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Sim, ainda estamos aqui! (por Milton Pomar)

Milton Pomar (*)

Muita gente boa ficou assustada com os fatos relatados na denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR), dos 34 integrantes da “alta administração federal” que conspiraram para dar um Golpe de Estado no Brasil no final de 2022, que resultou na destruição dos prédios do Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional e Palácio do Planalto, no dia 8 de janeiro de 2023. Assustaram-se principalmente com a intenção de alguns deles de assassinarem o vice e o presidente da República recém-eleitos e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Agora o mundo sabe que foi real a tentativa de golpe no Brasil, logo após as eleições. E que só não se consumou por temor do então presidente da República e principal líder da articulação golpista, que recuou na “hora H” por não ter conseguido apoio dos generais e políticos com os quais contava. 

Chama a atenção a covardia generalizada dos golpistas – nenhum deles assume o que tentou fazer. Talvez sejam condenados por seus crimes, como o foram os comandantes militares na Argentina que lideraram o golpe naquele país, em 1976, e a devastação humana que promoveram, durante a ditadura: dezenas de milhares de prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos de opositores políticos, martírio que se prolongou até o final de 1983.

Coincidiu a denúncia pela PGR dos golpistas de 2022 com a denúncia mundial da ditadura militar no Brasil (implantada pelo golpe de 1964 e que durou até 1985) através do premiado “Ainda estouaqui”, filme brasileiro que está sendo assistido em dezenas de países e que revela quão covardes (e cruéis) são regimes políticos comandados por militares na sequência de tomada do poder por golpes como o que tentaram, logo após a derrota eleitoral do presidente em 2022.  

Indicado para o Oscar em três categorias, o filme “Ainda Estou Aqui” ganha de longe da denúncia da PGR como a pior notícia do ano para a quadrilha golpista, porque conta a história de Rubens Paiva, “desaparecido” durante a ditadura no Brasil – crime contra a Humanidade, praticado em larga escala pelos militares na ditadura de 1976-1983 na Argentina: detinham pessoas consideradas inimigas, as torturavam, assassinavam, e depois jogavam seus corpos em alto-mar (no Brasil, vários tiveram seus corpos incinerados, outros foram enterrados como indigentes, como se não se soubesse quem eram, para que nunca fossem encontrados). 

A covardia dos golpistas é tão grande que já estão em campanha antecipada por anistia para eles, como a que conseguiram em 1979 os militares e policiais torturadores e assassinos, no início do governo do general Figueiredo. O mesmo Figueiredo que foi autorizado, em 1º de abril de 1974, pelo general Geisel, então presidente da República, a decidir quem deveria ser assassinado entre as lideranças de oposição à ditadura que fossem detidas. Ou seja, o que sempre foi denunciado (as torturas, assassinatos e desaparecimentos de opositores políticos durante a ditadura eram realizadas a partir do comando direto da presidência da República) foi comprovado há pouco tempo, graças a documentos do governo dos Estados Unidos cujo prazo de sigilo expirou e por isso passaram a domínio público. 

Figueiredo estava na reunião com Geisel e outros generais, em 31 de março de 1974, quando trataram da continuidade do assassinato de opositores – no governo anterior, foram mortas 104 pessoas pela “inteligência do Exército”, de acordo com o general Milton Tavares de Souza, do Centro de Inteligência do Exército. No dia seguinte à reunião, Geisel teria concordado que continuasse a matança, mas ordenou que Figueiredo deveria autorizar quem seria assassinado. Essa decisão de continuar assassinando quem fosse contrário à ditadura teria resultado em mais 89 mortes comprovadas. 

Por isso, quando foram “suicidados” Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, em outubro de 1975 e janeiro de 1976, Geisel demitiu o então comandante do II Exército – não pelos assassinatos em si, mas por não ter obedecido. E pela mesma lógica de comando, após o Massacre da Lapa, em 16 de dezembro de 1976, no qual foram metralhados dentro de casa, os dirigentes do PCdoB Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, Geisel manteve o comandante do II Exército. 

“Ainda Estou Aqui” trata desse período de horror, cometido por servidores públicos federais, hoje aposentados, ou com familiares recebendo pensão após a sua morte, que articularam a tomada e o exercício do poder, detendo, torturando, matando, “desaparecendo” ou condenando à prisão quem lhes fizesse oposição, durante os 21 anos que durou essa tragédia no Brasil. Tragédia continental, porque no mesmo período (anos 1960/1980) houve ditaduras em todos os países latino-americanos,  patrocinadas, de todas as formas, por governos democratas e republicanos dos Estados Unidos. 

Por isso, ganham mais importância ainda as premiações recebidas pelo filme “Ainda Estou Aqui”, destaque agora para as três categorias do Oscar no qual foi indicado, que, se ganhar também, será fantástico. E, se não ganhar, será fantástico igual, porque ele estará lá no dia 2 de março, o mundo inteiro assistindo à premiação e sabendo, graças ao filme, do que são capazes de fazer quem toma o poder político pela força, através de golpes militares, como o de 1964 e quase o de 2022/2023.

Sim, ainda estamos aqui! Nós, que sobrevivemos ao massacre promovido pela ditadura no Brasil, acompanharemos atentos o julgamento dos golpistas, para que acabe de vez a impunidade dos criminosos da ditadura, que alimentou a nova tentativa de golpe. Impunidade da qual o capitão se beneficia há 36 anos, expulso do Exército, mas premiado com aposentadoria. Seguiu impune, mesmo após declarar na TV que é favorável à tortura (crime hediondo) e que o então presidente da República Fernando Henrique Cardoso deveria ser “fuzilado” – só manteve o mandato parlamentar graças a Michel Temer, presidente da Câmara dos Deputados na época. 

Sim, na torcida pelo Oscar e por outros prêmios para “Ainda Estou Aqui”, e pela condenação de todos os golpistas, de qualquer época. 

(*) Professor, geógrafo, mestre em “Estado, Governo e Políticas Públicas”. Autor do livro “O sucesso da China socialista”.

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