“O Brasil não é quintal dos EUA”. A frase apareceu nos cartazes da manifestação estudantil realizada no centro do Rio em 7 de outubro. Ao lado da defesa da educação pública e da democracia, os jovens expressaram preocupação com a proximidade da família Bolsonaro ao governo Donald Trump e com o risco de subordinação do país a Washington.
A soberania tem efeitos sobre o emprego, a produção, a pesquisa e as escolhas de investimento. A pressão externa sobre instituições brasileiras atinge a capacidade do país de definir suas políticas e aplicar suas leis, inclusive às empresas que controlam grande parte da comunicação digital.
Em 30 de julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva impondo uma tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos brasileiros, somada à alíquota de 10% então existente. Na justificativa, atacou o processo judicial contra Jair Bolsonaro e decisões que obrigavam plataformas dos EUA a cumprir determinações da Justiça brasileira.
O documento oferece um exemplo concreto da associação entre pressão econômica e interesses políticos. Exportações brasileiras foram usadas como instrumento para contestar decisões de outro país sobre seu ex-presidente e sobre empresas estrangeiras. Para os setores atingidos, essa disputa envolve vendas, contratos e postos de trabalho.
O custo da política tarifária também chega à população dos Estados Unidos. Pesquisadores do Federal Reserve de Nova York estimam que cada ponto percentual de aumento das tarifas eleva os preços de bens de consumo em aproximadamente 0,25% após um ano. Parte do impacto alcança mercadorias produzidas nos próprios EUA, pelo encarecimento de insumos e pela menor concorrência dos importados.
Quem controla a circulação da informação
O poder das big techs acrescenta outra dimensão à disputa. Instagram, Facebook e WhatsApp pertencem à Meta e concentram canais usados por cidadãos, movimentos sociais e campanhas. Decisões sobre recomendação, publicidade e remoção de conteúdos afetam quem consegue ser ouvido.
A campanha de Lula levou ao TSE questionamentos sobre o desempenho de conteúdos no Instagram. Em resposta, a Meta negou interferência eleitoral e afirmou que uma falha global afetou a contagem de visualizações de Reels em mais de cem países, sem alterar sua distribuição. A existência da denúncia exige apuração; a resposta da empresa precisa ser examinada com transparência e evidências verificáveis.
A concentração desses espaços em empresas privadas dá alcance político às regras e aos sistemas que elas administram. Transparência sobre moderação, anúncios e recomendação é uma condição para que a sociedade possa fiscalizar seu funcionamento.
Direito de organização em debate
A controvérsia ganhou força com as decisões do presidente do TSE, Nunes Marques, sobre o canal de WhatsApp “Exército do Lula”. O ministro, indicado por Jair Bolsonaro ao STF, determinou a suspensão a pedido da campanha de Flávio. O corregedor Villas Bôas Cueva reverteu a ordem, e o caso teve novos desdobramentos até a autorização de funcionamento após o registro do canal pela campanha.
Outra decisão de Nunes Marques suspendeu a distribuição do jornal “Petróleo dos Brasileiros”, do Sindipetro Unificado, também a pedido de Flávio. O ministro considerou o conteúdo propaganda eleitoral irregular. O sindicato denunciou cerceamento da liberdade de expressão e do direito à informação.
O debate envolve o limite entre a fiscalização eleitoral e o direito de entidades e cidadãos discutirem propostas que afetam suas vidas. Para os movimentos que defendem a soberania nas ruas, a participação popular precisa de liberdade de organização, acesso à informação e instituições que assegurem tratamento imparcial.