O homem estalou a língua diante do balcão de frios, olha para o bloco de queijo muçarela na bandeja de isopor e depois para o rapaz da balança. O sujeito não parece estar com raiva, apenas uma exaustão conformada domina o rosto. “Não dá mais”, ele diz para ninguém em especial, enquanto devolve a bandeja ao laticínio. A frase fica no meio do ruído do carrinho de compras e o bipe do caixa, não abre uma discussão sobre a meta de inflação ou a balança comercial. Ela funciona como um diagnóstico imediato, quase biológico: a vida física aperta e é o alarme da carteira que avisa; em vez de virar queixa econômica, se apresenta como urgência moral.
Até aqui, presenciei, de fato, a história. No restante, uso a imaginação:
Na saída do supermercado, empurrando o carrinho pela metade, ele resume o século em sete palavras: “No meu tempo, as coisas faziam sentido”. É uma frase banal, dessas que se ouvem três vezes por dia no ponto de ônibus ou na mesa do almoço de domingo. Quem a pronuncia raramente está pensando em índices de preços de duas décadas atrás, é uma reclamação sobre o hoje.

(Foto: Bruno Peres/Agência Brasil)
O que essa história que presenciei numa quarta de manhã no mercado revela? A convicção de que o presente é um território hostil e desordenado. A lembrança acionada ali já vem limpa, escovada, sem o registro do desemprego da juventude, das crises antigas ou da falta de saneamento. É a memória editada para doer menos, onde o passado não é uma época histórica, mas um abrigo sem conflitos, romântico.
É dessa costura de pequenas frustrações diárias e projeções fantasiosas do passado que nasce a saudade de um país que nunca existiu. A melancolia coletiva não cabe nos índices, nas tabelas de crescimento ou na experiência real de quem a sente; ela se impõe como uma pura sensação de perda física. O país lembrado ganha contornos nítidos e cores vibrantes justamente porque foi fabricado depois, no laboratório do ressentimento contemporâneo.
Um território mítico sem lastro histórico, uma moldura dourada onde a autoridade era respeitada, as famílias eram sólidas e o futuro parecia uma linha reta: o avesso do presente, em que o conservadorismo encontra matéria-prima a cada manhã.
O país imaginado não precisa ter existido. Basta que pareça ter sido roubado. Essa é a engrenagem que move o debate público fora dos palácios: a convicção profunda de que uma riqueza imaterial – a segurança, a decência, a previsibilidade – foi usurpada por terceiros. Para que o ressentimento funcione e ganhe tração social, ele precisa urgentemente de um autor, de um culpado visível.
Alguém, diz o homem do supermercado, tomou a calçada das crianças, confiscou o respeito devido aos mais velhos, subverteu a ordem natural das coisas e transformou a rotina honesta em uma eterna desvantagem. Esse alguém representa o “sistema” que destrói moralmente, antes da economia, a nossa sociedade.
A extrema direita contemporânea reconhece o incômodo, nomeia quem o causa e delimita o que foi destruído. O que era difuso ganha contorno: alvos frágeis e visíveis. O ressentimento faz o restante do serviço.
No vídeo que dura menos de um minuto, a saudade vira uma acusação formal. A voz na tela não discute meta fiscal nem prioridade orçamentária; ela valida o sentimento de humilhação do trabalhador e promete devolver a dignidade que o cotidiano vai esfarelando. O discurso político converte a perda em promessa de restituição.
Por isso, a eleição de 2026 já começou a circular de mão em mão muito antes que os tribunais aprovassem o calendário oficial. A campanha institucional, com seus palanques e jingles, é apenas o desfecho tardio de um processo que corre diariamente nas conversas domésticas sobre desordem e decadência. As pesquisas de opinião, que apontam um empate técnico persistente, a oscilação de Lula na margem de erro e o teste de nomes como o de Flávio Bolsonaro no tabuleiro, entram na vida das pessoas fora do alcance dos dados da ciência política, como o termômetro de um país cindido, que parou de ventilar e assiste, tenso, ao próprio impasse.
Nesse cenário, a ausência física de Jair Bolsonaro das urnas, determinada pela inelegibilidade, não significa o seu desaparecimento do imaginário que ele ajudou a consolidar. O corpo interditado gera um desafio inédito para a engenharia eleitoral da direita: fazer a força do nome operar por procuração, sem a presença física da assinatura na cédula.
Testam-se sobrenomes, heranças políticas e bênçãos públicas na tentativa de transferir o espólio. A operação mexe com uma imagem central para o eleitorado que se sente órfão: o voto no ausente, o apoio ao líder cuja sombra projetada na parede ainda parece mais real e protetora do que qualquer candidato de carne e osso no palanque.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva opera num registro que o ressentimento não aceita como moeda: o dado verificável. O desemprego recua e a renda média se recompõe. O sujeito que assina o reajuste do aluguel ou passa o cartão na farmácia sente outra coisa: a sensação de que a melhora existe e atenua o passado sem blindar o futuro. Nesse intervalo estreito entre alívio e estabilidade, o governo não encontrou ainda uma linguagem capaz de transformar indicador em horizonte.
O nó cultural desta eleição está nessa assimetria de linguagens. Diante do balcão, uma parcela expressiva do eleitorado prefere a solidez de uma lembrança falsa à fragilidade de uma melhora incompleta. A tese política se desfaz diante da psicologia das ruas: a promessa de um amanhã um pouco melhor exige paciência, concessões e o convívio com a frustração, enquanto o passado mitificado oferece o conforto imediato de uma ordem perfeita que já estaria pronta, bastando apenas resgatá-la. A direita se expande e cria raízes profundas quando consegue a proeza de fazer esse passado inventado parecer muito mais concreto, palpável e desejável do que qualquer futuro possível.
Na solidão da cabine eleitoral, diante do painel que pisca, talvez muita gente não esteja escolhendo apenas um governante para os próximos quatro anos. Estará procurando, no fundo, o abrigo de uma ordem que só ficou bonita depois de perdida. E o senhor que desistiu de comprar o queijo, naquela manhã esquecível de maio, volta na minha mente em uma questão: quem consegue derrotar uma saudade dessas apresentando apenas números bons?
(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.
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