Ovacionado após realizar uma longa masterclass, Salomão Soares desce do palco e atende com carinho e paciência o público que acompanhou atento seus ensinamentos rítmicos e harmônicos por mais de uma hora. O silêncio, os olhares e as perguntas dos presentes nitidamente cativaram o pianista, que não se cansou de elogiar a plateia que lotou seu show na noite anterior, no Espaço 373, em Porto Alegre.
Era o domingo dia 28 de abril de 2024. Naquele momento, cidades no Vale do Taquari já começavam a sofrer os impactos de chuvas torrenciais. A capital gaúcha ainda estava ilesa e ninguém ali presente, naquele fim de tarde, poderia imaginar o que aconteceria na cidade nos dias seguintes.
Ano passado, o artista concebeu para Porto Alegre um espetáculo com uma seleção de suas composições autorais e também releituras de compositores brasileiros, como Chico Buarque, Tom Jobim, Sivuca e Nelson Cavaquinho. Quase um ano depois, um dos mais celebrados pianistas do Brasil volta à capital gaúcha para participar do Santander Poa Jazz Festival. O evento ocorre nos dias 7, 8 e 9 de março, no Centro de Eventos do Barra Shopping Sul. Salomão Soares se apresenta na noite do dia 8, ao lado da cantora, compositora e parceira de longa data, Vanessa Moreno.
Nascido e criado em Cruz do Espírito Santo, interior da Paraíba, e radicado em São Paulo, com apenas 34 anos, o pianista, arranjador e compositor é uma das grandes revelações da nova geração de instrumentistas brasileiros. Lançou seu primeiro álbum em 2018, Alegria de Matuto e, desde então, já compartilhou palco com gigantes da música brasileira como Hermeto Pascoal, Toninho Horta, Hamilton de Holanda, Filó Machado, Mônica Salmaso, Arismar do Espírito Santo, Toninho Ferragutti, entre muitos outros.

Depois de Alegria de Matuto, lançou o álbum Toninho Ferragutti & Salomão Soares (2018) e, no mesmo ano, Salomão Soares & Nivaldo Candido Duo. Em 2019, lançou Colorido Urbano – Salomão Soares Trio e Chão de Flutuar, com Vanessa Moreno. Em 2021 foi a vez de Yatra-Tá, novamente com Vanessa Moreno. Em agosto de 2023, ao lado de Guegué Medeiros, Salomão lançou Baião de Dois, disco que une o piano e a zabumba. Ainda em 2023, nasceu Interior, um álbum de piano solo. Seu último trabalho chama-se Espirais, lançado ano passado.
“O álbum, hoje em dia, é como se fosse um cartão de visita, um gancho para você vender shows, fazer turnês, vender algum projeto”, explica o pianista, refletindo sobre o novo cenário da música em tempos de streaming e no qual a venda de CDs (sem citar os LPs) é coisa do passado.
Na conversa com o Sul21, Salomão falou sobre o que mais gosta: da música brasileira. Mais ainda, para contar a influência e a presença da música nordestina em sua vida e obra. Vencedor do Prêmio MIMO Instrumental 2017, finalista do Piano Competition no Festival de Montreux 2017 (Suíça) e vencedor do Prêmio Novos Talentos do Festival Savassi 2018, o pianista de 34 anos é um entusiasta da riqueza musical do Brasil.
“Sempre faço o exercício comigo de ter a música em primeiro lugar, porque é fácil desvirtuar disso, é fácil se perder. Mas o que me inspira é isso, tentar manter a chama da música brasileira viva, do piano brasileiro, do piano nordestino, não deixar morrer essa influência tão forte em mim. Eu nasci lá e carregar essa coisa do Brasil pelo mundo afora, mas também no Brasil”, afirma.

Leia a entrevista na íntegra:
Sul21: A música tem muito ritmo, muita nota, muita harmonia, mas não é só isso e tem também outros elementos que são mais subjetivos. O que toca o coração do Salomão Soares?
Salomão: Caramba, que pergunta boa. Na arte, em geral, o que me toca são umas coisas mais puras, mais originais. Gosto de tentar acessar esses lugares. Por exemplo, quando a gente vai para o Luis Gonzaga, para essa música espontânea, o Hermeto Pascoal, essas pessoas em que a música está em primeiro plano. O Dominguinhos, o Sivuca, o Borghetti (Renato)… Quando a música está no estado puro, é a coisa que mais me emociona.
Tem muitos músicos que são habilidosos, rápidos, virtuosos e, às vezes, não está em favor da música. Mas quando a música está no estado puro, é o que me toca, é o que busco, é o que procuro ouvir. Gosto de ouvir o repente nordestino, uma coisa em que o cara está improvisando em tempo real, aqueles versos cheios de regras e tal, isso é uma coisa que me emociona.

Sul21: É isso que, de alguma forma, ao te emocionar, é também teu movimento para novas possibilidades, novos desafios?
Salomão: Sim, acho que é isso mesmo. Sempre faço o exercício comigo de ter a música em primeiro lugar, porque é fácil desvirtuar disso, é fácil se perder, o que é normal também. Mas o que me inspira é isso, tentar manter a chama da música brasileira viva, do piano brasileiro, do piano nordestino, não deixar morrer essa influência tão forte em mim, eu nasci lá, e carregar essa coisa do Brasil pelo mundo afora, mas também no Brasil.
Sul21: Como você avalia a atual cena da música instrumental brasileira? Não no sentido de qualidade, porque ela sempre teve qualidade, mas do ponto de vista comercial, de formação de público.
Salomão: A gente vive um momento de grandes músicos. O Pipoquinha (Michel, baixista), o Mehmari (André, pianista), o Hércules Gomes (pianista), o Amaro (Freitas, pianista), são muitos músicos maravilhosos.
A gente tem uma questão agora que é a música pop sertaneja, essa música midiática que tem muita força, muito apoio financeiro e ela consegue, de certa forma, não dar a possibilidade de pessoas, que não estão nos grandes centros, terem outras aberturas. Para mim, esse é o grande problema. Por exemplo, no interior da Paraíba, de onde eu venho, percebo que as pessoas não têm acesso à música instrumental como elas têm acesso à música sertaneja. Está desbalanceada essa distribuição e é uma coisa muito difícil da gente lutar para balancear.
É muita coisa envolvida, muito dinheiro, muita mídia, mas a gente faz o que pode, a gente usa as redes sociais a nosso favor, a gente usa as possibilidades que temos ao nosso alcance, mas temos uma grande questão a tentar melhorar que é dar acesso às pessoas. Essa é a grande dificuldade da música instrumental brasileira.
Sul21: Você é de uma geração em que a venda de LP e CD já não tem relevância na renda do artista. A maneira de lançar novas músicas e álbuns mudou muito. Antigamente, o artista ganhava pouco pelo álbum ou pelo CD e ganhava no show, mas tinha uma produção que vinha dessa base. Como você analisa atualmente o mercado fonográfico e as plataformas de streaming?
Salomão: Lancei meu primeiro disco em 2018 e já existia streaming. A remuneração dos streamings é muito ruim. Para ganhar dinheiro mesmo, você tem que ter muitos plays, o que é uma coisa muito difícil na música que a gente faz, porque é uma música que não toca em todo lugar. Então o retorno é muito pouco, no sentido financeiro, é mais um investimento de carreira. O álbum, hoje em dia, é como se fosse um cartão de visita, um gancho para você vender shows, fazer turnês, vender algum projeto.
Infelizmente, a remuneração é muito pouca e espero que isso melhore de alguma forma, sei lá… que alguém consiga trazer um retorno melhor para os artistas, porque é muito pouco. Então nem conto muito com essa parte financeira. É uma coisa que a gente gasta mesmo, mas pensando na carreira, é um investimento de carreira. Eu tento nem encanar com isso porque senão, você acaba não gravando.
Sul21: Criar público para depois vender show…
Salomão: Exatamente, criar situações para você trabalhar. Infelizmente não é mais pela parte financeira (gravar álbum). Já foi em algum tempo. Talvez, hoje em dia, artistas grandes ainda tenham isso. Em outros tempos foi assim, uma gravadora contratava, pagava cachê, gravava e ela vendia e fazia a coisa acontecer. Hoje em dia isso diminuiu muito. Grandes gravadoras não fazem mais isso e, no caso da música instrumental, 99% é investimento pensando na carreira mesmo.
Sul21: No álbum “Interior” há uma música em homenagem ao Guimarães Rosa, outra música em homenagem ao Ariano Suassuna, uma afirmação da tua nordestinidade. Como tu defines o piano brasileiro, num país tão vasto? O que diferencia o piano brasileiro de outros grandes pianistas estrangeiros?
Salomão: Boa pergunta. Muitos pianistas contribuíram para o piano brasileiro, como o Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Laércio de Freitas, Amilton Godoy, João Donato, César Camargo Mariano. Todas essas pessoas são muito importantes para o que eu estou fazendo hoje em dia, estou tentando continuar essa história. Esses caras lá atrás… sempre fico pensando que deve ter sido muito difícil para eles assumir essa brasilidade e construir essa coisa que é o piano brasileiro e que existe por causa desses caras. Obviamente estou esquecendo algumas pessoas, mas esses caras foram um alicerce muito forte.
E a minha ideia, para ser bem sincero, tento trazer a coisa do Nordeste. Gosto muito do piano brasileiro que a gente conhece, que é o samba jazz, o samba, de modo geral, mas tento trazer o piano nordestino, a música nordestina, o frevo, o forró, o baião, para dentro desse negócio. Tentar valorizar mais e enaltecer mais a música brasileira. Uma das coisas mais bonitas que a gente tem no Brasil, é a música brasileira.
Sul21: Como você se vê nesse papel de referência atualmente? Aquele Salomão, novo, que saiu do interior da Paraíba e hoje está num patamar alto, junto com outros pianistas e instrumentistas de uma nova geração?
Salomão: O que me deixa feliz depois de fazer um show e ir para o hotel dormir, é ver que a música brasileira tem público. O que me deixa feliz não é nem me ver num lugar… o que me deixa feliz é ver que essa batalha que a gente vem tendo, de remar contra a maré, fazer uma música que é alternativa, pensando no que está na mídia, fico feliz de ver que tem público, tem pessoas atenciosas, pessoas que estão ali para te ouvir mesmo, pessoas que estão ali por causa da música brasileira.
Então, fico feliz em saber que estou representando uma música, uma arte, uma visão e que têm pessoas para ouvir. Isso, para mim, é o mais primoroso e não importa se são 10 pessoas ou se são mil, não importa. Fico feliz de saber que têm pessoas que estão com olhos carinhosos e atenciosos para a música brasileira. O grande presente mesmo é sair de casa, fazer toda essa batalha de estudar, de compor, de investir num disco e chegar num lugar com um público caloroso, atencioso, silêncio total.

Sul21: Você está falando num respeito com a sua música, seu trabalho, das pessoas estarem ali para realmente ouvir música. No Brasil, com o histórico de pobreza, de dificuldade de acesso à cultura, isso entra na sua música quando pensa em compor ou são coisas separadas, a sua interpretação da vida social do Brasil e a música?
Salomão: Não tem como não entrar, não tem como ser separado. Vim de uma família muito simples, no interior da Paraíba. O forró, a música do Nordeste, foi meu sustento num período difícil, como ela continua sendo hoje em dia. Então não tem como a sociedade, o que a gente estava vivendo, a minha família ali no interior… não tem como isso não estar na minha música. Não tem como ser descolado, isso está junto. Vivo da arte, estou sempre pensando na arte, em como posso melhorar, como posso acessar mais pessoas, de um jeito que faça sentido para mim. Não tem como separar o Brasil da música brasileira.
Sul21: Quando você olha para frente, tem algum lugar em que queira chegar?
Salomão: Não penso muito nisso não. O que penso é em poder levar a música brasileira sempre que puder. Essa é minha parada e já entendi que é quase uma missão. Tenho a possibilidade e a oportunidade de carregar a música brasileira comigo, e a música do meu lugar também. É um privilégio, na real. Consigo viajar o mundo, com a minha música, é um privilégio. Talvez o lugar que eu mais pensasse, seja esse em que estou agora. Se me perguntasse isso a dez anos atrás, eu ia dizer assim: “Cara, eu quero viajar fazendo a minha música”. É o que eu faço agora.
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