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RS: Quem preserva a memória dos flagelados?

Foto: Bloomberg/Carlos Macedo

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O que você sentiria ao perceber que perdeu todas as suas fotografias de família? Essa foi a pergunta que passou a inquietar um grupo de integrantes do Núcleo de Antropologia Visual (NAVISUAL) da UFRGS enquanto várias localidades do Rio Grande do Sul foram invadidas pelas águas que deixaram bairros inteiros submersos por até 30 dias, em maio de 2024. Como um espaço que tem as imagens como tema e instrumento de pesquisa, a sensibilidade e preocupação com as fotografias pessoais e de família foi imediata.

A preocupação com esses acervos não se deu por se tratar apenas de objetos de grande valor afetivo, que materializam uma memória ancestral e constitutiva das pessoas e famílias do estado. Mas porque, ainda que sejam parte de coleções privadas, essas fotografias também constituem fragmentos fundamentais da memória social e histórica da região. Embora ações voltadas à preservação de acervos institucionais já estivessem em curso naquele momento, acervos domésticos corriam o risco de desaparecer em silêncio.

Foi desse exercício, quase automático e involuntário, de se imaginar no lugar daquelas pessoas que estavam vivendo essa situação, que nasceu o Projeto Resgate de Memórias, do qual deriva a exposição Álbuns Submersos: Arquivos Emergentes, que passou a integrar o Dicionário de Favelas Marielle Franco. A exposição foi realizada na Sala Nogueira do Centro Cultural da UFRGS, em Porto Alegre, entre 22 de abril e 7 de maio de 2026.

O Projeto Resgate de Memórias foi se constituindo como um trabalho coletivo e interdisciplinar, que reuniu professoras, pesquisadoras, fotógrafas, estudantes e voluntários a partir de meados de 2024, e se estende até hoje tanto como um projeto de extensão quanto de pesquisa universitária. Nasceu com o propósito imediato de auxiliar no salvamento de fotografias das famílias abrigadas em uma escola na qual o NAVISUAL atuava em Porto Alegre, mas rapidamente ganhou uma dimensão inesperada quando o CARD elaborado para circulação entre voluntários do abrigo circulou além do grupo original. Em apenas um dia, foram recebidas pelo número de WhatsApp divulgado mais de quinhentas mensagens, vindas de diversas partes do Estado, solicitando ajuda.

A intervenção direta em cada um desses acervos logo se mostrou inviável, o que trouxe a necessidade de se criar e disseminar orientações simples e adaptadas para um público leigo, que teria que lidar com essas fotos em ambiente caseiro e sem ferramentas especializadas. Havia um conhecimento-chave que estava sendo procurado, mas estava pouco disponível. Com isso, ficou clara a necessidade de construção de novas maneiras de cuidar e olhar para as fotografias avariadas.

Com a orientação remota de uma equipe de especialistas de todo o Brasil e com o apoio de organizações como ApoyOnline e Instituto E se Fosse Você, foi montado um laboratório em uma sala do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFRGS, onde foram abrigados e tratados os acervos de algumas famílias. O trabalho no laboratório com esses acervos permitiu testes e adaptações das técnicas e ferramentas especializadas para procedimentos acessíveis. Lá, armazenamos, higienizamos e documentamos fotografias. O processo se dá primeiramente através do congelamento dos acervos em um freezer, que visa interromper a deterioração dos papéis e possibilitar o trabalho com o tempo necessário em cada álbum. Vamos descongelando e desmembrando os álbuns pouco a pouco, separando as fotografias de seus suportes físicos e umas das outras. Em seguida, fotografamos cada uma das imagens para termos versões digitais que guardem o estado em que elas se encontravam ao chegarem até nós, antes das lavagens. A lavagem é feita em bandejas com água e gotas de detergente neutro; vamos passando as fotos pelas bandejas e, por último, as colocamos para secar em cima de telas de mosquito forradas com papel toalha. Todo esse processo, que mistura equipamentos profissionais e improvisados, é realizado com o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), como luvas, máscaras, macacões ou capas de chuva que cobrem a pele e óculos que protejam os olhos, criando um ambiente especial para um núcleo de antropologia.

De lá para cá foram separadas, selecionadas, fotografadas, lavadas e recondicionadas milhares de fotografias. O número preciso ainda não está calculado, pois o trabalho segue em andamento, mas estimamos que já salvamos mais de 4.000 fotografias até o momento. Foram recebidas imagens em diferentes condições, que variam em estado de degradação e preservação de conteúdos visuais, cada uma demandando um olhar cuidadoso e atento às peculiaridades de seus estados. Tipos de papel e impressão fotográfica, forma de acondicionamento, tempo de permanência na água são alguns dos aspectos que têm influência direta no processo de degradação da imagem, o que é determinante para a sua maior ou menor resistência a todo o processo. Apesar do trabalho cuidadoso da equipe, que passou a se engajar de forma muito pessoal com os acervos e histórias familiares, perdas se mostraram inevitáveis; e cada uma delas veio, e ainda vem, com uma dose de frustração e tristeza. São incontáveis as fotografias em que não sobra nada além de um borrão colorido e abstrato, que não raramente se torna cativante por uma espécie de beleza melancólica. E é incontornável o incômodo da decisão sobre o que vale ainda ser salvo e o que deve ser descartado.

O contato intensivo com os materiais ao longo do projeto foi impondo diferentes questionamentos à equipe, sendo eles não apenas de ordem técnica, mas também ética. O que deve guardar uma foto para que ela seja digna de ser preservada? Como as marcas da enchente impactarão as famílias no retorno das fotos? As marcas devem ser eliminadas? Disfarçadas? Retocadas? O pode ser reconstituído ou ressignificado? Cada uma das fotos traz em si, em potência, uma rede de lembranças e afetos que podem ser acionados apenas por um pedaço de vestido que sobrou, pelo sorriso que não tem mais rosto, pelo balão ou o pedaço do bolo que restou do aniversário. São pequenas porções que ainda podem bastar. Mas isso, para quem não pertence àquele contexto, parece insondável. Quem, além das próprias famílias, é capaz de avaliar que fragmentos merecem ser preservados?

Para nós, é na relação com elas que calibramos nossa atuação. Mas trabalhamos essa relação a longo prazo, respeitando os diferentes tempos da reestruturação das vidas. Somos uma equipe muito pequena para o tamanho do projeto encarado, mas seguimos motivadas, desenvolvendo nossas pesquisas, enquanto seguimos trabalhando nos acervos. Nossa ação iniciou de forma emergencial, com o intuito de auxiliar as famílias atingidas a salvarem suas fotografias em meio ao desastre. Desenvolveu-se a partir da compreensão de que o desenvolvimento de metodologias específicas para situações emergenciais era algo de extrema importância no mundo em que vivemos. E hoje experimentamos possibilidades éticas e estéticas com essas imagens, tentando criar maneiras de escapar do luto e do trauma, frutos desse evento absurdo que vivemos há exatos dois anos. A exposição Álbuns Submersos: Arquivos Emergentes traduz visualmente esse percurso, apresentando fotografias, reflexões e práticas de intervenção.

Álbuns submersos – arquivos emergentes

Fotografias recuperadas pelo projeto Resgate de Memória expostas na Sala Nogueira, no Centro Cultural da UFRGS, para a exposição “Álbuns submersos: arquivos emergentes”.

“Álbuns submersos: arquivos emergentes” foi uma exposição realizada na Sala Nogueira do Centro Cultural da UFRGS, em Porto Alegre, entre 22 de abril e 7 de maio de 2026. A mostra apresentou ao público fotografias recuperadas das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024. Desenvolvida pelo projeto Resgate de Memória, vinculado ao Núcleo de Antropologia Visual da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o evento reuniu resultados de quase dois anos de trabalho de salvaguarda conduzido por uma equipe de voluntários, bolsistas, docentes, pesquisadores e discentes da UFRGS. Seu objetivo central foi contribuir para a preservação das memórias de famílias atingidas pelo desastre, por meio da recuperação de fotografias danificadas, ao mesmo tempo em que buscou evidenciar o valor desses acervos como registros históricos e sociais mais amplos. (Texto: Equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco[1]).

Sobre

Algumas das fotos recuperadas pelo projeto.

A exposição “Álbuns submersos: arquivos emergentes”, realizada no Centro Cultural da UFRGS, apresentou ao público um conjunto de fotografias recuperadas a partir das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. A mostra ocorreu na Sala Nogueira, entre os dias 22 de abril e 7 de maio de 2026, com visitação gratuita, reunindo imagens restauradas ao longo de quase dois anos de trabalho pelo projeto Resgate de Memória, vinculado ao Núcleo de Antropologia Visual da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A curadoria foi assinada por Cristina Lima, Fabiene Gama, Fernanda Rechenberg, Myra Gonçalves e Wanda Balbé.

A iniciativa que deu origem à mostra partiu de uma mobilização voluntária com o objetivo de contribuir com famílias afetadas pelas enchentes, por meio da recuperação de fotografias danificadas — compreendidas como suportes fundamentais de memória pessoal e coletiva. Após divulgação nas redes sociais, o projeto recebeu mais de mil solicitações em poucos dias, o que levou à formação de uma ampla rede de trabalho voluntário e à criação de um laboratório improvisado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UFRGS.

O processo de recuperação envolveu tanto técnicas físicas — como lavagem e secagem das imagens — quanto procedimentos digitais de recuperação, considerando diferentes níveis de degradação. Diante da alta demanda, o grupo também desenvolveu materiais informativos e ofereceu orientações para que as próprias famílias pudessem realizar parte do trabalho remotamente. Além disso, foram promovidos cursos de capacitação e realizados registros audiovisuais, incluindo minidocumentários e conversas com os participantes sobre seus álbuns e fotografias.

No âmbito expositivo, as imagens restauradas foram apresentadas em diálogo com experimentações visuais, como cianotipias e fotomontagens, propondo novas formas de interpretação e recriação das fotografias. A mostra também incorporou obras selecionadas da IV Reunião de Antropologia da Saúde, ampliando o escopo temático da exposição.

Ao longo do desenvolvimento do projeto, emergiram questões éticas e metodológicas relacionadas à intervenção nas imagens, como a decisão de preservar ou remover marcas da enchente, os critérios de descarte e o papel das narrativas familiares na reorganização dos álbuns. Essas reflexões evidenciaram a complexidade do trabalho de restauração, que envolve não apenas aspectos técnicos, mas também dimensões afetivas e simbólicas.

A experiência também trouxe à tona o problema da invisibilidade das fotografias familiares nas políticas formais de patrimônio, destacando sua relevância como registros históricos das cidades e de seus modos de vida. Nesse sentido, as imagens recuperadas não apenas reconstituem memórias individuais, mas também documentam contextos sociais marcados pelo desastre.

Por fim, o projeto desenvolveu uma metodologia própria de recuperação de fotografias danificadas, sistematizando conhecimentos técnicos e práticos adquiridos ao longo do processo. Esse acúmulo resultou na proposta de elaboração de um guia de referência para situações semelhantes, ampliando o alcance da iniciativa. Até o presente, o trabalho de salvaguarda segue em andamento, reafirmando o caráter contínuo e coletivo da preservação da memória social.

Processo de trabalho

O processo de trabalho do projeto Resgate de Memória caracterizou-se por sua construção coletiva, experimental e progressivamente estruturada diante da magnitude da demanda. A iniciativa teve início como uma ação voluntária, motivada pela intenção de auxiliar famílias atingidas pelas enchentes na recuperação de suas fotografias. Após a divulgação nas redes sociais, o grande volume de solicitações levou à formação de uma rede ampliada de colaboradores e à organização de um laboratório improvisado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCH/UFRGS), onde passaram a ser realizados os procedimentos técnicos de restauração.

A equipe registrou o processo de trabalho, que também virou parte da exposição que integra o conjunto de fotografias recuperadas pelo projeto.

As atividades envolveram diferentes etapas, como triagem, lavagem, secagem e recuperação digital das imagens, que apresentavam variados níveis de degradação. Diante da impossibilidade de atender integralmente à demanda, a equipe desenvolveu materiais orientadores e estratégias de acompanhamento remoto, permitindo que as próprias famílias participassem do processo de recuperação. Paralelamente, foram promovidos cursos abertos de capacitação, ampliando a difusão dos conhecimentos técnicos produzidos pelo grupo.

Ao longo do trabalho, o projeto também incorporou dimensões reflexivas e colaborativas, por meio de conversas com as famílias sobre a organização de seus álbuns e os significados atribuídos às imagens. Essas interações contribuíram para a emergência de questões éticas e metodológicas, como os critérios de intervenção nas fotografias — especialmente no que se refere à preservação ou remoção de marcas da enchente — e as decisões sobre descarte. Além disso, o processo foi registrado em materiais audiovisuais, incluindo minidocumentários, que documentaram tanto as técnicas empregadas quanto as narrativas dos participantes.

A experiência acumulada ao longo dessas atividades resultou na elaboração de uma metodologia própria de recuperação de imagens, baseada em conhecimentos técnicos e práticos desenvolvidos em contexto emergencial. Esse saber, em grande parte tácito, passou a ser sistematizado com vistas à criação de um guia de referência para a recuperação de fotografias em situações de desastre, evidenciando o caráter inovador e replicável do projeto.

Dilemas éticos, técnicos e conceituais

As reflexões levantadas pela equipe durante o processo de trabalho foram sintetizadas no quadro e apresentadas ao público.

O desenvolvimento do projeto foi acompanhado por uma série de dilemas éticos, técnicos e conceituais, decorrentes tanto das condições materiais das fotografias quanto de seus significados sociais e afetivos. Um dos principais debates dizia respeito aos limites da intervenção nas imagens: a equipe se deparou com a decisão de remover ou preservar as marcas deixadas pela enchente — como manchas, desbotamentos e deformações —, entendidas simultaneamente como danos e como vestígios históricos do desastre. Essa tensão evidenciou diferentes concepções sobre o que significa “recuperar” uma fotografia, colocando em questão a busca por uma suposta integridade original.

Outro ponto sensível envolveu os critérios de seleção e descarte das imagens, especialmente diante do grande volume de materiais recebidos e das distintas possibilidades de recuperação. As decisões técnicas, nesse contexto, não eram neutras, pois implicavam atribuir valor a determinados registros em detrimento de outros, muitas vezes sem acesso pleno às histórias familiares associadas a cada fotografia.

As interações com as famílias também trouxeram à tona desafios relacionados às narrativas construídas a partir dos álbuns. O processo de reorganização das imagens, frequentemente necessário após a desordem provocada pela enchente, mobilizou memórias, afetos e interpretações sobre o passado, colocando a equipe diante da necessidade de lidar com dimensões subjetivas que extrapolam o campo técnico. Nesse sentido, a restauração não se restringiu à materialidade das fotografias, mas envolveu também a mediação de sentidos e lembranças.

Por fim, o projeto suscitou uma reflexão mais ampla sobre o estatuto das fotografias familiares no âmbito do patrimônio. A constatação de que esses acervos raramente são reconhecidos como bens a serem preservados por políticas institucionais evidenciou sua vulnerabilidade em contextos de desastre. Ao mesmo tempo, reforçou-se a compreensão de que tais imagens constituem registros históricos relevantes, capazes de documentar transformações urbanas, modos de vida e experiências sociais, tensionando as fronteiras entre memória privada e patrimônio coletivo.


Ficha Técnica

Equipe do projeto Resgate de Memórias

Coordenação Geral: Fabiene Gama (PPGAS/UFRGS)

Comissão coordenadora: Cristina Lima (APOYOnline), Fernanda Rechenberg (PPGMusPa/UFRGS) e Myra Gonçalves (PPGAS/UFRGS)

Colaboração: Wanda Balbé (EACyP/UBA/Capes-MoveLaAmerica)

Estudantes: Bárbara Diehl – laboratório e pesquisa (graduanda em Ciências Sociais), Gabriela Gonçalves de Aguiar – recuperação digital (mestranda no PPGAS/UFRGS), Luana Bohrer Krob – laboratório e pesquisa (mestranda no PPGAS/IFRGS), Melissa Schuster – pesquisa, laboratório e recuperação digital (bolsista IC, Ciências Sociais/UFRGS).


Fotos

Visita guiada pela exposição com apresentação da Dra. Fabiene Gama, coordenadora do projeto.
As fotografias apresentam diferentes camadas de danificação.
Preservar ou não as marcas das águas que deixaram as fotografias submersas foi um dos dilemas enfrentados pela equipe durante o processo de restauro das fotografias.
Um mapa do Rio Grande do Sul com a extensão total das inundações juntos aos rios foi exibido. Junto a ele, alfinetes foram colocados nas localizações das cidades que participaram do projeto Resgate de Memória.
Colagens foram realizadas como parte das estratégias utilizadas na restauração das fotografias. | Vitor Martins/Wikifavelas.
Colagens foram realizadas como parte das estratégias utilizadas na restauração das fotografias. | Vitor Martins/Wikifavelas.
Fotografias recuperadas pelo projeto. | Vitor Martins/Wikifavelas.
Experimentos com cianotipia, processo de impressão fotográfica artesanal que utiliza luz solar e sais de ferro fotossensíveis para criar imagens em tons de azul ciano, foram realizados durante a recuperação das imagens | Vitor Martins/Wikifavelas.

Ver também

Enchentes no Rio Grande do Sul

Prevenção de Riscos Extremos em Favelas e Periferias (Artigo)

Como Combater Enchentes

Notas


  1. Este verbete foi produzido a partir da participação do pesquisador Vitor Martins na visita guiada da exposição “Álbuns submersos: arquivos emergentes”, com apresentação de Fabiene Gama, coordenadora do projeto Resgate de Memória. O texto foi construído a partir dos dados coletados pelo pesquisador durante a apresentação, além de informações contidas em redes sociais sobre a exposição.

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