Manifestantes pró-Israel em Nova York protestaram na quinta-feira (14/05) em frente ao escritório do jornal New York Times (NYT) em Manhattan contra uma coluna do jornalista Nick Kristof que denuncia casos de abuso sexual sistemático de prisioneiros palestinos por parte de soldados israelenses.
Cerca de 200 pessoas se reuniram na calçada do prédio. O protesto foi organizado pelo grupo End Jew Hatred (Acabar com o ódio aos judeus), movimento que defende atos pela “libertação judaica de todas as formas de opressão e discriminação”, com intuito de “eliminar o antissemitismo da cultura ocidental”. Outros grupos também se juntaram a eles.
Na quinta, o gabinete do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, em conjunto com o do ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, informou que iria processar o jornal, ordenando a abertura de uma ação judicial por difamação contra o jornal The New York Times.
Em nota publicada nas redes sociais, a porta-voz do NYT, Danielle Rhoades Ha, declarou que “essa ameaça, similar a realizada no ano passado, é parte de um manual político bem conhecido que visa prejudicar o jornalismo independente e sufocar o jornalismo que não se encaixa em uma narrativa específica. Qualquer ação judicial nesse sentido seria infundada”.
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— NYTimes Communications (@NYTimesPR) May 14, 2026
‘O silêncio que acompanha o estupro de palestinos’
O artigo de opinião de Nick Kristof, que foi publicado no New York Times na segunda-feira (11/05), é baseado em depoimentos de 14 homens e mulheres na Cisjordânia ocupada por Israel, que sofreram agressões sexuais por colonos ou soldados israelenses.
“No entanto, em entrevistas comoventes, palestinos me relataram um padrão de violência sexual generalizada por parte de Israel contra homens, mulheres e até crianças — cometida por soldados, colonos, interrogadores da agência de segurança interna Shin Bet e, sobretudo, por guardas prisionais”, denuncia o texto de Kristof.
Em sua investigação, ele informa que entrou em contato com o Ministério da Segurança Nacional de Israel, que se recusou a comentar. “O serviço penitenciário ‘rejeita categoricamente as alegações’ de abuso sexual”, disse um porta-voz que pediu para não ser identificado, como também se recusou a dizer se algum funcionário do sistema prisional já foi demitido ou processado por agressões sexuais.
Por sua vez, apesar de o jornalista reiterar que “não há provas de que os líderes israelenses ordenem estupros”, ele cita tanto o relatório da ONU do ano passado, que expõe o “uso sistemático de violência sexual, reprodutiva e outras formas de violência de gênero em Israel desde outubro de 2023”, quanto um relatório divulgado no mês passado pelo Euro-Med Human Rights Monitor, um grupo de defesa dos direitos humanos com sede em Genebra, que concluiu que Israel emprega “violência sexual sistemática” que é “amplamente praticada como parte de uma política estatal organizada”.
“Mas, nos últimos anos, eles construíram um aparato de segurança no qual a violência sexual se tornou um dos ‘procedimentos operacionais padrão’ de Israel e ‘um elemento importante no tratamento desumano dos palestinos’”, explicou na coluna.
Para exemplificar, Kristof apresenta o depoimento do jornalista Sami al-Sai, que foi preso em 2024 pelas forças israelenses. Segundo seu relato, enquanto era levado para uma cela, um grupo de guardas o jogou no chão.
“Todos eles estavam me batendo, e um deles pisou na minha cabeça e no meu pescoço”, disse ele. “Alguém abaixou minhas calças. Abaixaram minha cueca.” E então um dos guardas sacou um bastão de borracha usado para bater em prisioneiros.
“Eles estavam tentando enfiar aquilo à força no meu reto, e eu me preparava para impedir, mas não conseguia”, disse ele, segundo o artigo do NYT. “Foi muito doloroso.” Os guardas estavam rindo dele, contou. “Então ouvi alguém dizer: ‘Me deem as cenouras’”, lembrou, acrescentando que então usaram uma cenoura. “Foi extremamente doloroso”, disse. “Eu estava rezando para morrer.”
Relatórios de violência sexual e arquivamento do caso Sde Teiman
Em março de 2026, o Procurador-Geral Militar de Israel, major-general Itai Ofir, retirou todas as acusações contra cinco soldados acusados de abusar sexualmente de um detento palestino em um centro de detenção militar, alegando dificuldades com as provas, informaram veículos de imprensa israelenses.
Mais de um ano após a divulgação, pela televisão israelense, de imagens do estupro em Sde Teiman — uma instalação no deserto que abriga palestinos detidos durante a guerra genocida de Israel em Gaza —, o caso foi arquivado. Com a decisão de Ofir, os soldados foram liberados para retomar suas atividades normalmente.
A violência ocorrida em 5 de julho de 2024 resultou na internação do detento em um hospital. Um médico da instituição, o professor Yoel Donchin, disse ao jornal israelense Haaretz que ficou tão chocado com o estado do homem que inicialmente presumiu que se tratava de um ato de um grupo armado rival.
A organização não governamental de defesa dos direitos da criança no mundo, Save the Children, realizou uma pesquisa no ano passado com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos que estiveram detidos em centros de detenção israelenses. De acordo com os dados, mais da metade relatou ter presenciado ou sofrido violência sexual. A Save the Children afirmou que “o número real provavelmente é maior, pois o estigma impede que alguns reconheçam o que lhes aconteceu”.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, organização norte-americana, também entrevistou 59 jornalistas palestinos que foram libertados pelas autoridades israelenses após os ataques de 7 de outubro. Três por cento disseram ter sido estuprados e 29 por cento disseram ter sofrido outras formas de violência sexual.
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