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Safári da miséria: Doria propôs transformar flagelo da seca em atração turística

Em meio aos debates sobre a crise social provocada pela seca no Nordeste, um político de São Paulo apresenta uma proposta que deixa todos os participantes perplexos: transformar a dura realidade enfrentada pelos flagelados e retirantes da região em atração turística. Mais ainda: ao invés de gastar dinheiro em obras de irrigação e combate à seca, realocar os recursos para financiar esse “safári da miséria”.

De tão absurda, a história poderia sem um esquete de um programa humorístico ironizando a classe política. Mas o fato narrado acima realmente ocorreu. Em 30 de junho em 1987, durante um encontro com empresários e autoridades do Ceará, João Doria, então presidente da Embratur, propôs cortar as verbas empregadas no combate à seca e utilizar o dinheiro fomentar um “turismo do flagelo”, levando visitantes do Centro-Sul para conhecer “in loco” o drama vivido na região.

A seca de 1987

A década de 1980 foi um período bastante difícil para a população do Nordeste. Entre 1979 e 1984, a região foi afetada pela pior estiagem do século 20, que causou mais de 500 mil mortes por fome e desnutrição e obrigou inúmeros sertanejos a abandonarem suas terras.

Apenas três anos após o fim da grande seca, uma nova estiagem voltou a afligir a região. Uma reportagem do jornal Estado de S. Paulo, publicada em 3 de junho de 1987, evidencia o tamanho da crise social: “É grave a situação provocada pela seca na região Nordeste do País. Alguns governadores estão criando planos de emergência para socorrer os flagelados, que, desesperados, saqueiam estabelecimentos comerciais e municipais, na tentativa de matar a fome e alimentar suas famílias”.

O Brasil estava em meio ao processo de redemocratização, tendo seu primeiro presidente civil em décadas — José Sarney, alçado ao poder como vice de Tancredo Neves em uma eleição indireta. A despeito dos vários problemas que marcaram sua gestão, Sarney atuou de forma mais responsável nas ações de combate à seca em relação ao período da ditadura militar.

O governo federal havia ampliado em mais de 50% os investimentos em irrigação, o que ajudou a reduzir os impactos negativos da seca de 1987 sobre a produção local e atenuar o problema da carestia. O Congresso Nacional também criou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para avaliar os prejuízos e problemas causados pela estiagem e elaborar ações de emergência.

João Doria em 2017. Fotografia de Rovena Rosa.
Via Wikimedia Commons

A proposta de Doria

Alguns nomes do governo Sarney, entretanto, levaram muito a sério o chavão do empreendedorismo de palco sobre “transformar crise em oportunidade”. O empresário João Doria, filho do deputado João Agripino da Costa, havia sido indicado por Sarney para assumir a presidência da Empresa Brasileira de Turismo, ou Embratur — a estatal responsável por implementar projetos e ações para incremento do turismo no Brasil.

A gestão de Doria à frente da Embratur foi marcada por polêmicas. Seu gabinete criou campanhas que foram acusadas de promover o turismo sexual no Brasil, vinculando peças publicitárias com alto teor erótico e intensa exposição do corpo feminino no exterior. Doria também chegou a ser acusado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de desviar 6,5 milhões de cruzeiros dos cofres estatais entre os anos de 1987 e 1988. O presidente da Embratur foi posteriormente absolvido da acusação.

Em 30 de junho de 1987, durante uma visita a Fortaleza, capital do Ceará, Doria participou de um debate ao lado do governador do estado, Tasso Jereissati, e cerca de 100 empresários. O evento foi sediado no Salão de Convenções do Esplanada Praia Hotel.

Durante o debate, os jornalistas perguntaram a Doria se a Embratur tinha algum projeto para auxiliar a combater os efeitos da seca. Foi então que o presidente da estatal deu a sugestão que deixou o público local incrédulo.

Segunda as reportagens publicadas na ocasião, Doria teria dito que o governo deveria diminuir a verba gasta com irrigação e abandonar os projetos de combate à seca, realocando esses recursos na promoção do turismo na região. “A Caatinga nordestina poderia ser um ponto de visitação turística e gerar uma fonte de renda para a população sofrida da área”, afirmou Doria, complementando que “de cada 100 projetos turísticos na região, apenas quatro deixam de garantir retorno, enquanto de 100 projetos de irrigação, 75 dão resultados negativos e somente 25 asseguram rentabilidade”.

Questionado pelos jornalistas, Doria defendeu que sua ideia pretendia “transformar a seca num ponto positivo”. Segundo ele, a população do eixo Rio-São Paulo, que só conhecia a seca através da televisão e da imprensa, tinha o “direito de conhecer a riqueza e a pobreza do Brasil” e as excursões de turistas poderiam ajudar os moradores locais a, por exemplo, obter uma nova fonte de renda vendendo artesanato.

Doria chegou a traçar paralelos com o registro fotográfico e jornalístico do garimpos. “Em Serra Pelada, onde milhares de garimpeiros vivem em condições subumanas, essa garimpagem já se transformou em um ponto de visitação turística. Lá existem até especialistas em fotografia daqueles homens, transportando sacos de areia nas costas, em busca de ouro”, afirmou na ocasião o futuro governador de São Paulo.

Reações

A proposta causou indignação entre os nordestinos e reações contundentes da imprensa regional. A radialista Adisia Sá prometeu que iria formar um grupo de voluntários para receber no braço a primeira agência de viagens que chegasse em excursão para apreciar a seca e obrigá-los a retornar para São Paulo.

Questionado sobre o assunto, o ministro do interior, Joaquim Francisco Cavalcante, afirmou “preferir acreditar que essas declarações não existiram”. Tasso Jereissati chamou a declaração de “infeliz”, mas disse que as palavras de Doria foram deturpadas. Barros Pinho, secretário de Turismo do Ceará, foi a única autoridade cearense a concordar com a ideia, que classificou de “criativa”.

Em sua edição de outubro, a revista Agropecuária Tropical publicou texto criticando a possibilidade de que “a morte pela subnutrição, pela fome e sede dos nordestinos” se tornasse “mais uma opção para os turistas da região Centro-Sul do país”.

A revista também ironizou a ideia de realocar verbas para a irrigação em programas de fomento ao turismo, notando que “em vez de empregar o dinheiro do governo para financiar a produção, [Doria] empregaria tal verba para que os turistas, em ônibus refrigerados e regados a whisky, possam se distrair vendo as crianças esqueléticas tomando lama em lugar de água”.

Diante da repercussão negativa, a Embratur divulgou nota afirmando que Doria “não teve qualquer intenção de promover o desrespeito pelo ser humano ou a exploração da miséria ou do flagelo da seca”.

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