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Sánchez acusa extrema direita de explorar crise migratória em Ceuta

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, acusou neste sábado (1º) a extrema direita e governos europeus de explorarem a crise migratória em Ceuta e reagirem ao episódio com “preconceito, notícias falsas, ignorância ou interesse político”.

A resposta ocorre mesmo após o governo espanhol anunciar que retomou o controle da fronteira com Marrocos e que praticamente todos os migrantes que entraram no enclave já retornaram ao país africano. 

O número de mortos, porém, subiu para 67, entre vítimas de afogamentos e de tumultos durante as tentativas de atravessar a fronteira.

Entre 50 mil e 60 mil pessoas chegaram a Ceuta entre quinta (30) e sexta-feira (31), desencadeando uma crise humanitária e uma disputa política que rapidamente ultrapassou as fronteiras espanholas.

Em carta enviada à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, Sánchez rebateu as ameaças feitas contra a Espanha e questionou a própria base utilizada por governos conservadores para relacionar o episódio ao espaço Schengen.

O espaço Schengen reúne países europeus que aboliram, em condições normais, os controles de passaporte em suas fronteiras internas. 

Na prática, uma pessoa que entra regularmente nessa área pode circular entre a maior parte dos países da União Europeia sem passar por controles fronteiriços a cada mudança de país.

Ceuta, porém, possui um regime especial. Embora seja território espanhol, não integra plenamente o espaço Schengen: quem deixa o enclave no Norte da África em direção à Espanha continental já precisa passar por controle de fronteira. 

É justamente esse ponto que Sánchez utiliza para rebater o argumento de que a chegada dos migrantes a Ceuta permitiria sua circulação automática pelo restante da Europa.

Sánchez afirmou ainda que a Espanha possui “a segunda fronteira mais segura da União Europeia, apesar de ser o único [país] que tem uma fronteira terrestre com a África”. O premiê também lembrou, com base em dados da Frontex — agência responsável pelo controle das fronteiras externas do bloco —, que a Itália registra o dobro de entradas irregulares da Espanha.

A resposta mira diretamente os governos que passaram a relacionar a crise de Ceuta ao espaço Schengen. A Itália foi a primeira a defender medidas contra a Espanha, enquanto Finlândia, França e Portugal também invocaram o acordo europeu ao reagir à chegada dos migrantes.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, foi uma das primeiras dirigentes a ameaçar medidas relacionadas a Schengen. A Finlândia acusou a Espanha de ter “falhado totalmente na proteção da fronteira externa de Schengen”, enquanto a França anunciou o reforço dos controles na fronteira espanhola.

Extrema direita transforma Ceuta em apelo eleitoral

A reação de Sánchez ocorre depois de a crise se tornar rapidamente uma bandeira para partidos de extrema direita, que passaram a apresentar as travessias como resultado das políticas migratórias mais abertas adotadas pelo governo espanhol.

Na Espanha, o líder do Vox, Santiago Abascal, classificou o episódio como uma “invasão” e responsabilizou Sánchez. Na França, Marine Le Pen defendeu restrições à livre circulação. Na Alemanha, Alice Weidel, da AfD, evocou a crise migratória de 2015 para advertir que seu país poderia se tornar o principal destino dos migrantes.

Meloni, por sua vez, passou a liderar uma articulação com a Dinamarca que reuniu 22 países da União Europeia em torno de uma carta pelo endurecimento das políticas migratórias.

O documento defende o reforço das fronteiras externas da UE e o combate à imigração irregular, além de criticar políticas que poderiam funcionar como “fatores de chamada”, citando especificamente a regularização de grandes contingentes de migrantes.

A formulação coloca sob pressão diretamente o governo Sánchez, que promoveu a regularização de centenas de milhares de pessoas em situação irregular e sustenta que a imigração também contribui para o desenvolvimento da economia espanhola.

A disputa expõe uma das principais linhas de confronto político abertas pela crise de Ceuta: enquanto a extrema direita tenta apresentar a chegada em massa como demonstração do fracasso das políticas migratórias espanholas, Sánchez acusa seus adversários de utilizarem o episódio para alimentar preconceitos e obter ganhos políticos.

Governo diz ter controlado crise em menos de 48 horas

O governo espanhol também tenta responder à ofensiva política apresentando como prova de sua capacidade de gestão a rápida redução das travessias.

Sánchez afirmou que, em menos de 48 horas, foi “totalmente restabelecido o controle da fronteira”, prestada assistência humanitária e realizado o retorno de praticamente todos os migrantes que haviam entrado irregularmente.

O ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, endureceu ainda mais a resposta e acusou alguns países europeus de demonstrarem “ignorância e má-fé”.

“Revertemos a situação que aconteceu em 30 de julho por nós próprios, em colaboração com Marrocos”, afirmou.

A Espanha também anunciou a instalação de uma barreira de contenção de 500 metros junto ao quebra-mar. Neste sábado, pequenos grupos ainda tentavam chegar a Ceuta a nado, mas eram interceptados pelas forças de segurança.

A redução das travessias contrasta com o agravamento do balanço humano. O número de mortos chegou a 67, principalmente por afogamento ou em tumultos durante as tentativas de atravessar a barreira entre Marrocos e o território espanhol.

Sánchez cobra solidariedade europeia

Ao responder às críticas, Sánchez também reivindicou a atuação espanhola em crises migratórias enfrentadas anteriormente por outros integrantes da União Europeia.

O premiê lembrou que a Espanha recebeu migrantes que chegaram ao continente pela Bielorrússia em 2021 e pela ilha italiana de Lampedusa em 2023.

Para Madri, algumas das respostas à crise de Ceuta são contrárias não apenas ao princípio de solidariedade entre os países da União Europeia, mas também ao direito internacional e ao direito humanitário.

A discussão deve chegar agora formalmente às instituições europeias. Uma reunião do mecanismo de resposta rápida da União Europeia ocorre neste sábado em nível técnico, enquanto uma reunião política está prevista para segunda-feira.

A crise em Ceuta também foi rapidamente explorada por Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou a chegada dos migrantes a Ceuta como uma “invasão”, enquanto seu governo responsabilizou diretamente as políticas do premiê espanhol pela crise.

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