a média paulista

Os dados de 2025 da Secretaria da Segurança Pública (SSP) revelam um paradoxo no mapa da violência em São Paulo. Enquanto cidades do interior lideram as taxas de homicídio, é a capital paulista que concentra, de forma desproporcional, os crimes de roubo. Com 858,8 ocorrências por 100 mil habitantes, a taxa de roubos na cidade de São Paulo é mais do que o dobro da média estadual, que ficou em 361 casos.

O número chama atenção sobretudo porque a capital é governada por Ricardo Nunes (MDB), aliado político do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A parceria institucional, frequentemente apresentada como fator de estabilidade administrativa, não se traduziu em sensação de segurança para a população paulistana.

O número coloca a capital no topo do ranking entre os municípios paulistas com mais de 50 mil habitantes e reforça a percepção de insegurança generalizada entre seus moradores.

Insegurança generalizada: do centro à periferia

Ao contrário de leituras simplificadoras, os roubos não se concentram apenas em áreas centrais ou em bairros de maior renda. Os registros mostram incidência elevada tanto no centro expandido quanto em regiões periféricas, atingindo trabalhadores, estudantes e comerciantes em diferentes pontos da cidade.

Especialistas destacam que a capilaridade do crime evidencia uma crise estrutural do modelo de policiamento urbano. A capital, com intenso fluxo diário de pessoas, transporte público sobrecarregado e grandes bolsões de desigualdade, tornou-se terreno fértil para roubos rápidos, muitas vezes cometidos por grupos móveis e difíceis de rastrear.

Interior lidera homicídios, mas capital domina crimes patrimoniais

Se a capital lidera os roubos, o interior paulista aparece com os piores indicadores de homicídio. Lorena, no Vale do Paraíba, registrou a maior taxa do estado: 31,8 assassinatos por 100 mil habitantes em 2025 — quase seis vezes a média estadual, que ficou em 5,66, a menor da série histórica iniciada em 2001.

Outras cidades do interior, como Ubatuba, Cruzeiro e Boituva, também apresentam taxas elevadas, em muitos casos associadas a disputas territoriais entre facções criminosas, como o PCC e o Comando Vermelho. A Polícia Civil e o Ministério Público investigam conflitos ligados a rotas estratégicas e áreas de interesse logístico, como o entorno do porto de São Sebastião.

Região metropolitana amplia o problema dos roubos

Além da capital, cidades da Grande São Paulo aparecem com altas taxas de roubo. Itapecerica da Serra (727,9 por 100 mil habitantes), Santo André (695,8) e Embu das Artes (601,5) figuram entre as mais afetadas. São Vicente, na Baixada Santista, também se destaca, impulsionada pelo turismo e pela condição de cidade de passagem.

Para especialistas, esses fatores exigem políticas específicas, com policiamento orientado pelo fluxo de pessoas e investigação focada em quadrilhas locais e regionais, e não apenas ações repressivas pontuais.

Eles descrevem o roubo como um “crime democrático”, que atinge trabalhadores nos pontos de ônibus de madrugada, estudantes, comerciantes e usuários do transporte público em geral.

Modelo de policiamento em debate

Analistas de segurança pública apontam que o avanço dos roubos na capital está ligado a mudanças no modelo de policiamento adotado pelo governo estadual. Benedito Mariano, do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), critica em entrevista à Folha de S. Paulo a priorização de batalhões de ações especiais em detrimento do policiamento de proximidade.

Segundo ele, a estratégia aumenta a letalidade policial, mas não reduz crimes patrimoniais nem homicídios em áreas críticas. “Troca-se prevenção por repressão, e o resultado é uma polícia mais violenta, mas menos eficaz no cotidiano das cidades”, afirma.

A SSP rebate, dizendo que o modelo é integrado e que sete dos 12 indicadores criminais monitorados atingiram os menores patamares em 25 anos, incluindo quedas expressivas em roubos e latrocínios no estado como um todo.

Aliança política, problema persistente

O caso da capital evidencia um desgaste político sensível. Apesar da sintonia entre o prefeito Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas, São Paulo segue como o epicentro dos roubos no estado. Para críticos, a parceria não produziu uma estratégia específica para a complexidade urbana da maior metrópole do país.

A sensação de insegurança, reforçada pela dispersão territorial dos crimes, tem impacto direto na avaliação da gestão municipal e estadual, sobretudo em um cenário de antecipação eleitoral. Para críticos, falta uma estratégia específica para a complexidade urbana da capital, marcada por intenso fluxo diário de pessoas, desigualdade social profunda e criminalidade altamente móvel.

Crime muda, política demora a reagir

Segundo dados da Secretaria da Segurança Públicas, os registros de roubos e furtos de celulares apresentaram 254.459, em todo o território paulista, em 2025.

Outro ponto levantado por especialistas é a transformação do crime. Para Rafael Alcadipani, da FGV, parte da queda em alguns indicadores tradicionais reflete a migração para crimes digitais e estelionatos, ainda subdimensionados nas estatísticas oficiais.

“Estamos olhando para o crime do passado, enquanto o presente já é híbrido, físico e virtual”, afirma à Folha. A SSP diz atuar também no combate a crimes cibernéticos, mas reconhece que o desafio cresce rapidamente.

Um retrato fragmentado da violência

O balanço de 2025 desenha um retrato fragmentado da violência em São Paulo: homicídios concentrados no interior, roubos dominando a capital e a região metropolitana, e um modelo de segurança em disputa.

No centro desse quadro está a cidade de São Paulo, onde, apesar da aliança política entre prefeitura e governo estadual, a insegurança se tornou uma experiência cotidiana que atravessa classes sociais e territórios. A violência patrimonial se espalha do centro à periferia e coloca em xeque a capacidade das políticas atuais de responder aos desafios da maior metrópole brasileira.

Com informações da Folha de S. Paulo

O post Roubos na capital de São Paulo superam em dobro a média paulista apareceu primeiro em Vermelho.