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“Só falta a posse”: famílias celebram desapropriação após 14 anos de luta em Santa Catarina

Por Gabriela Thomaz
Da Página do MST

Foto: MST-SC

A história do pré-assentamento Egídio Brunetto começa ainda em outra região do estado. As 17 famílias que hoje vivem na área já estiveram acampadas em Major Vieira, no Planalto Norte, em uma área da União explorada há décadas por uma madeireira.

Segundo Claudemir Gollo, liderança local, foi a própria madeireira Beira-Rio que articulou a transferência das famílias para a fazenda Fontana, em Celso Ramos, ao propor uma permuta de terras com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A negociação, no entanto, não avançou.

Sem acordo, o Incra deu andamento ao processo de desapropriação por interesse social, mas a batalha é longa e dura. Em 2022, durante o governo Bolsonaro, as famílias chegaram a receber ordem de despejo.

“Tivemos 14 dias para recorrer. Foi uma angústia!… Estamos lidando com isso aqui desde 2014. Nós temos tudo: casa, esgoto, produção e uma cooperativa. Só não temos a posse assinada”, conta Gollo.

Um ato ecumênico

Em março de 2026, com o decreto nº 12.901, assinado pelo presidente Lula,que autoriza a desapropriação da Fazenda Fontana, a comunidade deu um passo importante no caminho da tão sonhada posse. A área foi finalmente destinada à reforma agrária e as famílias anseiam pela regularização. 

Para João Maria, dirigente estadual do Movimento Sem Terra, a expectativa é de que com a posse, as famílias possam acessar créditos, formalizar contratos e ampliar a produção.

Enquanto a posse não vem, as famílias comemoram a desapropriação. No dia 26 de abril, a festa na comunidade rural de Santo Antônio, reuniu mais de 200 famílias e simbolizou também a força e a organização das famílias assentadas.

“O assentamento é sempre uma conquista coletiva, construída ao longo de anos de luta e articulação política”, afirma João Maria. 

O trabalho das 17 famílias do Egídio Brunetto comprova essa conquista: abóbora cabotiá, milho e cana-de-açúcar são poduzidas em abundância. Sem falar das árvores frutíferas e da criação de animais. A produção impressiona até mesmo setores contrários à reforma agrária.

Dilso Barcelos, que coordenou o ato, destacou a presença do poder executivo local. Prefeito, ex-prefeitos e representantes da Câmara de Vereadores prestigiaram o evento. “É inédito o apoio e a valorização que o assentamento está tendo do município”.

Foto: MST-SC

Projeto de Desenvolvimento Sustentável

João Maria explica que o pré-assentamento Egídio Brunetto, assim como o já assentamento Terra Livre, em Canoinhas, são experiências bem sucedidas de PDS (Projeto de Desenvolvimento Sustentável), que  permitem conciliar preservação e produção, organizando o uso da terra de forma planejada. 

A área destinada ao assentamento tem 50% de mata nativa que não pode ser derrubada, mas para o MST, isso não é um problema.

“São áreas que exigem cuidado ambiental, mas que também permitem produção. A gente sabe trabalhar com frutíferas, sistemas agroflorestais, criação de peixes e fazer a produção de alimentos nas áreas agrícolas”, revela João Maria.

Além disso, o assentamento está localizado entre os municípios de Celso Ramos e Anita Garibaldi, na região central do estado, local estratégico para o escoamento da produção. Antes mesmo de ser um assentamento, o Egídio Brunetto tem gerado renda e desenvolvimento para a comunidade e o município.

Um nome, um compromisso

Durante a celebração, os presentes se emocionaram com a lembrança do homem que nomeia o assentamento. Catarinense de nascimento, Egídio Brunetto foi um importante líder da luta pela terra no Brasil e no mundo, além de fundador do MST em Santa Catarina. 

Para Gollo, o nome é mais do que uma homenagem, é um compromisso com o legado de luta e resistência política deixado por Egídio, que morreu em um trágico acidente de carro em 2011, no Mato Grosso do Sul, onde morava.

“Ele era um companheiro muito comprometido com a vida no campo. Sempre incentivou o cuidado com as sementes crioulas, com a natureza, mas também com as pessoas. Tinha essa preocupação com cada companheiro e companheira, de produzir bem, preservar e fortalecer a organização coletiva. É esse legado que o assentamento carrega”, completa João Maria. 

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