O empate em 1×1 contra o Egito, em Seattle, pela última rodada da fase de grupos, marcou a eliminação da seleção do Irã da Copa do Mundo de 2026.
Com três pontos conquistados, o país ficou na terceira colocação no Grupo G, atrás da Bélgica e do próprio Egito, e não conseguiu entrar na lista dos melhores terceiros colocados, ficando de fora das fases eliminatórias da competição.
No entanto, a passagem do país pela Copa inclui uma façanha: a de ter deixado o torneio sem sofrer nenhuma derrota – portanto, de forma invicta. Antes da igualdade contra os egípcios, a equipe iraniana empatou com a Bélgica por 0x0 e com a Nova Zelândia por 2×2. Ambos os jogos foram disputados em Los Angeles.
A invencibilidade iraniana ganha ares épicos se consideradas as condições que sua delegação teve que suportar durante a competição, incluindo restrições para entrar nos Estados Unidos e a proibição de pernoitar nas cidades onde foram disputados os jogos.
Diante desses problemas, os iranianos fixaram sua sede de treinamentos na cidade de Tijuana, no norte do México, e foram obrigados a viajar horas antes e horas depois de cada jogo. Ademais, em cada um desses traslados enfrentou hostilidade de agentes alfandegários, que atrasaram as viagens e prejudicaram ainda mais a preparação do time.
Segundo o jornalista Juca Kfouri, “nunca soube de algo parecido como se fez contra o Irã. De fato, não existe na história das Copas uma equipe tão vítima de condições injustas e desequilibrantes na competição”.
União nacional
Analistas esportivos e políticos avaliam que as condições impostas ao Irã seriam uma forma de represália ao conflito no Oriente Médio, no qual a República Islâmica estaria se impondo sobre Estados Unidos e Israel, ao menos momentaneamente, ao manter o controle do tráfego de navios pelo Estreito de Ormuz – conflito este, vale lembrar, que não foi iniciado por Teerã, e sim por um bombardeio lançado por Tel Aviv e Washington, no passado dia 28 de fevereiro, no qual morreram o aiatolá Ali Khamenei, então lider supremo da República Islâmica, e mais 168 pessoas de uma escola para meninas, entre estudantes e corpo docente.
Segundo Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), as dificuldades impostas pelo governo de Donald Trump e pela organização da Copa do Mundo podem ter dado à equipe um incentivo moral que ajudou sua seleção a lutar para ao menos não perder seus jogos.
“O Irã vive um momento em que o sentimento de união nacional está bem exaltado e isso pode ter contagiado os jogadores, como contagia a população inteira. Talvez até inspirando outros países. Acho que esse é o grande um grande mérito dos iranianos nesta Copa, servir como exemplo de postura a ser adotada diante de agressões imperialistas no Esporte”, destacou o acadêmico.
Já Bruno Lima Rocha, analista internacional e jornalista da HispanTV Brasil, “o mais correto seria realocar os jogos (do Irã) para o México ou tomar medidas para não prejudicar a rotina de treinos”.ç
“Me parece estranho o conjunto de resultados, mas o VAR está implacável na marcação milimétrica. Sem dúvida a perda do pênalti contra o Egito prejudicou, mas o pior foi ter uma péssima condição de treinamento e a tensão Pré Copa”, adicionou o jornalista.

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Críticas à FIFA
Ademais, Nasser salientou as “atitudes vergonhosas” não só do governo dos Estados Unidos, como também da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), organizadora do torneio, que têm tomado decisões polêmicas, as quais afetaram não apenas o Irã como também outros países – curiosamente, todos eles representantes do chamado Sul Global.
“Os Estados Unidos e os países europeus gostam de fazer crítica quando um país sede não é do seu próprio eixo. Quando a sede não é no chamado Ocidente, como foi em 2022 no Catar, sempre ressaltam as faixas protestando contra regimes autoritários. Mas os Estados Unidos, com todas as violações que cometem, não são considerados um regime autoritário”, pondera o professor da PUC-SP.
O especialista em Relações Internacionais lembra que, para além das políticas autoritárias internas aplicadas por Washington, especialmente contra imigrantes, as críticas ao autoritarismo do atual governo norte-americano podem se restringir apenas a temas envolvendo a Copa do Mundo, e que prejudicaram não somente a seleção do Irã.
Nasser recorda que decisões tomadas pelo governo norte-americano já prejudicaram as delegações de Egito, Senegal, Uzbequistão e da República Democrática do Congo, impediram a entrada de um árbitro da Somália e até mesmo uma jornalista brasileira que cobriria o Mundial.
“O chamado ‘país da liberdade e dos direitos civis’, ou ‘a maior democracia do mundo’, como eles gostam de dizer, está se portando de maneira vergonhosa, com uma cumplicidade tão vergonhosa quanto por parte da FIFA, e é não é de se surpreender que os casos tenham como vítimas sempre países do Oriente Médio, da Ásia, da África e da América Latina”, acrescentou o professor.
Juca Kfouri reforça as críticas de Nasser especialmente no que diz respeito à entidade organizadora da Copa, ao enfatizar que “a FIFA jamais teve credibilidade política ou no trato com dinheiro. Agora deixou de ter também no campo esportivo”.
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