
O mais recente relatório global da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), publicado neste ano, expõe um cenário que se agrava: 117,2 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas em razão de guerras, perseguições ou violência. Trata-se do segundo maior número já registrado de deslocamentos forçados no mundo, resultado da persistência de conflitos armados e da instabilidade política em diversas regiões.
A evolução histórica mostra que a busca por refúgios se intensificou ao longo da última década. Em 2015, o mundo contabilizava cerca de 59,5 milhões de deslocados. Em 2020, já eram 82,4 milhões. Em 2023, o número saltou para 120 milhões, e em 2024 atingiu 123,2 milhões, o equivalente a uma pessoa deslocada para cada 67 habitantes do planeta. Neste ano, o total recuou ligeiramente para 117,2 milhões, mas ainda representa um patamar alarmante e sem precedentes.
A sobreposição entre guerra e clima
O relatório destaca que sete em cada dez refugiados vivem em regiões expostas a riscos climáticos severos. Ou seja, mais de 86 milhões de pessoas, além de fugirem da guerra e da perseguição, enfrentam enchentes, secas extremas, ondas de calor e outros eventos ambientais que tornam sua sobrevivência ainda mais difícil. A sobreposição entre violência humana e crise climática é hoje uma das chagas da mobilidade forçada.
Nos últimos dez anos, os desastres ambientais provocaram 250 milhões de deslocamentos internos em todo o planeta. Em média, 70 mil pessoas por dia foram obrigadas a fugir de tempestades, incêndios florestais e inundações devastadoras. Embora esses números não se somem diretamente ao total de refugiados por guerra e perseguição, eles revelam a magnitude da crise ambiental como motor de deslocamentos humanos.
Filippo Grandi, Alto Comissário da ONU para Refugiados, declara no relatório que: “Proteger pessoas obrigadas a fugir é cada vez mais um desafio climático, além de humanitário. O mundo precisa agir de forma coordenada para garantir que ninguém seja deixado para trás — seja pelo fogo, pela água ou pela violência humana.”
Impactos sociais e o caso brasileiro
Além do Brasil, a lista de países mais afetados inclui nações como Camarões, Chade, Sudão do Sul, Nigéria, Índia e Iraque – do Sul Global. Muitos deles acumulam a dupla condição de receber refugiados e sofrer intensamente os impactos das mudanças climáticas. Projeções da ACNUR indicam que até 2040 o número de países sob risco climático extremo pode saltar de três para 65, abrangendo 45% dos refugiados por conflitos no mundo.
O relatório também alerta que, nos próximos 25 anos, áreas tradicionalmente usadas como campos de refugiados poderão enfrentar até 200 dias de onde calor por ano, tornando-se inabitáveis e aprofundando o ciclo do deslocamento. “A combinação entre conflitos armados, instabilidade e emergências climáticas agrava pobreza, insegurança alimentar e exclusão social. As crianças e jovens são os mais afetados, pois enfrentam barreiras ainda maiores para acessar educação e saúde”, enfatiza Raouf Mazou, assistente do Alto Comissário para Operações da ACNUR.
O Brasil aparece em destaque no documento. Enchentes históricas nas regiões Sul e Norte já provocaram deslocamento de famílias, e a tendência é de crescimento dos deslocamentos ambientais tanto internamente quanto entre países da América do Sul.
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